Time Out Rio de Janeiro

As sobreviventes lojas de discos

Onde encontrar o pessoal que resistiu à internet

Se arrumar, sair de casa e ir atrás do álbum de seu artista preferido. Isso é programa de velho. Hoje, música se baixa na internet. Legalmente ou não. As lojas evaporaram em pouco mais de uma década no Rio de Janeiro. As que restaram são especializadas em MPB, jazz, rock e blues. Ou se dedicam apenas ao reavivado vinil. Ainda assim, são poucas e, na virada para 2011, a cidade perdeu sua mais tradicional loja de discos. A Modern Sound fechou as portas, depois de mais de meio século em funcionamento. Com menos uma opção, a Time Out Rio foi visitar e conversar com alguns desses sobreviventes do mercado fonográfico, que guardam boas histórias e muita paixão pelos vinis e CDs.

A moda agora é a volta do vinil. No ano passado, a Polysom, única fábrica de vinil da América Latina, foi reativada e já lançou discos como "Onde Brilhem Os Olhos Seus" (Fernanda Takai), "Fome de Tudo" (Nação Zumbi) e "Chiaroscuro" (Pitty). Mas o "barato" mesmo são os vinis antigos. A Tropicália é uma das lojas mais conceituadas em vinil e tem um bom acervo de rock internacional e MPB. A vantagem de ir a uma loja deste tipo é que tanto vendedores quanto clientes são especialistas e, dependendo do dia, você pode até perder a hora em meio a um bom bate-papo sobre música. "Em loja de disco só dá maluco", sentencia um dos frequentadores do local, conhecido como Nonô de Paraquaquá.

Um dos donos da Tropicália, Bruno Alonso, confirma a tese. "Aqui vem muito colecionador. E não só de vinil, as pessoas colecionam de tudo. Tem gente que coleciona capa. Tem um cara de coleciona numeração de disco. Um outro que guarda selos da Som Livre. É um vício", conclui Bruno.

O dono da loja, que começou vendendo na rua e abriu a Tropicália há sete anos ao lado de Márcio Henrique, diz que o local atrai clientes ilustres, como o ex-bateirista Charles Gavin e o cantor Ed Motta, fãs de vinil. "O Ed Motta fica igual pinto no lixo quando vem aqui, fica emocionado", conta Bruno. Em uma das estantes da loja, há um vinil do álbum "Dwitza", de 2002, autografado pelo cantor.

Mas não só de antigos amantes do vinil e personalidades vive o mercado do vinil. Também há jovem atrás de discos antigos, garante Bruno. "Tem uma garotada nova. Outro dia chegou um garoto aqui de 12 anos querendo os vinis dos discos antigos do Iron Maiden e Led Zeppelin". Um acervo grande com vinis raros é difícil de conseguir. A pergunta óbvia é: "onde vocês conseguem estes discos?", que ganha uma resposta elucidativa e bem engraçada do pessoal.

Bruno explica. "A gente compra os vinis de várias formas. Eu já comprei uma grande quantidade de uma rádio que estava fechando. Mas o normal é comprar de colecionadores que desistiram ou morreram. Aí a viúva fica louca para se livrar daqueles discos", diz. Já Nonô, vai além e brinca. "Você já foi a um velório de colecionador? Fica cheio de gente consolando a viúva. Mas não é para paquerar não. Está todo mundo atrás dos vinis. O cara abraça a viúva e já enfia o cartão dentro da bolsa dela", brinca.

Quem não é tão nostálgico, mas ainda curte pelo menos um CD, não fica sem opções. Na cidade há algumas ótimas lojas para quem curte bossa-nova, MPB, rock e blues. A Headbanger, na Tijuca, é uma boa opção. Lá você encontra um vasto acervo de rock e suas vertentes mais pesadas. Helder Gonçalves é um dos vendedores da loja e explica que a maior frequência do local é de pessoas acima de 30 anos. "Quem vem aqui é uma galera mais velha. São pessoas que já têm o próprio dinheiro, viveram a época do CD e gostam de comprá-lo. Já a galera mais jovem não vem aqui. Eles encontram tudo na internet".

Na mesma galeria, os fanáticos por rock ainda vão encontrar outras duas lojas, a Scheherazade e Darkland. Lá, além dos discos, há também camisetas das grandes bandas e todo tipo de acessório, como correntes, pingentes e anéis.

Entrando mais na linha da bossa nova, existem duas lojas que, além de oferecerem um excelente acervo de gravações do gênero, ainda possuem um algo a mais. A Bossa Nova e Companhia está instalada em um local histórico da música brasileira. Foi no Beco das Garrafas que surgiu a bossa nova, nos anos 1960. Quem ama música, gosta, além de escutar, de conhecer mais sobre o assunto. Por isso, a loja oferece um catálogo de cerca de 2,5 mil livros, entre biografias de músicos, songbooks e partituras.

Para completar, há a exposição do LP "Canção do Amor Demais", de 1958. O álbum, no qual Elizeth Cardoso aparece acompanhada por João Gilberto ao violão interpretando o clássico "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, é considerado o marco inicial da bossa nova.

Levando o nome de um dos expoentes do gênero, a Toca do Vinícius funciona na Rua Vinícius de Moraes, mesmo rua do Centro de Referência da Bossa Nova. Lá, você também encontra, além de LPs, CDs e DVDs, um vasto acervo de livros de história da música, songbooks, partituras, biografias e métodos.

Confira outros locais onde encontrar vinis e CDs:

Tracks Gávea
Praça Santos Dumont, 140 LJ B. Gávea -  Sr. Heitor

Tropicália Discos
Praça Olavo Bilac, 28 sala 207 - Centro (em frente ao Mercado das Flores. Entre Rua Buenos Aires e Rua do Rosário)

World Music
Rua Barata Ribeiro, 370, Loja 107 - Copacabana (esquina com Siqueira Campos)

Musicale
Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 1103 - Copacabana

Toca do Vinícius
Rua Vinicius de Moraes,129 - Ipanema

Scheherazade
Rua Conde de Bonfim, 346, sobreloja 209. Praça Saens Peña - Tijuca

L.O. Motta Discos
Rua Siqueira Campos, 143, Loja 94 - Copacabana

Headbanger
Rua Conde de Bonfim, 346, Sobreloja 209 - Praça Saens Peña - Tijuca

Hard And Heavy
Rua Marquês de Abrantes, 177, sobreloja 106.

Bossa-Nova e Companhia
Rua Duvivier, 37A- Copacabana

Boggie Oggie
Rua Soares da Costa, 10, loja 229 - Saens Peña - Tijuca

Berinjela
Avenida Rio Branco, 185, loja 10 - Centro 

Baratos da Ribeiro
Rua Barata Ribeiro, 354 - Copacabana

Arlequim
Praça XV de Novembro, 48, loja 11C - Centro

Escrito por Bruno Uchôa
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