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De volta à origem

Pela primeira vez, os murais de Candido Portinari serão expostos em São Paulo

Atualizada em 21/4/12

Difícil imaginar um lugar mais apropriado para pendurar um quadro como Guerra e Paz, o imenso díptico do artista brasileiro Candido Portinari, do que a entrada da Assembleia Geral da ONU. Vistos diariamente por alguns dos mais importantes diplomatas do planeta, os dois painéis, de 14 metros de altura cada, costumam ficar em uma área restrita ao público na sede da organização em Nova York, como um lembrete nu e cru sobre o contraste entre os períodos de trevas e os de alegria.

Pela primeira vez na história, as obras saíram da ONU e voltaram à sua terra natal. Após um período de restauração e uma exposição no Rio de Janeiro, elas chegam ao Memorial da América Latina, em São Paulo, para uma mostra que vai até abril – antes que os painéis, acompanhados de cerca de cem esboços inéditos feitos para o projeto, sigam para exposições na Argentina, na Turquia, na Noruega e no Japão.

Divulgação
Painel 'Palácio'


Em Guerra, as pessoas cobrem o rosto com as mãos, ficando de joelhos em sinal de súplica para que o pesadelo acabe. Em Paz, crianças brincam e pessoas dançam sem nenhuma preocupação.

Foi em 1950 que o governo brasileiro pediu que Portinari pintasse Guerra e Paz para presentear a ONU, que solicitara doações de obras de arte dos países-membro. Na época, o nome dele já era bastante conhecido fora do Brasil. Como integrante da escola modernista de pintura, ele já havia feito uma mostra individual no MoMA de Nova York, em 1940, e outra na Galerie Charpentier de Paris, em 1946. Ele também já tinha pintado murais na Biblioteca do Congresso, em Washington.

Desobedecendo ordens médicas – o artista de 50 anos sofria de uma doença causada pelo chumbo presente nas tintas –, Portinari aceitou o desafio. Segundo João Portinari, filho do pintor e diretor do Projeto Portinari (que organiza essa exposição), o pai era muito dedicado à arte. “Ele se considerava um artesão, um sapateiro”, conta. “Ele não acreditava em inspiração, somente em trabalho duro, e trabalhava da manhã até a noite.” Isso ajuda a explicar a fartura de sua obra, que inclui mais de cinco mil peças, entre pinturas e esboços.

Mas isso não explica a diversidade de estilos que ele usava – uma rápida revisão em sua obra já é suficiente para confirmar o que Antonio Callado, seu biógrafo, dizia: seus quadros poderiam ter sido feitos por seis artistas diferentes. Por exemplo, Mestiço, que faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado, mostra um forte trabalhador rural afro-brasileiro pintado em estilo figurativo. Já Favela com Músicos, que está na coleção da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, retrata barracos abstratos e músicos que parecem se misturar ao fundo. “Ele era um pesquisador incansável.” 

Divulgação
'Favela de Músicos'

Crente no poder transformador da arte, Portinari colocava significados e sentimentos em suas pinturas. “Seu trabalho sempre tem duas linhas: drama e poesia, tragédia e lirismo, fúria e ternura”, explica o filho, acrescentando que Guerra e Paz é particularmente especial por conseguir sintetizar tudo isso. Mas, apesar do universalismo, a obra de Portinari também é muito brasileira no que se refere aos temas, que abrangem de tudo – desde retratos das dificuldades do Nordeste rural até cenas festivas. João resume: “Ele criou um retrato emotivo e crítico de nosso povo e de nossa alma”. Guerra e Paz Memorial da América Latina, Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, Barra Funda, 3823-4600. Abre em 7/2. Até 20/5. memorial.sp.gov.br

Outros ‘Portinari’ por São Paulo

– Fundação Maria Luisa e Oscar Americano
: As telas Meninos e Piões, Favela com Músicos e Menino com Arapuca ficam em exposição permanente nessa linda fundação, localizada no Morumbi. Escolha um dia de sol para visitar a casa e os jardins, aprecie as belas cores e os estilos variados usados pelo artista. Avenida Morumbi, 4.077, Morumbi, 3742-0077.fundacaooscaramericano.org.br

– Palácio dos Bandeirantes: Bem em frente à Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, o Palácio dos Bandeirantes abriga o quadro Tempestade Acalmada, em que marinheiros parecem estar se recuperando de uma tempestade no mar. Avenida Morumbi, 4.500, Morumbi, 2193-8282. acervo.sp.gov.br

Pinacoteca do Estado: O forte e belo Mestiço, obra em que um jovem olha para fora da tela com um olhar penetrante, faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado, juntamente com outras 15 obras.

Masp: Outra obra muito famosa de Portinari, O Lavrador de Café, pode ser vista no Masp – o que é uma sorte, pois o quadro foi roubado em 2006, junto com um Picasso, e recuperado três semanas depois. O acervo do museu conta com outras 16 obras do artista.

Escrito por Alice Rangel
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