Time Out Rio de Janeiro

Entrevista: Liam Gallagher

O ex-líder do Oasis fala à Time Out antes do show de sua nova banda, Beady Eye, no Eu Quero Festival, no Circo Voador

Em 7 de maio de 2009, o Oasis entrou no palco no Citibank Hall, na Barra da Tijuca, com Liam e Noel Gallagher claramente longe de serem os irmãos mais próximos do mundo, mas ainda assim capazes de entregar o tipo de show de rock’n roll que, a essa altura na carreira da banda, eles seriam capazes de fazer durante o sono. Depois de uma turnê por festivais da Europa e de inúmeras apresentações na Ásia, a banda se separou, com Noel indo embora dizendo que ele “simplesmente não poderia trabalhar com Liam por mais um dia sequer”.

Nenhum dos irmãos levou isso numa boa desde então; ambos, aparentemente, tentando provar suas habilidades em seus próprios projetos paralelos, que encontraram níveis diferentes de sucesso. Primeiro veio a banda de Liam, Beady Eye, e o álbum Different Gear Still Speeding, que chegou à 3ª posição entre os mais vendidos no Reino Unido, além de ter gerado uma série de singles, nenhum dos quais atingiu resultado similar às vendas do Oasis.

Na ressaca do recente lançamento do disco de Noel (nº 1 em vendas no Reino Unido), High Flying Birds, o Beady Eye chega ao Rio para tocar no primeiro festival organizado pelo pessoal do Queremos, na Lapa, com um ponto a provar. Sendo assim, encontramos Liam para descobrir onde ele está com a cabeça.

O que você tirou da resposta da imprensa ao seu álbum de estreia? Você acha que o disco teve o efeito que você esperava que ele tivesse?

Gem Archer: Para nós, ele realmente cumpriu seu papel, porque esse é o nosso primeiro trabalho. Independentemente de ser um álbum ou não, é o que nós temos, portanto ele nos deixou orgulhoso.

E um novo álbum ainda está nos planos para o fim desse ano?

Liam Galagher: Sem dúvidas, cara. É por isso que nós formamos essa banda, para continuar fazendo música. Sem sombra de dúvidas, cara. Sem dúvidas. E será uma beleza.

Alguma nova influência?

Gem: Estamos reunindo ideias nesse momento. Vamos ver como fica tudo quando entrarmos no estúdio, mas não estamos ouvindo nada de extraordinário agora. Não será um álbum de reggae. E certamente não será um disco de dance. Será somente um disco de rock’n roll de muita qualidade. Será outro grande álbum de rock’n roll.

Alguma banda no momento na qual vocês estão buscando inspiração?

Liam: Na verdade, não, para ser bem sincero. Eu gosto de Miles Kane, acredito que ele está realizando um bom trabalho. Ele é um rapaz jovem e eu acho que ele será mega. Mas para ser brutalmente honesto, eu não estou sendo um babaca ao falar isto, não há realmente ninguém. Se houvesse, acredite que eu estaria gritando isto de cima dos terraços da cidade, mas realmente não há ninguém.

Gem: Não há ninguém realmente colocando o mundo para ferver, ninguém tem identidade mais. Você olha para uma banda e você se vira e diz “é, eles são cool, eles têm uma ótima música”. Mas no minuto em que você começa a conhecê-los mais a fundo, eles começam a mudar a identidade deles inteira, você entende o que eu quero dizer? E música não é sobre isso. As pessoas estão se movendo rápido demais, cara.

O que vocês acham dessas bandas dos anos 90 que estão se reunindo após anos separadas?

Gem: É difícil, cara. Inicialmente, eu pensei: “bom pra eles”. Eu suponho que isso aconteça quando tudo deixa de ser em torno da música, e passa a ser sobre dinheiro fácil e rápido.

Liam: Tudo gira em torno de pagar as contas, e isso está tirando a magia da música e do motivo pelo qual você se junta a uma banda. Eles não deveriam ter se separado, para começo de conversa. Eu sei que as pessoas brigam e tudo mais, mas voltar a tocar juntos porque um deles está sem grana e o outro virou DJ, é como dar um nome ruim para a música. Separar-se para voltar depois só para fazer algum dinheiro é como decidir fazer isso desde o início. É tudo besteira, na minha opinião.

Gem: Tudo muito maquiavélico.

Você ouviu o novo single de Noel, “The Death of You and Me”?

Liam: Se eu ouvi? Eu cantei. Não somente essa, mas quase todas elas. Noel Gallagher é um grande autor de canções, não há dúvidas de que ele vai fazer um grande disco do qual as pessoas vão gostar. Algumas pessoas não vão gostar. Do mesmo jeito acontece conosco, você sabe o que eu quero dizer. Mas eu prefiro que ele faça música ao invés de não fazer música. É ótimo que ele esteja aí fazendo o que sabe fazer.

Você ficaria preocupado lançando um álbum ao lado de Noel?

Liam: Escute, amigo, se os Beatles se reunissem amanhã, eu não ficaria preocupado. E o Led Zeppelin. Eu sei do potencial do Beady Eye. Falar é fácil e tudo o mais, você sabe o que eu quero dizer, mas eu não estaria aqui e Gem não estaria aqui… nós sabemos o que nós temos em mãos, cara. Eu não colocaria um disco no mercado se eu não achasse que nós conseguiríamos encarar de frente qualquer idiota, que dirá Noel Gallagher. Então, sim, eu vou bater de frente com qualquer um. Musicalmente, fisicamente, menticamente… é, quer dizer… mentalmente – qualquer coisa. Sem dúvidas, sim, com certeza.

Bom saber que você ainda tem confiança…

Liam: Sim, é verdade. Eu tenho confiança. E não é arrogância, é confiança. Fiquei feliz que você usou esta palavra. Na verdade, não é nem sobre confiança, é sobre paixão. Tudo o que temos que fazer é cuidar do que estamos fazendo, e é como eu disse. Eu vou encarar de frente John Lennon, Elvis Presley, qualquer um desses caras, entende? Nós somos tão apaixonados quanto eles. E se você for apaixonado, ninguém pode te tocar, pode?

De onde vem a energia para fazer cada show como se fosse o seu último?
Liam: Viagra. Você deveria tentar algum dia. Aparentemente, é a melhor coisa. Você entende disso, você já experimentou, não?

A turnê não drena um pouco a energia?

Gem: De modo algum, é revigorante.

Liam: Vou te falar sobre o que você vai ver; você vai ver um pouco de realismo quando você vir o Beady Eye. É assim que nós somos, nós não nos tornamos outras pessoas quando estamos fora do palco, é assim que nós somos. Sem frescura, é puro rock’n roll, nada de ficar pulando pelo palco feito idiotas, você sabe o que eu quero dizer, é o que é.

Eu ouvi dizer que você parou de beber…

Liam: Bem, certamente eu não estou bebendo tanto quanto eu… gostaria de beber. Eu não estou bebendo muito este ano. Eu não larguei a bebida, eu só não tenho vontade de beber no momento. Nem tudo é bebida na vida.

Como você se sentiu com relação aos baderneiros de Manchester que atacaram uma loja da Pretty Green (marca de roupas de Liam)? Você levou isso para o lado pessoal?

Liam: Eu não acho que foi pessoal, não. Todos eles apanharam, não foi? O principal é que ninguém se machucou, e isso é importante para a Pretty Green. O estoque não foi queimado, nós temos seguro. São apenas roupas, entende? Eu não gostaria que isso acontecesse semanalmente, mas sim, tudo está OK.

Você não sentiu vontade de defender o lugar?

Liam: Fazer o quê, ficar lá com um taco de basebol? Eu não acho que isso seria sábio, seria? Eles iriam apenas danificar um pouco a loja e correr, de todo modo. É uma merda o que aconteceu, entende, mas ninguém se machucou.

Você tocou em um show beneficente em Londres e lançou um cover dos Beatles para o fundo de apoio ao terremoto no Japão. Você sente algum tipo de conexão especial com o país?

Liam: Sim, eu amo o Japão, eu sempre vivi momentos maravilhosos quando estive lá, as pessoas são incríveis, e definitivamente têm um bom coração. E não é somente porque o Oasis e o Beady Eye fazem sucesso por lá, eu apenas curto as pessoas, entende, todo mundo é muito legal. Então, estando em uma banda quando essas coisas aconteceram, nós estávamos prontos para ir e ajudar, entende? Era mais do que levantar dinheiro, entende, era somente para mostrar às pessoas que nós estamos pensando nelas, entende? Mas essa foi uma das melhores noites, musicalmente, para mim, de todos os tempos. Eu sei que foi sob circunstâncias horríveis, mas todas as pessoas naquele lugar… foi mega, cara. Uma noite mega e eu estou feliz de ter estado lá e testemunhado isso e sentido isso e foi simplesmente top.

Muitos artistas estão distribuindo suas músicas gratuitamente nos dias de hoje. Esse é o tipo de coisa que o Beady Eye faria?

Gem: As pessoas estão apenas tentando tantos caminhos diferentes. Eu não estou sendo cínico aqui, mas é que tudo gira em torno da divulgação que você obtém quando lança seu álbum, não é? No disco novo da Bjork, todas as músicas vêm com um app, entende o que quero dizer? A coisa do Radiohead foi só com eles, naquele álbum. Mas é a mesma coisa com o Bring the Light, nós tínhamos que começar em algum lugar, porque não era algo como o Oasis, era uma banda totalmente nova.

Qual a principal diferença entre fazer um show do Beady Eye e fazer um show do Oasis?

Liam: Tem uma vibe diferente, mas eu não gostaria de apontar exatamente o que é, acho que isso cabe a outras pessoas. Mas nós estamos igualmente de cabeça como quando estávamos com o Oasis, e o mesmo vale para o Gem. A diferença é que agora nós nos sentimos uns viralatas e eu curto isso, entende? Enquanto com o Oasis nós sempre entrávamos no palco como a atração principal. E agora nós somos viralatas e isso é legal.

Então você está curtindo ter algo a provar?

Liam: Sim. Sim, com certeza. Sem dúvida, eu simplesmente amo isso. Se nós pudéssemos ficar assim pelo resto de nossas vidas eu ficaria muito feliz, entende? Mas nós vamos em frente, não vamos? Então o novo disco será melhor, ele tem que ser e ele será melhor, e eu acho que nós vamos seguir em frente e progredir para ser uma banda do tipo atração principal. O que será ótimo, mas então toda a diversão vai embora, entende? Você não tem para onde ir, entende?

Então vocês não estão vislumbrando o sucesso?


Gem: Bem, sim, estamos, nós fizemos shows pequenos com o Oasis. Não foi sempre em estádios, entende? Nós não temos aquela fixação que algumas bandas têm por estádios e arenas. Tipo, nós fizemos tudo isso e ainda estamos aqui e ainda curtimos as mesmas coisas.

Liam: Nós estamos muito felizes de estarmos aqui agora, entende?


Gem: É maravilhoso, nós estamos atingindo o nosso público.

Liam: Em shows em que você é a atração principal, de modo geral, não importa muito quem você é, você é o assunto principal. Mas eu vi alguns shows coadjuvantes que superaram em muito as atrações principais, e espero que seja isto o que estamos fazendo.

Você diria que o público dos festivais mudou nos últimos dez anos?

Gem: Sim, para ser sincero. Em muitos sentidos. Mesmo nos EUA, nos últimos dez anos. Parece que há muito mais caos ao redor. Obviamente, você não deseja que haja nenhuma ocorrência ou nada do tipo, mas as pessoas, de modo geral, quando deixadas em paz, sabem como se divertir. Ninguém precisa ser super policiado. De modo geral, eu tenho fé de que as pessoas não vão explodir um lugar em pedaços.

Escrito por Time Out Rio de Janeiro editors
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