Time Out Rio de Janeiro

Sergio Roberto de Oliveira e seus acordes

Do erudito ao popular, o compositor tem total domínio da música, a sua paixão desde a adolescência. Além de investir sempre na evolução de sua carreira, Sergio faz questão de propagar a importância dos ritmos clássicos contemporâneos através de shows pelo mundo a fora

Indicado ao Grammy Latino 2011 na categoria “Melhor Composição Clássica Contemporânea”, o compositor carioca Sergio Roberto de Oliveira está bombando no cenário musical brasileiro e internacional. No exterior, sua obra tem tido cada vez mais destaque, notadamente nos EUA e na Inglaterra, com palestras, entrevistas, concertos e publicação de obras. O erudito carioca, morador da Tijuca, falou com a TimeOut para contar as novidades da música clássica e seu universo de referências fantásticas, confira!

Quanto tempo estuda música?
Comecei a estudar música com 13 anos de idade. Estou nessa vida há 28 anos! Me profissionalizei em 1987, quando eu tinha 16. Comecei a compor música de concerto em 1995, estreando como compositor erudito aos 26 anos, isso foi em 1996.

Em que momento descobriu que iria dedicar a sua vida a isso, e não a outra carreira?
Certeza mesmo, a gente só tem quando a vida acaba. No 2° grau, aos 14 anos, tive a certeza de que era isso que eu queria fazer o resto da minha vida. Eu pertenço à música e ela a mim.

No início, que artistas brasileiros te inspiraram?
Principalmente Villa-Lobos, Tom Jobim e Elomar.

Como foi concorrer ao Grammy Latino em Las Vegas ano passado?
Uma experiência maravilhosa! Sentir-se parte de uma comunidade tão bacana, a Academia Latina de Artes e Ciências de Gravação tem gente de diversas tribos, que amam a música e o mercado fonográfico. Todos são vistos como vencedores, antes de mais nada por encararmos o nosso ofício com seriedade.

Já conhecia a cidade? Quanto tempo ficou lá?
Sim, já tinha estado lá para uma palestra na Music Librarian Association, a associação americana dos bibliotecários de música, que me convidou para uma palestra sobre a minha música em 2003. Tanto dessa vez como da outra, foram viagens rápidas de apenas alguns dias.

O que uma cidade como Las Vegas tem para atrair um músico clássico? Que tipo de programas fez por lá?
É importante que as pessoas saibam que somos iguais a todo mundo. Jogo bola, torço pelo Flamengo, vou à praia e gosto de tomar picolé. Claro, tem uma arte que eu consumo que a maior parte das pessoas ainda não consome. Sobre Vegas, desperta na gente uma coisa meio infantil. Referências que só conhecemos pelo cinema. Jogos, shows grandiosos, dinheiro. Há várias opções na área cultural e de entretenimento. Eu acabei ficando muito focado nos eventos da Academia, mas não deixei de assistir a um show de mágica, daqueles que a gente só vê na televisão.

Como tem sido sua rotina depois da viagem que marcou a sua carreira? Muita coisa mudou?
Mudou. Como sempre muito trabalho. Mas agora, bastante gente se deu conta que eu existo. E isso é realmente muito bacana. Porque embora ainda exista muita desinformação sobre a música de concerto contemporânea, as pessoas ao menos começaram a ouvir falar, por conta da indicação ao Grammy.

Como estão os seus projetos solos? O que você ainda fará este ano?
Este ano está agitadíssimo. Desde outubro comemoro os meus quinze anos de carreira como compositor. Já aconteceram alguns concertos isolados mas, o mais importante ainda está por vir, que é a série Quinze. Serão 13 semanas de concertos no Centro Cultural Justiça Federal, com a minha música e convidados. De 24 de junho à 21 de outubro deste ano.

Como será o projeto “Quinze”?
Vai ser uma grande festa em que participarão músicos do Rio de Janeiro, como o Quarteto Radamés Gnattali, Duo Santoro, GNU, Ventos do Rio, Luis Carlos Barbieri, Oitis, Tasto, Prelúdio 21, músicos do Japão, Aya Hamada, dos EUA, o grupo Vox Novus e o compositor Mark Hagerty. Também lançarei um CD com obras minhas e de Mark Hagerty. Por fim, em novembro, viajarei ao México com o Ventos do Rio, para concertos a convite da Embaixada Brasileira.

Fale sobre a coleçao que você vai lançar com o box, o que vc espera com esse trabalho?
Esse é um momento bastante interessante na minha vida e carreira. O box QUINZE, traz desde obras tocadas pela primeira vez, passando por outras já conhecidas do público, mas ainda não gravadas, até outras que ganham nova interpretação. Serão 4 Cds, com as minhas obras interpretadas por aquilo que temos de melhor na música de câmara carioca. Torço para que mais gente possa ouvir a minha música e ser tocada por ela.

E o seu Grupo Prelúdio 21, a agenda de show continua agitada?
O Prelúdio 21 continua forte como nunca, mantendo a série de concertos mensais no Centro Cultural Justiça Federal, entre abril e dezembro. No final do ano passado lançamos nosso primeiro CD, interpretado pelo renomado Quarteto Radamés Gnattali. Em 2012, lançaremos mais um CD, dessa vez com outro grupo top: o Quinteto Villa-Lobos. Me orgulho muito de participar do Prelúdio 21, esse grupo de feras que já é reconhecido como um dos mais importantes do mundo. Não é à toa que desde o ano passado abrimos nossa temporada em Nova York. No próximo ano não será diferente.

Como você faz para manter a agenda tão florida com shows de música clássica numa cidade tão agitada repleta de influências musicais urbanas? O público é muito diferenciado?
Mas é justamente por isso é que a agenda é intensa. Vivemos numa cidade que oferece muitas oportunidades diferentes, em que tudo cabe. Acho que o há é uma certa desinformação de grande parte do público sobre o que é a música clássica nos últimos 100 anos. Ou mesmo, desde sempre. Nada mais urbano do que ela, é vibrante, ousada e desafiadora para quem a escuta. O nosso público tem de tudo. Desde a 3° idade, universitários e crianças.

Você tem planos de se lançar mais em experimentos musicais que fujam do clássico? Como por exemplo, misturar o que você faz com ritmos mais populares como o samba e o funk? Se isso já aconteceu nos conte como foi.
Eu comecei trabalhando com música popular. E até bem pouco tempo (3 anos) tinha um grupo vocal que cantava samba na Lapa, chamado Estação Carioca. Mas a música de concerto é tão instigante, tão inovadora, que acabou sendo uma paixão muito forte, e fui cada vez me dedicando mais a ela. Principalmente desde o século XX, a música de concerto tem se misturado com a música popular. Ao mesmo tempo, toda tecnologia da música popular, desde sempre, vem da música de concerto. O uso de samplers, computadores, instrumentos eletrônico, pense numa inovação na música popular e saiba que ela nasceu na música clássica. Infelizmente, ao contrário, a caretice das pessoas joga a música de concerto para o underground musical. É falta de conhecimento.

Você, como pesquisador e estudioso do ramo, vislumbra algum grande talento jovem na música clássica hoje? Quem?
Como intérprete, destacaria o pessoal da Camerata Sinfônica do Rio de Janeiro. Inclusive, convidei-os a gravar em um dos meus Cds. Particularmente o violinista Ayran Nicodemo e o violoncelista Murilo Alves. Como compositor, sou fã do pessoal da OCA (Oficina Composição Agora), um grupo de compositores da Bahia que convidei para a minha série de concertos (QUINZE). Conheci-os através do Paulo Rios Filho, um jovem compositor que está e estará entre os melhores compositores do Brasil. Claro, para os meus ouvidos.

Na sua opinião, o que falta para a música clássica passar por uma desmistificação do conceito "musica chata"?
Informação, divulgação, curiosidade e coragem. O problema começa pela desinformação. As pessoas só conhecem a música de concerto de 200 anos atrás e acham chata. O que o pessoal tem que fazer é se arriscar mais. A música de concerto é que nem sashimi, da primeira vez que vc come, parece estranho. Mas depois que o seu "paladar entende", você quer mais.

Como fazer a massa entender a importância dela para a história da música, visto que ela é a base de quase tudo que chamamos de novidade musical?
Acho que entender é um segundo momento. Antes de mais nada tem é que ouvir mesmo. Como eu disse certa vez pro Marcelo Yuka, não tem música que sofra maior preconceito do que a música de concerto contemporânea. Depois disso, apresentei a minha música no show dele e a galera das bandas de heavy metal, rock e pop vieram falar: - Caramba, que música incrível Sergio!

O que não pode faltar em um músico que quer se especializar em música erudita?
Disciplina, porque temos que estudar um bocado. Paixão, porque só assim se acredita nos sonhos. E persistência, porque mesmo sendo uma música que atrai menos gente, temos que seguir construindo e modificando-a. 

Deixe um recado para os leitores da TimeOut que ainda não conhecem seu trabalho.
Venham assistir! Arrisquem-se! Falem comigo depois dos concertos. Perguntem. Essa música é pra gente inteligente e antenada. O típico leitor da TimeOut.

Confira o próximo show do Prelúdio 21. 

Escrito por Time Out Rio de Janeiro editors
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