A cidade é o limite

Audaciosas e dramáticas, as criações de Olafur Eliasson estão em três pontos da cidade

Cortesia de Olafur Eliasson Studio

Ele faz brotar encanto do (quase) nada: Olafur Eliasson mistura luz, espaço, gotas d’água, cores ou vidro para fazer um trabalho que é muito mais do que a soma desses elementos. Em 2003, o artista plástico dinamarquês-islandês ficou famoso por juntar o reflexo do pôr do sol, gelo seco e um espelho na galeria Tate Modern, em Londres. O sucesso foi instantâneo: mais de dois milhões de visitantes se deitaram no chão do hall para observar o resultado.

Se esse tipo de minimalismo misturado à arte elementar faz seu coração disparar, então não perca a primeira exposição individual do artista na América Latina. Seu Corpo da Obra é o destaque do festival de arte contemporânea Sesc_Videobrasil 2011. A mostra, cujo curador é Jochen Volz, amigo de longa data de Olafur, não é a primeira do artista em São Paulo. Na Bienal de 1998, ele criou uma pista de gelo e encorajou os espectadores a experimentá-la.

O mesmo interesse em interagir com o público está presente nessa exposição. O título é uma provocação, escolhido em parte porque espelhos, caleidoscópios e efeitos ópticos apimentam a mostra e integram o público aos trabalhos.

Ver a exibição inteira não é tarefa fácil. É preciso ir às unidades do Sesc Pompeia e Belenzinho e à Pinacoteca. A recompensa? Sete obras novinhas e uma exposição como uma rede de pontos cintilantes que emolduram a cidade.

Mas como? Em uma sala escura do Sesc Belenzinho, um projetor giratório (‘Sua Fogueira Cósmica’) exibe retângulos turquesa, violeta, laranjas e vermelhos que atingem as paredes e desaparecem. Na Pinacoteca, a percepção e sua desconstrução também dominam os temas. O espelho em forma de disco pendurado no teto de uma sala vazia (‘Tome Seu Tempo’) foi mostrado pela primeira vez em 2008 no MoMA P.S. 1, em Nova York. Como o título sugere: fique por um tempo. O espelho vira devagar, uma concepção da realidade dá lugar a outra. “Muitos dos trabalhos são sobre como nos orientamos e se o que vemos é real ou não”, explica Olafur Eliasson.

Mas o destaque do espaço é a ‘Microscópio para São Paulo’, uma enorme pirâmide de cabeça para baixo, pendurada entre duas das pontes do pátio da Pinacoteca, que transformam o espaço em um grande caleidoscópio. Atravessar a passagem superior pode causar vertingens e o público vê o próprio rosto flutuando no espaço. “Enquanto espectadores, nós também somos criadores”, acredita o curador Volz, acrescentando que a abordagem de Eliasson é profundamente humanista. “Você cria a realidade e ela cria você.”

No Sesc Pompeia, uma queda d’água em tmanho real, um labirinto feito de painéis coloridos e seis luminárias poliédricas com peças de xadrez penduradas – como pequenos planetas – misturam-se no espaço.

Apesar de bem trabalhadas, algumas das peças do artista podem funcionar como anticlímax. Na instalação de vídeo ‘Sua Cidade Empática’ feita em parceria com o cineasta brasileiro Karim Ainouz, o artista sobrepõe quadrados de cores primárias a cenas de carros em movimento, ciclistas no Minhocão e crianças jogando bola. Mas, apesar de o público “criar” algumas das cenas, graças a um efeito visual que nos faz ver cores que não estão lá, a obra parece mais conceitualmente intrigante do que materialmente satisfatória.

Esse não é o caso do impressionante ‘Seu Caminho Sentido’, em que uma grande sala é preenchida com uma névoa artificial tão densa, que o público só consegue enxergar pouco mais de meio metro à frente. Rostos e corpos surgem com uma proximidade perturbadora. Vagueie um pouco e, em um canto da sala, a névoa branca reaparece. Desconcertante, desgastante e sedutora, a última meditação de Eliasson sobre orientação espacial faz o público imergir não apenas em um conceito, mas em uma troca de experiências emocionais e físicas, como se se perdesse para depois se encontrar. “A arte é uma linguagem, pode-se usá-la para qualquer coisa”, diz Eliasson. “Não se trata tanto de como se faz, mas por que se faz .” E por que ele faz? “Para me sentir conectado e para lutar contra a crescente falta de interconectividade com o mundo.”

Pinacoteca, Sesc Belenzinho: R. Padre Adelino, 1.000, Belém, 11 2076-9700. Ter. a sáb., 9h-22h; dom., 9h-20h. Sesc Pompeia: R. Clélia, 93, Pompeia, 11 3871-7700. Ter. a sáb., 9h30-21h; dom., 9h30-20h. Até 8/1. sescsp.org.br

Escrito por Grace Fan
 

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