Time Out Rio de Janeiro

Ernesto Neto

O astronauta que virou artista

Sua inspiração bebeu direto da fonte de grandes mestres das artes plásticas como Roberto Moriconi e Helio Oiticica. Suas obras são feitas de elementos em tecidos variados e comumente recheadas com bolinhas de chumbo, polipropileno, especiarias, miçangas, espuma e ervas, entre outras maluquices. A mistura de materiais inusitados, com a utilização de tensão, força, resistência e equilíbrio é a marca registrada desse artista festeiro.


Ernesto Neto tinha um sonho quando criança: lutar contra a guerra fria e impedir que o mundo acabasse. A pedra da Gávea era seu laboratório espacial, de onde elaborava suas armas e instalações que defenderiam o planeta. Como astronauta, tudo isso seria possível, além de sair por aí e descobrir o mundo. Hoje, Neto é o artista plástico carioca mais hype do momento, e segue sua saga de astronauta, desenvolvendo ao invés de naves, instalações enormes, onde as pessoas podem penetrar e fazer delas a sua própria cápsula de observação do espaço.


E foi de dentro do seu atelê, não à toa nomeado de Ateliê Nave, que a Time Out Rio bateu um papo descontraído com o lunático mais criativo da cidade.


Suas naves, ou melhor, instalações artísticas, faz uso de tecidos diversos. De onde você busca suas inspirações para a escolha dos materiais?
Busco minha aspirações no reino afetivo. Tudo que me toca: as pessoas, o habitat que eu vivo e os acontecimentos do mundo que me influenciam.Tudo isso vai passar pela ponta dos meus dedos na hora de criar, quando então deixam de ser objetos e passam a ter uma personalidade.


E o uso de essências nas inatalações?
Gosto de remeter sempre às sensações. Que é o que nos interliga como seres. O cheiro, por exemplo, traz recordações de fatos, lugares e pessoa para todo mundo. Gosto de pensar que as pessoas possam também se identificar com aquilo de alguma forma.


Suas obras priorizam a interatividade do observador com a arte. Por que ?

Arte para mim não é um show para se assistir, mas sim uma roda de samba, onde todos participam e se somam. Me interesso pelo que é comum ao ser humano. Não quero saber qual é o prato, quero investigar a fome. As bolas, por exemplo, são para mim as células do corpo biológico do qual todos nós somos feitos.


Na sua opinião quais são as características comuns dos cariocas?
Eu tive que ir para São Paulo para descobrir que eu era carioca! Não conseguia enxergar isso aqui. A identidade existe sim, apesar de eu não gostar muito desse conceito. Identidade geralmente classifica, julga e limita. Procuro ao máximo não ter identidade. A gente já tem tantos problemas na vida e ainda tem que saber quem a gente é? Tô fora! Quero mesmo é estar desencontrato!

Dentro dos seus desencontros, o que tem achado de melhor pela cidade?
Outro dia fui para Oswaldo Cruz num festival de rua e adorei! As pessoas são mais humanas fora da zona sul. Dentro daquela atmosfera viva, me senti mais sensorial. Se a Zona Sul se misturasse mais com a Zona Norte seríamos uma cidade melhor. Trazer essa onda carismática de chamarmos uns aos outros de “meu amor”, da mesma forma espontânea e genuina que rola lá.


Que dicas você dá para as pessoas aproveitarem mais esse Rio sensorial?
Gosto de estar fora. O melhor do Rio é a rua. A dica é aproveitar mais a rua e ficar menos dentro de casa. Andar mais, desestressar e curtir mais o ar molhado da cidade, que eu tanto gosto.


O que você mudaria na cidade para torná-la mais artística?
A monocromia de cores imposta pelas marcas, que querem transparecer que o que fazem é bonito, é arte. A hyperpublicidade invadiu os quiosques da orla, comprando cadeiras e guarda-sois e deixando tudo com o aspecto uniforme da marca.


Foi inaugurada uma nova galeria da Gentil Carioca, agora na Zona Sul. Qual a diferença desta para a primeira e mais antiga, no centro?
Uma é a “louca”, com atitude mais ousada e pensamento mais livre. A nova é a “playboy”, um pouco mais conservadora, mas não por isso menos arrojada. Com lançamentos de livros, palestras e festivais de cinemas. A idéia foi criar um pólo de encontro entre a arte, a música e o cinema. Tirar a zona sul da sua caretice que a condena.


Neto levará no mês que vem, sua nova exposição para São Paulo, na Galeria Fortes Vilaça (Rua Fradique Coutinho, 1500, Pinheiros. Tel: 011 3032-7066) do dia 10 de julho ao 18 de agosto.


 

Escrito por Alice Kuntz Moura
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