Time Out Rio de Janeiro

Tricotando com Letícia Matos

De agulha e linha em punho numa cadeirinha e semblante quase meditativo, está a bela, doce e tatuada artista plática Letícia Matos. Na conversa da Time Out Rio com a gaúcha de Porto Alegre que adotou São Paulo há alguns anos, ela começa falando sobre duas relíquias que ela carrega desde pequena: o sotaque do sul com direito a alguns ‘bahs’ e o tricô, que aprendeu com a mãe. 
Onde e como tudo começou?
Um dia, há mais ou menos um ano e meio, eu estava numa praça, ensinando umas amigas a fazer tricô. Aí a gente fez uns pompons coloridos que ficaram lindos e a gente pensou, e agora? Ah, vamos colocar numa árvore!’ Quando a gente foi contar, tinham 13…e daí veio o nome do projeto, o 13 Pompons.
E aí..?
Aí pensei: ‘Vou fazer uma intervenção dessas por dia, até o dia do meu aniversário.’ E eram 13 dias até o meu aniversário, olha que coisa! Depois disso, foi evoluindo e resolvi começar a ocupar a cidade, comecei a levar a ideia para outros lugares, viagens…tem coisa minha em Paraty, em Porto Alegre, em Belo Horizonte, em Buenos Aires. As pessoas começaram a fotografar na rua e aí quando eu vi, a coisa tinha crescido, com vários seguidores no Instagram…
Você sai por aí tricotando, é isso?
Isso, meu trabalho eu faço no ônibus, no metrô, se está um dia bonito, eu vou para um parque…
Existe algum critério para escolher o lugar, a rua...?
Eu escolho um ponto e penso no que tem a ver com aquele lugar, que cores, que tipo de trama, se vai ser tricô, se vai ser crochê. Quando é um poste, eu já tenho a medida padrão, se é outro lugar, tiro a medida, daí eu volto já com a trama pronta, só para costurar.
Como foi levar o tricô para a rua como arte?
Eu gosto da ideia de levar para a rua uma coisa que a gente aprende em casa. Me remete a uma coisa familiar, de zelo e eu acho que as pessoas também sentem isso.
O seu trabalho é às vezes feito pensando em alguém em especial. Como é esse processo?
Eu sempre dedico para alguém. Ou eu escolho um lugar que eu sei que a pessoa passa sempre ou cores que tem a ver com esta pessoa. Eu marco o dedicado pelo facebook ou pelo Instagram e a pessoa fica amarradona e sempre se identifica…acho que passa uma sensação boa, principalmente numa cidade tão corrida como São Paulo.
As pessoas interagem quando vêem você ali, ‘vestindo’ uma árvore na rua?
Ah, é muito difícil eu ficar sozinha, sempre pára alguém do lado. É bom, todo mundo quer conversar um pouco né? Eu chego sozinha e começo a colocar. ‘Você vai deixar aí?’, é o que as pessoas perguntam quando eu tô lá trepada num poste. As crianças vão direto na rede, querem pegar nos pompons. Às vezes vejo gente tirando foto, é muito bom.
Você se sente inserida neste ambiente da arte urbana?
O mais legal que eu acho na arte de rua é isso, essa proximidade. Você está voltando do trabalho e tem uma pessoa ali pintando, costurando ou fazendo sei lá o quê, que desperta uma curiosidade. Nada quer se explicar….o que importa é que aquilo que você vê e o que você sente quando passou por ali, não importa o significado para o artista.
Você já teve alguma experiência negativa na rua?
Cada um vê de um jeito. Tem pessoas que tocam, outras arrancam. Agora eu já meio que desapeguei, mas quando botaram fogo, fiquei bem triste. Vi tudo preto, queimado, achei agressivo…Mas hoje já me acostumei com a ideia de que estar na rua é isso, é efêmero. Me pilha para eu fazer mais e mais.
E como é participar do Art Rua?
Essa interação aqui é muito boa, fiquei feliz com o convite. Quando eu vou colocar alguma coisa na rua, eu sempre vejo se tem um grafite perto, penso em como comunicar a minha arte com o que já tem ali, no muro. Aqui, a mesma coisa.
Vamos ter alguma árvore ou poste decorados por você aqui no Rio?
Eu já vim pra cá algumas vezes e tava louca para vir para colocar alguma coisa pela cidade! Mas eu não tinha muita expectativa, sabe guria? Aí com o convite da feira, eu já comecei a pensar que lugar seria legal de colocar. Em São Paulo, é muito legal levar cor para um lugar que é mais cinza. Aqui no Rio também vai ser demais, porque a cidade já é colorida, já tem uma luz dourada.
Depois do Art Rua, para onde você vai levar o seu tricô?

Vou para a Praia do Forte para interagir com as artesãs locais, vamos fazer oficinas e depois ações juntas pela cidade. Quero aprender a fazer as coisas com elas, ver o que elas usam de material, juntar outras coisas no meu trabalho. Eu tenho curiosidade de ver como fica a técnica usando outras coisas. Tô bem animada com essa experiência. 

Escrito por Amanda Scarparo
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