Time Out São Paulo

Entrevista: Martin Scorsese

‘Tenho sorte de ter uma filha ainda com 12 anos. Quando vou trabalhar, consigo ver o mundo do ponto de vista dela’

É, é verdade, tem o meu nome, mas é um filme de família”, ri Martin Scorsese ao telefone em Nova York, apenas algumas horas antes de embarcar em um voo para Londres. Mas também há um quê de irritação em sua voz. Ele deve estar ouvindo isso muito ultimamente.

Alguns dias após nossa entrevista, o homem por trás de Taxi Driver e Os Bons Companheiros apertaria as mãos do príncipe Charles na exibição de As Invenções de Hugo Cabret na Royal Command Performance, um claro sinal de que seu novo longa – um filme de fantasia para toda a família, que se passa nos anos 1930, rodado em 3D e sobre o encontro de um órfão parisiense com o cinema mudo – não inclui palavrões nem sangue nem Joe Pesci ameaçando cortar alguém em pedacinhos.

“Para falar a verdade, eu queria fazer um filme que minha filha pudesse ver”, explica. “Tenho sorte de ter uma filha ainda com 12 anos. Tive filhas aos 30 e poucos anos e outra aos 57. Estou um pouco mais velho, talvez não muito jovem, mas ficamos quase todos os dias juntos e somos amigos. Então, quando vou trabalhar, consigo ver o mundo do ponto de vista dela.”

Obviamente, não seria nenhuma surpresa se a filha de Scorsese fosse mais cinéfila que a maioria das meninas de 12 anos. Seu pai não é apenas um dos principais cineastas do mundo – um homem que conseguiu manter a carreira em alta desde Caminhos Perigosos, nos anos 1970, até Gangues de Nova York, no novo milênio, passando por Touro Indomável, nos anos 1980, e A Época da Inocência, da década de 1990 –, como também um divulgador incansável da história do cinema e do cinema mundial.

Esse ítalo-americano de 69 anos empresta seu nome e investe dinheiro em restaurações de filmes, faz documentários sobre cineastas do passado e agora dirigiu As Invenções de Hugo Cabret, obra que celebra o cinema mudo. Um filme tanto para crianças como para adultos, inteligente e livre de cinismo. “Ótimo, era isso que eu queria”, afirma a inconfundível voz do outro lado da linha – rápida, em stacatto, completamente nova-iorquina.

O filme é uma adaptação do livro infantil de 2007 escrito por Brian Selznick, que cria uma história de fantasia a partir do fato de Georges Méliès, diretor de Viagem à Lua (1902) e um dos primeiros idealizadores e magos dos efeitos especiais do cinema, ter se tornado dono de uma loja de brinquedos na estação de Montparnasse, em Paris, depois de sua produtora de cinema ter falido com o estopim da Segunda Guerra Mundial.

Tanto o livro como o filme contam a história do menino Hugo Cabret (Asa Butterfield), órfão que vive nos esconderijos da estação Montparnasse, que vive fugindo do severo inspetor da estação (Sacha Baron Cohen) e que descobre pela sobrinha de Méliès (Chloë Grace Moretz) que o tio dela, o ranzinza lojista (Ben Kingsley), um dia foi cineasta. É uma tentação ver Hugo Cabret, entre todos os filmes de Scorsese, como o que mais segue a tradição de Méliès: ele se baseia em efeitos especiais e tecnologias de filmagem e, assim como o thriller psicológico A Ilha do Medo (2010), mas de uma maneira muito diferente, é um filme de imaginação.

“Não tenho tanta certeza, não vi o filme dessa forma no começo”, diz Scorsese, inicialmente evitando relacionar seu filme diretamente a Méliès. “Para mim, foi o menininho que me fez querer fazer o filme. Foi a história dele. Só depois é que as pessoas ao meu redor, pessoas com as quais eu estava trabalhando, começaram a relacionar o filme com meu trabalho de restauração e redescoberta de cineastas.”

Durante a mesma visita a Londres, Scorsese também estava se preparando para lançar uma versão nova e purista de Coronel Blimp – Vida e Morte (1943), de Michael Powell, uma restauração parcialmente financiada pela World Cinema Foundation, comandada pelo cineasta. Scorsese, definitivamente, não é um homem que está se preparando para a aposentadoria. “É, é verdade”, responde ele quando pergunto se sente mais urgência em fazer as coisas agora que está perto de completar 70 anos. “Você está certo. E, como você diz, faz quatro décadas que comecei, mas, sem querer subestimar isso, houve lutas e momentos quando as coisas não foram tão boas, e eu tive de brigar para fazer o que queria.”

Com seu jeito rápido e repetitivo de falar, ele destaca a realização de Taxi Driver, em 1976, como uma época em que ele, duas semanas após o início da rodagem, teve de bater o pé com os produtores do filme e falar que teria de ser do jeito dele, ou o filme não sairia.

Ele não demonstra se houve discussões questionando o desenvolvimento em 3D de seu novo trabalho com Hugo Cabret. Para Scorsese, a tecnologia do 3D não é nenhum engodo de marketing ou modismo. Ele não hesita em afirmar que “é uma técnica com a qual os irmãos Lumière (os pioneiros franceses do cinema) já experimentavam nos anos 1930”. “Estou andando pelas minhas salas enquanto converso com você e há objetos para fazer em 3D por todos os cantos”, diz. “Já tive óculos 3D em vários momentos, e me lembro de assistir a filmes em 3D quando era criança, em Nova York, no início dos anos 1950.”

Falo que um dos momentos memoráveis do 3D em Hugo Cabret é quando o filme faz um close no rosto de Ben Kingsley e a cabeça dele ganha uma aparência extraterrestre. “Fico feliz em ouvir isso. Eu queria ver o que [o 3D] podia fazer com os atores e seus rostos.” Ele brinca que uma das desvantagens do 3D é que exige uma equipe maior, e que é fácil alguém tão pequeno quanto ele (que mede cerca de 1,65m) se perder na multidão. Se ele se compadeceu do menininho do filme, que repetidas vezes se vê esmagado e atropelado pelas multidões do horário do rush? “Sim, isso já aconteceu comigo antes”, responde Scorsese, novamente caindo na risada.

A última vez em que encontrei o diretor, quando ele estava em Londres para divulgar A Ilha do Medo, no início de 2010, ele estava no meio de mais um documentário épico (sobre a história do cinema britânico), para entrar no time de No Direction Home – Bob Dylan, e de seu mais recente filme sobre George Harrison, Living in the Material World. Ele diz querer finalizar o projeto em breve. “Há muito tempo, decidi não estabelecer data de lançamento para os documentários”, explica. “Eles precisam de tempo para ficarem bons, especialmente quando se está preso ao cronograma de um filme de ficção. Mas vou a Londres esta semana, depois a Paris, e depois disso realmente espero poder terminar, talvez lá para março. Esses projetos me mantêm vivo. Parece dramático, mas é verdade.”

Scorsese também tem outro título para rodar no próximo semestre, Silence, uma adaptação de um romance de Shusaku Endo sobre dois padres portugueses que viajam ao Japão no século 17. No filme,  vai trabalhar novamente com Daniel Day-Lewis e, pela primeira vez, com Benício del Toro e Gael García Bernal. Jay Cocks, que escreveu A Época da Inocência e Gangues de Nova York, assina o roteiro.

Pergunto se ele tem tempo para acompanhar o novo cinema e os diretores mais jovens. “Não, é difícil acompanhar”, começa, antes de embarcar em um papo sobre quanto ele adorou o pequeno filme britânico Archipelago, de Joanna Hogg, lançado no início de 2010.

Percebo que ele interpretou errado minha pergunta, achando que era apenas sobre o cinema britânico, mas o deixo prosseguir. Seu entusiasmo é fascinante. “Alguém o me mostrou quando eu estava rodando As Invenções de Hugo Cabret, e gostei da relação que tinha com a paisagem. Também gosto de Lynne Ramsay (diretor de Precisamos Falar sobre o Kevin) e de Andrea Arnold.” Quando falo que Arnold acaba de lançar um filme de baixo orçamento, uma versão autoral de O Morro dos Ventos Uivantes, ele fica alerta. “Ah, é mesmo?”

Apesar de estarmos ao telefone, tenho certeza de que ele procurou papel e caneta. Uma imagem me vem à mente: Martin Scorsese, arrumando as malas para viajar e se preparando para lançar As Invenções de Hugo Cabret em Londres e Paris, mas escrevendo em um pedaço de papel que precisa conferir uma nova e radical versão britânica de O Morro dos Ventos Uivantes quando – e se – conseguir umas duas horinhas de folga.

Escrito por Dave Calhoun
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