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Milton Nascimento

Diferentemente de seus contemporâneos da MPB, Milton sempre aparece com um projeto realmente novo

Em 2008, Milton Nascimento lançou, ao lado do Jobim Trio, um bonito tributo a Antonio Carlos Jobim. Nele, não havia nenhuma música inédita de Bituca. Então, podemos dizer que "...E a gente sonhando" é o primeiro álbum de inéditas de Milton desde "Pietá", de 2002.

E a espera valeu a pena? Certamente, sim. Diferentemente de seus contemporâneos da MPB, Milton sempre aparece com um projeto realmente novo. Ou seja, assim como "Clube da esquina" (1972), "Milagre dos peixes" (1973) e "Pietá", esse "...E a gente sonhando" não é "apenas" um disco com canções inéditas, mas um álbum conceitual, como se quisesse inaugurar um movimento na música brasileira - embora o novo trabalho não tenha a mesma força dos outros três. Mais uma vez, Bituca investe em novos nomes da cidade mineira de Três Pontas.

A bonita balada pop "Olhos do mundo", por exemplo, é de autoria de Marco Elizeo Aquino (co-produtor do álbum, ao lado de Milton) e de Heitor Branquinho. Os dois artistas da nova geração trespontana também dividem o microfone com Bituca. Já a bela "Gota de primavera" é uma parceria de Milton com Pedrinho do Cavaco. O pianista Ismael Tiso Jr., por sua vez, é o responsável pelo samba-jazz "Do samba, do jazz, do menino e do bueiro", ao lado de Miller Sol. Ele também divide os vocais com Milton. Flávio Henrique é o autor da letra de "Amor do céu, amor do mar", cujos versos fazem a ponte com o passado ao relembrar a grande intérprete de Milton, Elis Regina ("Quando sonhei Elis Regina / Um coro de anjos se fez escutar / Meu coração desamparado se encheu de muitas cores / Cobriu todo ar"). Paulo Francisco (Tutuca) canta a canção com o padrinho.

E o passado volta em duas parcerias com Fernando Brant, "Me faz bem" (já gravada por Gal Costa, em seu incompreendido "Lua de mel - Como o diabo gosta", de 1987) e "Espelho de nós" (gravada por Simone de 1989), cujo dueto com o jovem Bruno Cabral faz a gente se sentir na cozinha de Milton. O dueto se repete na faixa-título, composta por Milton em 1965, e gravada (em versão instrumental) pelo Tempo Trio (primeira banda do Bituca). Como nada pode ser tão perfeito, são dispensáveis as regravações de "Adivinha o quê" (de Lulu Santos, e que ganhou um molho mezzo latino, mezzo jazz), "Resposta ao tempo" (invencível na voz de Nana Caymmi) e "O sol", uma balada pop do Jota Quest, que é pequena demais para a voz de Milton Nascimento. Dificilmente "...E a gente sonhando" terá a mesma força de um "Clube da esquina" ou até mesmo de um "Pietá". Mas não se pode negar que representa um enorme sopro de criatividade no cada vez mais anêmico mercado brasileiro de discos. Que próximo disco, assim tão inspirado, não demore tanto!

Escrito por Luiz Felipe Carneiro
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