Última Palavra - Isay Weinfeld

Premiado arquiteto discorre sobre transporte, Vila Madalena e, até, a decadente Love Story

Carwall

Você se mudou para esse seu conjunto de escritórios na Vila Madalena no ano passado. É a primeira vez que trabalha em um edifício criado por você?

Isso. Antes era uma casa. Nos últimos 30 anos, na mesma casa.
E, depois, nos mudamos para cá.

E está dando certo? Tem alguma coisa que você teria feito diferente?

Não. Está tudo certo. Estou muito feliz de estar aqui. É mais espaçoso para os arquitetos e mais confortável para as pessoas trabalharem. Eu acho que ele tem uma informalidade que é uma característica aqui do bairro – uma coisa mais cool, mais relaxada.

O que este prédio tem de tão ‘Vila Madalena’?

Tudo. É a cara do prédio. São os materiais. Esse prédio aqui, por exemplo, eu jamais faria na Avenida Paulista ou na Avenida Faria Lima. É o jeito que ele tem, como ele se coloca na rua. Eu acho que é o que ele significa.

É uma localização gostosa também. Bem no coração do bairro.

É. Há muitos bairros que você passa por longas avenidas, com prédios residenciais, com grades, calçadas estreitas, automóvel. Na cidade de São Paulo, por causa da violência, criaram-se os muros, as grades. Isso afasta você da relação com o edifício. Depois, o fato de você não ter comércio misturado. Eu gosto quando as coisas se misturam. Dá vida para a cidade, né? Então, isso acontece só em certos bairros. Aqui, na Vila Madalena, está acontecendo. Aqui tem uso misto.

Muita gente acaba tendo de usar o carro para se locomover – muitos não têm muita escolha em alguns bairros.

É. Porque aqui não foi dada prioridade ao pedestre e isso é o pior problema da cidade, na minha opinião. Foi dada prioridade ao automóvel e não ao pedestre. Isso se transformou em uma coisa difícil de conviviência diária.

Estão tentanto, agora, com essa campanha para encorajar mais respeito da parte do motorista em relação ao pedestre? Até eu acho que os carros estão respeitando um pouco mais. Não sei se é só minha impressão…

Eu acho que sim. Está na hora já, né? Já era hora de respeitar. Mas eu acho que a intervenção poderia ser maior. Numa cidade que permite muita coisa… Tem de querer fazer, agir e ousar. Porque a cidade tem muita coisa para se mexer, para se fazer. Só que eu acho que precisa de uma ação, realmente, mais intensa, né? Uma mexida na cidade.

Você se refere ao transporte ou a outros aspectos?

No transporte, evidente. Melhorar o transporte coletivo de uma forma geral, e quanto mais estação de metrô, melhor. Isso, sem dúvida, é fundamental. Eu moro na Santa Cecília e eu gosto muito de andar por ali. Mas, para o resto da cidade, se fosse possível se locomover de metrô, além de andar a pé, é o meio de transporte ideal.

O centro é um ótimo bairro para ser explorado a pé.

Exatamente. E é tão bonito, o centro. Outro dia eu andei, domingo pela manhã, eram 7 horas, a pé por todo o centro. Foi um dia maravilhoso e ensolarado numa São Paulo deserta, belíssima.

O que você fazia tão cedo?

Fui caminhar com um amigo. Não correr, mas me exercitar com um amigo que corre. E fomos pelo centro todo e entrei em várias igrejas que eu não conhecia.Entrei na Catedral da Sé também e outras – entrei em uma com um culto feito só para japoneses, que eu não conhecia, não tinha entrado. Percorri o centro inteiro a pé e, na volta, a Love Story estava aberta às 9h45 da manhã. E, aí, entrei.

Sério? E você ficou ali um pouco? Parou para um drinque?

Ficamos. Foi um domingo sacro e profano. Tudo do que eu gosto, os dois opostos da cidade. E foi um passeio riquíssimo. Mas muitos mendigos na rua – muita gente, infelizmente, pelas ruas. É uma pena, porque é muito bonito. E tem prédios maravilhosos.

Já conversei com você em outra ocasião e você disse que São Paulo era uma cidade capaz de acomodar quase qualquer tipo de arquitetura.

Eu não sei se é bom ou se não é, mas eu sei que isso acabou dando uma personalidade para cidade de São Paulo. Ela é muito generosa nesse sentido, para um arquiteto como eu. Me permitiu expressar da maneira como eu me sinto bem, e, então, eu sou muito devedor da cidade de São Paulo.   

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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