Time Out Rio de Janeiro

Zé Renato

Na estrada com Zé Renato

Não parece, mas o capixaba de nascimento e carioca por opção José Renato Botelho Moschkovich já tem mais de 30 anos de estrada. Uma trajetória que começou em 1978 no grupo Cantares e deslanchou no seminal grupo vocal Boca Livre, que até hoje, quando se reúne, dá uma refrescada nos corações e mentes de quem curte boa música. Desde os tempos do BL, Zé Renato vem desenvolvendo uma carreira solo que já levou o seu canto elegante, suave, raro no cenário da MPB de hoje, à Europa, França e Bahia.

Seu estilo evoca uma saudade gostosa, uma volta aos velhos tempos, ao reinado das grandes canções. Viagem no tempo? Na música, isso é perfeitamente possível. Zé Renato já passeou pela Jovem Guarda, pelo Rio de Noel e Zé Kéti e pelas quebradas românticas de Silvio Caldas e Orlando Silva. Sem contar o seu delicado trabalho autoral, gravado por meia MPB, onde ele mantém e faz avançar um lirismo musical que já o levou mundo afora.


Mas o seu porto seguro é o despojado e ao mesmo tempo sofisticado bairro do Leblon, no Rio, que tem tudo a ver com o músico, cantor e compositor com quem a Time Out conversou num simpático café.

O compor é a estrada e o cantar, a chegada
Acho que isso pode ser uma das interpretações. A gente pode transportar isso pra várias situações. Música e estrada são duas coisas que tem muito a ver, porque música não deixa de ser um caminho a percorrer, percorrer várias etapas e tal. A estrada pode representar a coisa de a gente estar sempre aprendendo, sempre observando coisas, incorporando trabalhos e tal. Uma coisa ligada meio que com a constância. E a estrada tem uma relação estreita com a viagem, fazer shows, turnês.

As viagens no tempo
Essas viagens fazem parte da história da minha base musical. As coisas que eu aprendi, as músicas que eu ouvi, e que aos poucos fui incluindo no meu trabalho. Isso ficou mais explícito quando eu fiz o negócio do Silvio Caldas. Foi a primeira manifestação em que deixei clara uma visão das minhas origens, do meu aprendizado musical. Depois teve a história do Zé Keti também, que fez parte do mesmo processo. No primeiro trabalho, eu já tinha um tempo de profissional. Foi em 1992, e depois teve o Zé Keti em 93, 94, por ai. Quando fiz o trabalho do Zé Keti eu me senti pronto, senti que tinha alguma coisa a acrescentar àquelas músicas que já haviam sido gravadas por várias pessoas.

Jovem Guarda
Foi a mesma coisa. São músicas que fazem parte da minha vida, que eu ouvi bastante. Não precisei pesquisar muito porque já tinha na minha memória, essas músicas ficam muito na cabeça da gente.

A vertente mineira, a vertente carioca
As músicas que faço mostram, como toda expressão artística na verdade, as coisas que a gente vive, viagens inclusive. Eu não sei dizer qual lugar está mais identificado com qual música. Eu sei que teve um momento, principalmente na época do Cantares, meu grupo anterior ao Boca Livre, que as músicas tinham uma temática ligada muito a Minas, muita influencia mineira, escutávamos muita músicas mineiras, Milton... E depois eu andei por Minas, visitei algumas cidades, e isso foi se confirmando. Então teve um momento que as músicas estavam muito ligadas a esse universo interiorano. Muita gente acha que eu sou mineiro, inclusive. Agora, eu acho que tem muito do Rio de Janeiro também na minha história individual. Os trabalhos citados, o Zé Keti, o disco que fiz com o Elton Medeiros e a Mariana de Morais. Também tem o Dobrando a Carioca (com Moacyr Luz, Guinga e Macalé), o nome já diz tudo. Um disco meu que se chama Cabô, quase só de samba é um disco que tem uma vibe bem carioca também.

A vertente internacional: Sting, Pat Metheny
Roxanne, do Sting, gravei no meu único DVD até agora, que eu gravei ano passado. Eu também tenho um DVD com o Boca Livre. Esse ganhou o Prêmio TIM de melhor grupo em 2008. Mas vi um VHS de um show do Sting (Bring on the night) onde ele canta essa música de um jeito diferente, com o saxofone. Essa interpretação foi pra mim a inspiração maior pra que eu cantasse Roxxane.
O Pat Metheny fez uma temporada aqui no Rio de Janeiro. Ele até morou aqui, foi casado com uma brasileira. Chegou a pensar em incluir na banda um vocalista brasileiro. Ele adorava o Boca Livre, chegou a cogitar escolher um de nós. E a gente se conheceu e tal, e mais adiante a gente gravou uma música dele: First Circle.

A vertente nordestina e o universo infantil
Forró para Crianças foi uma continuação do meu primeiro disco, Samba pra Crianças, aí eu cheguei ao Jackson do Pandeiro. Depois do samba, quis fazer um novo projeto na mesma linha. Ai comecei a perceber que várias músicas do repertório do Jackson tem a ver com universo infantil também. As letras, os ritmos, aquela coisa animada, tudo. E isso acabou resultando na experiência d o Forró pra Crianças. Quase que o nome do CD foi Jackson para crianças. Quase.

O lugar para chegar
É o Rio, aqui eu adoro tudo. O bairro em que estou morando, adoro o Leblon... A Lagoa, vou muito à Lagoa pra relaxar. O centro da cidade, aquelas ruas ali perto da Candelária, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Centro Cultural dos Correios. E tem uma música que fiz com o Chico Science, nos anos 90, que fala sobre o Rio de Janeiro, que passa uma imagem aérea do Rio de Janeiro, visto de um avião, você indo embora e a cidade ficando. Eu li essa letra dele pela primeira vez dentro de um avião. Eu tava indo para Paris, ele chegou atrasado pra se despedir de mim no aeroporto, e mandou a letra pela aeromoça. A música remete à de quando a gente sai do Rio, quando está anoitecendo, àquela vista bonita.

Música para a estrada
Eu aprendi a dirigir não faz muito tempo, tem 11 anos. Mas eu adoro dirigir. Morei dois anos em São Paulo, e andava muito de carro, vinha muito pro Rio visitar as crianças e tal, e peguei muita estrada. Escutei muito aquele disco da Corinne Bailey Rae, enquanto pegava a estrada. Frank Sinatra, muito Sinatra, João Gilberto, tem um disco do MPB-4, Cicatrizes, que eu adoro. Coisas mais sacudidas também. Tem horas que dá vontade de ouvir uma coisa mais animada aí fiz uma sequência com Zeca Pagodinho ao vivo, Paulinho da Viola...

A viagem com os muitos parceiros
Meu trabalho com os parceiros varia muito porque depende da música. A música vai rolando e você vai pensando nas pessoas. Tenho muita coisa com a Joyce, Pedro Luiz é um parceiro com quem eu tenho feito muitas coisas, muitas coisas inéditas ainda com ele. Acho que a forma de compor varia muito de acordo com a cara da música. Às vezes os parceiros entregam a letra para eu musicar. É um trabalho que gosto muito de fazer: musicar letras. A diferença é que quando você vai musicar a letra, você fica com uma liberdade na melodia muito grande, então ela vai por um caminho que é menos previsível. A letra, as palavras têm um ritmo que vão me guiando, vão me puxando. A melodia vai surgindo, o ritmo, em cima da letra de acordo com a sua visão. Pode ser que um outro compositor pegue aquilo e tenha outras idéias, mas eu gosto muito dessa história de musicar letra. É um trabalho difícil, mas tem um lado de experimentar uns caminhos que quando a gente faz a música sem a letra nem sempre acontecem.

Novos caminhos, velhos caminhos
Teve várias músicas minhas que eu tive a impressão de que já existiam. E às vezes, de alguma forma, existiam sim. Por exemplo, agora acabei de fazer mais um trabalho sobre Noel e percebi que várias coisas feitas pós-Noel tinham muitas similaridades com coisas dele, trechos de melodias, pedaços de letras, e isso é normal. Sempre quem vem depois está em desvantagem, por causa do que já foi feito antes. O tempo passa e fica cada vez mais difícil de as músicas serem completamente originais. Quase impossível, eu diria, sempre tem alguma referência de um trecho de alguma música já feita. Mas tem casos realmente que você pára e pensa “acho que alguém já fez isso”. Mas não sei se isso quer dizer que toda a música boa tem que ter essa sensação.

Lugares que inspiram
Caminhar pelas ruas de Paris passa uma atmosfera que me inspira bastante, porque cada lugar, cada quadra, tem um cenário, tudo ali um cenário pronto, natural. Eu tenho essa sensação em Paris. Na Espanha também, Portugal, Lisboa... Paisagens belíssimas.

Música e imagens
Nunca fiz música para filmes, mas eu adoro cinema, gosto muito de cinema e acho que músicas têm imagens que, para mim, são associadas a linhas geométricas, objetos sólidos. Melodias que descem e sobem linhas que vão para um lado ou para o outro, seguem reto. Isso está muito presente nas minhas referências internas quando eu vou compor. Às vezes, as músicas ficam na minha imaginação como linhas, movimentos muito variados. Pode ter a ver com matemática, elas seguem caminhos infinitos. Quer dizer, tem uma hora que acaba, mas não tem nenhum padrão. Fazem retorno, voltam, continuam. Tem músicas que a gente até inventa um final pra elas, mas elas tem uma estrutura que foge, você vai cantando parece que até o infinito, tem até que saber a hora de parar.

Viagens, música e lugares
Viajei muito na minha vida profissional. Com o Boca Livre, sozinho, depois trabalhei com Al Di Meola, caí na estrada. E vi muita coisa bonita, acredito que tudo isso, de alguma forma, está no meio das minhas melodias. Não está nomeado, explícito, mas está lá no meio. Vi muitas paisagens bonitas. Paris, Roma, Nova York são lugares bons de andar. Bacana que o que é inspirador são os lugares onde você pode ir caminhando, onde você começa a caminhar às 10 da manhã, e quando vê são 6 da tarde e você nem sentiu. Acaba o quarteirão, você quer mais, quer mais, e quando você vê, caminhou o dia inteiro. As imagens vão entrando, ficam gravadas.
 

Escrito por Ricardo Pessanha
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