Estilo em queda

Quem se lembra quando ser uma dasluzete era o sonho das patricinhas paulistanas?

Paul Keller

Adentrar o imponente prédio de arquitetura neoclássica da Villa Daslu, à beira da Marginal Pinheiros, se tornou uma experiência contraditória: concentre-se no atendimento e verá que ele se mantém impecável, melhor, até, como se você fosse único em toda a gigantesca loja. Mas, se a escolha for pelo caminho da confrontação, para encarar os fatos sem rodeios, vai enxergar diante de si um templo em decadência. Uma sofisticada decadência.

A Daslu se tornou sombra da imponente megabutique de luxo, um dos símbolos de poder, status e riqueza para os paulistanos – e para muitos brasileiros. A verdade é que o lugar ocupa agora uma pequena parte do gigantesco prédio na Zona Sul. Para os ouvidos mais atentos, a cada dia, engenheiros dão ordens para desativar mais um trecho da área. À medida que seus membros vitais vão sendo desativados, uma porta com espelhos é colocada para disfarçar a redução de espaço – e manter a pose. Algumas delas, desatentamente semiabertas, permitem que se vejam as salas vazias, humilhadas, saudosas de seus dias de glória.

As escadas rolantes estão desligadas, mas com o acesso ainda liberado é possível seguir pelas entranhas do prédio. Quem as percorre pode ver galpões com araras vazias e carrinhos de compras cheios. Sim, cheios de poeira e partes de estantes e pilhas de livros de botânica, que uma vez serviram de decoração para diversos cantos da loja.

Letreiros de grifes como Pollignanno Al’Mare, Ermenegildo Zegna e Calvin Klein anunciam espaços com fiação elétrica à mostra, agora desalinhados. Visto da área desativada, um helicóptero pendurado em uma parte ativa da loja parece (um pouco) surreal e (muito!) deslocado.

As lindas dasluzetes, apelido cheio de significado para a função de garotas da classe média alta, algumas da alta sociedade, em seu primeiro emprego, já não estão mais ali. Quem se lembra dos tempos de atendimento das vendedoras VIPs como Carolina Magalhães, da poderosa família de políticos da Bahia, ou Sophia Alckmin, filha do governador Geraldo Alkmin? Não importa. Os funcionários agora circulam pelo local como se nada estivesse fora do lugar, indiferentes a apelidos de uma era. Os vendedores e as arrumadeiras, com suas roupas e uniformes impecáveis, não deixam de perguntar, sorridentes, se podem ajudar a encontrar alguma peça ou artigo. E os clientes fiéis, que não abandonaram a loja, continuam comprando como se não houvesse nenhuma outra rede varejista de luxo na cidade. A cumplicidade da marca com seu público fica evidente e parece inabalada.

A Daslu, que passa por uma fase de recuperação judicial, não deve mais ocupar o prédio, mas a assessoria de imprensa da grife ainda não divulgou a data de saída do prédio. Fica a dúvida se a mudanças se darão perto da inauguração do Shopping JK Iguatemi, lugar em que a loja deve instalar uma nova butique, prevista para os meses de março ou abril de 2012, ou se sua permanência se estenderá um pouco mais.

A WTorre, proprietária do complexo de prédios que deve abrigar o JK Iguatemi, informou que a readequação do espaço, hoje utilizado pela Villa Daslu e que deverá sediar também escritórios, tem prazo até o primeiro semestre de 2012. Mas uma visita ao local parece indicar que a retirada é iminente e poderá ser feita da noite para o dia.

A Laep Investments, ao adquirir ativos e a marca (agora como “Nova Daslu”) de credores das antigas empresas do Grupo Daslu, realizada em assembleia geral realizada no dia 24 de fevereiro de 2011, foi a única que apostou nisto.

Em fevereiro do ano passado, eles ofereceram o valor simbólico de R$ 1.000 e se comprometeram a colocar R$ 65 milhões na empresa que passa por dificuldades desde 2005, quando foi alvo da Operação Narciso, realizada em conjunto por Receita, Ministério Público e Polícia Federais. Na ocasião, Eliana Tranchesi, a dona, foi presa e condenada a 94 anos de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, fraude em importações e falsificação de documentos – por meio de um habeas corpus, ela responde ao processo em liberdade.

Escrito por Carol Teresa
 

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