Time Out Rio de Janeiro

A viagem

A viagem

Diretor Tom Tykwer, Andy Wachowski e Lana Wachowski

Elenco Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon

Tom Hanks faz meia dúzia de papéis em A Viagem, todos muitos constrangedores. Em um momento, ele é o médico barbudo de um navio em 1849, que não para de tagarelar e fazer palhaçadas; no seguinte, enrola a língua com gírias em crioulo sobre um futuro pós-apocalíptico. Embora mal dirigido, o ator e seus truques melodramáticos e exagerados estão em sintonia com o espírito dos cineastas, os irmãos Wachowski e Tom Tykwer, que se propuseram a fazer um épico no espírito Nova Era que abrange vários séculos.

Todos os principais atores do filme, e não apenas Hanks, encaram o desafio de fazer vários papéis: Hugh Grant aparece como um executivo repulsivo e como um xamã morlock, enquanto Halle Berry faz uma repórter investigativa e – em uma das muitas maquiagens raciais um tanto assustadoras do filme– a esposa branca que um tirânico compositor exibe como um troféu.

A história de vidas passadas vem de um best seller de David Mitchell, romance considerado “impossível” de filmar principalmente porque mistura não só enredos, mas estilos de prosa. Os cineastas honram essa estratégia formal ao apresentar seis segmentos diferentes – metade dirigida por Lana e Andy e o restante, por Tykwer – e ao passar de um para outro como quem zapeia a TV.

Em meio a essa montagem fervorosa, há lampejos de inspiração. Tykwer se diverte com as perseguições de carro e a mecânica de mistério em seu suspense paranóico dos anos 1970. Já os Wachowski utilizam o esquema de Matrix em algumas passagens.

É quase impossível investir em qualquer uma dessas breves aventuras. A Viagem é basicamente uma colagem de três horas e neutraliza qualquer envolvimento em seu quebra-cabeça de dramas ao tratar cada personagem como um pontinho em um jogo pseudo-espiritual de ligar os pontos. O melhor a fazer é aceitar o absurdo, como quando o cruel autor britânico interpretado por Hanks mata um crítico literário jogando-o da varanda – uma cena que deve ter algum valor de catarse para os diretores de Speed Racer. Eles não se tocaram de que a melhor vingança é fazer bons filmes.

Escrito por Escrito por A.A Dowd
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