Time Out Rio de Janeiro

De volta para o futuro

Ridley Scott explica por que retornou à ficção científica

“Filmes de ficção científica estão tão mortos quanto os de faroeste. Não há nada original. Já vimos tudo isso antes. Já estivemos lá, já fizemos isso.” A frase definitiva e categórica de Ridley Scott, em 2007, não deixava dúvidas sobre o que ele estava pensando. Cinco anos depois, o diretor de 74 anos protesta com uma dose de mau humor quando o lembro de sua sentença de morte: “Eu falei isso? Gostaria de não tê-lo dito”. Ele tinha acabado de participar de uma coletiva de imprensa em um cinema da Leicester Square, em Londres, e apresentado 11 minutos de seu novo filme de ficção científica. Isso mesmo, ficção científica – e não qualquer boa e velha ficção científica. A não ser que estivesse em Marte, você não deve ter perdido a forte publicidade sobre Prometheus – que começou como um prelúdio do agora clássico Alien - O Oitavo Passageiro.

Leia a crítica do filme Prometeus

Mas o que o fez mudar de opinião? “Eu tive uma ideia de repente. Ninguém parou para perguntar: quem é aquele cara grande na cadeira?” Ele se refere à criatura de 2,7 metros (que os fãs chamam de Space Jockey) cujo cadáver fossilizado foi descoberto pela tripulação no primeiro filme da série, mas que não aparece em nenhuma das três continuações. Scott diz que começou pensando sobre aquele ser e sua espécie. “Quem são eles? Por que estão lá? Se eu me aprofundasse nisso, seria suficiente para uma nova história?” Como é de se prever, quanto mais ele cavava a nova história, menos inclinado se sentia em ligá-la a Alien. Agora, diz ele, essa ligação “mal está no DNA: você só percebe nos últimos sete minutos”.

Prometheus se passa em meados deste século, quando dois arqueólogos (um cristão e outro ateu) descobrem o que acreditam ser uma pista para as origens do ser humano: as mesmas pinturas em ruínas antigas de diferentes países são mapas cósmicos, e a dupla embarca em uma missão a bordo da nave Prometheus – nome do deus grego que foi punido por dar o fogo aos humanos (e a punição foi dura: seu fígado era bicado por uma águia todas as manhãs, crescendo de novo a cada dia). Portanto, não precisamos que o trailer – com seus gritos desesperados de “arranca isso!” – nos diga que o encontro com nossos criadores pode não terminar bem.

Scott é um sobrevivente: um homem que teve de lutar por suas merecidas vitórias. Em uma carreira de altos (Alien, Blade Runner - O Caçador de Androides, Gladiador) e baixos (Até o Limite da Honra, Um Bom Ano), ele teve de assistir a estúdios retalharem seus filmes e críticos os interpretarem mal (que criticaram Blade Runner). “Ninguém sabia que diabos eu estava fazendo. Ninguém entendia. Depois, copiaram o filme.”

Um diretor no verdadeiro sentido da palavra, Scott dirige filmes épicos como quem manobra grandes tanques de guerra. Como ele impede que saiam do controle? “Utilizando atores muito fortes. Acho que sou muito bom nisso. Vou devagar. Porque todo mundo precisa defender sua ilha. Eles precisam conseguir sobreviver ao processo.” Ele fala assim mesmo, com frases curtas e grossas – seu sotaque é uma mistura de Teesside, Inglaterra (onde cresceu) com americanismos (ele mora em Los Angeles). Ganhou o título de Sir em 2003, mas deu uma bronca em um jornalista por chamá-lo com o título.

O diretor não quer rotular Prometheus como o primeiro de uma franquia, mas foi engenhoso em dar indícios apetitosos para Alien, incluindo o elenco. Noomi Rapace, que interpreta um dos dois arqueólogos, é, dos pés à cabeça, uma heroína nos moldes da personagem Ripley. Scott a viu duas vezes, como a implacável vingadora feminista Lisbeth Salander na versão original de Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres, antes de conhecê-la pessoalmente.

Michael Fassbender faz um androide, David (o mordomo da nave), e é justamente desse personagem que Scott fala com mais entusiasmo. “Assim como os deuses, os androides são mais fortes e inteligentes que os humanos, mas gostariam de ter suas falhas, de sentir o que eles sentem.” Deus está mais presente nos pensamentos do diretor do que antes, afirma Scott, que se converteu do ateísmo para o agnosticismo. “Você poderia ter dez cientistas nesta sala e perguntar: quem aqui é religioso? Cerca de três ou quatro levantariam a mão. Perguntei isso a uns caras da Nasa. E eles dizem: ‘Quando você chega ao final de suas teorias, se depara com um muro... Se depara com uma pergunta. Quem foi que pensou nisso?’” Scott se desligou da religião por ter sido criado na igreja anglicana. E hoje? “Agora meu coração escolhe o ‘pode ser’.”

Seu próximo passo é outro filme futurista, a sequência de Blade Runner. Se o diretor acompanha as novas tecnologias para se manter atualizado? Nem tanto. “Folheio a Scientific American e a National Geographic.” Quanto ao futuro, ele prefere não comprar a ideia de ‘maldição e apocalipse’. “Eu tento ser positivo. Sou essencialmente assim. Senão, não faria alguns dos filmes insanos que faço.”

Escrito por Time Out Rio de Janeiro editors
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