Time Out Rio de Janeiro

10 minutos com Joana Cesar

De uma gentileza só, a enigmática artista plástica Joana Cesar conversa com a Time Out Rio enquanto se prepara para botar a mão na massa de papéis que se misturam à cola, ao rolo e aos outros materiais que vão dar origem à sua obra no Art Rua 2013.

Joana começa explicando a origem do material que vai usar...
Isso aqui é casca de outdoor. Um outdoor de papel, leva várias camadas, que vão sendo colocadas uma por cima da outra e depois de um tempo, quando já está a ponto de cair devido ao acúmulo, vem um profissional e arranca tudo para reformar as placas que estão por trás. Esse papel é vendido a peso. E eu uso para construir meus trabalhos. Tenho um bolo disso no ateliê e de vez em quando eu reviro, remexo atrás de alguma referência, alguma cor, alguma textura.
O que você pensou para este trabalho?
Há algum tempo tenho guardadas imagens de crianças que tirei de dentro dessas cascas de outdoors. Quando aconteceu essa barbaridade na Síria e imagens de crianças lutando para viver e respirar foram veiculadas nas redes sociais,  eu lembrei destes meus pedaços de crianças guardados, crianças despedaçadas no meio da publicidade, crianças descartadas… juntei isso tudo e vou misturar imagens dessas crianças, colando um monte de papel por cima, soterrando-as para depois descobri-las, e interferir. Foi um jeito de acomodar as imagens tão absurdas dentro de mim.
Que tipo de interferência?
Eu tenho um caderninho antigo, com experiências vividas na infância, escritas em códigos. Escaneei e ampliei algumas coisas desse caderno, que vão estar aqui, sobrepondo, criando camadas, mostrando o que está por trás. É como se tivesse protegendo as crianças e ao mesmo tempo revelando-as. 
Você acha que as pessoas conseguem captar o seu momento através das obras?
Acho que não. Aliás, tenho certeza que não. Mas não tem problema. No meu trabalho, eu uso muitos elementos escondidos. O que se vê na verdade é um volume, e aí você acredita ou não que tem alguma coisa por trás desse volume. Como a história da escrita. Se tem alguma coisa ou não ali por trás, aí é de cada um.
Como é expor no meio de tantos grafiteiros e artistas de referências diferentes?
Eu nunca tive uma ligação muito grande com os grafiteiros em si. Eu não ando de skate, não escuto hip hop, eu sou um pouco mais velha, sou meio isolada, então eu nunca tive essa coisa de ser da galera do grafite. Nem saberia dizer qual é a minha galera, sabe? Quando eu comecei a pintar na rua não conhecia ninguém.
E como foi surgindo essa interação?
Foi um problema no início, principalmente porque como eu pintava no alto, isso criava um tipo de mal estar, alguns pensavam ’pô peraí, como é que vem aqui uma mulher e pinta lá no alto e tal…?‘ Mas depois mudou, viram que não era nada daquilo. Hoje é outra coisa, é todo mundo parceiro.
Você acha que os trabalhos aqui se comunicam?
Sim, tem uma galera aqui que é querida, tem uma sintonia entre os trabalhos. O Antonio (Bokel) por exemplo, é meu amigaço. Um cara que sempre me incentivou, muito generoso. É bom estar com ele aqui, no mesmo espaço.
Como é expor ao mesmo tempo na Art Rio e no Art Rua?
É louco isso né…é diferente. Eu já tinha participado da ArtRio e esse ano eu sabia que a galeria que me representa estaria lá e então meu trabalho estaria presente de alguma forma. Do Art Rua eu nunca tinha participado, também fiquei super feliz de estar. O espaço é incrível.
Qual é a principal desafio para o artista em expor em diferentes ambientes?
Cada lugar é totalmente diferente. Uma coisa que me agrada muito é isso de montar o trabalho no lugar onde ele vai ficar. Na rua é assim. O que já é bem diferente do processo de construção de uma tela, que eu também faço, onde você está ali concentrada no seu trabalho e aquilo sai dali pronto.
Conta um pouco deste processo criativo…
Antes de uma obra, o que se tem é um caminho. O caminho que eu pensei, para o que me preparei. Para este trabalho, por exemplo, eu comprei estes materiais, separei estes papéis, imprimi estes cartazes. Agora o que vai sair daí, eu posso ter uma ideia, mas não sei ao certo. Por enquanto só tenho o caminho.
O espaço tem diferença direta no trabalho em si?
Eu sempre achei que a rua, o muro, o poste….tudo funciona como um suporte. Como a tela é um suporte, como a lona é um suporte. A rua funciona como um suporte muito particular, cheia de características próprias. O que eu acho esquisito é quando uma pessoa está acostumada a fazer um trabaho na rua, um trabalho que é de um jeito, e ela simplesmente repete este trabalho num outro tipo de suporte. É como se faltasse um pouco de questionamento. Acho que o suporte faz mudar o trabalho, necessariamente.
E qual o impacto desses suportes na sua obra?
Quando eu fui pra galeria e comecei a vender o meu trabalho, as pessoas queriam comprar o que elas viam na rua, as letras, e eu pensava ”mas não dá…não tem como...”. Porque tem a coisa que é da rua, e tem a coisa que é do ateliê. É outra luz, outro ruído, outros materiais, outro tempo. E as duas linhas de trabalho, apesar de parecerem diferentes, têm suas conexões que fazem todo o sentido. Aqui (no Art Rua) eu não estou na rua,  então posso usar materiais que eu não uso na rua. As histórias são diferentes porque os suportes são diferentes.

Escrito por Amanda Scarparo
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