Coleção sem chave

As coleções particulares afastam muitas obras do olhar público. Mas uma porta se abre

Divulgação
Oswaldo Costa mostra a sua coleção com obras de Christina Meirelles, Rosângela Rennó, Milton Machado e Thomas Demand

Colecionar arte em São Paulo é um grande negócio. Qualquer um que tenha visitado a lotada feira internacional SP-Arte no ano passado deve concordar. Nunca houve tantos compradores, segundo um sorridente marchand presente.

A última edição da Art Basel Miami Beach, em dezembro, também teve presença em peso de galerias brasileiras. E os dados dessa feira internacional sugerem um número crescente, por lá também, de brasileiros bem de vida interessados não só em adquirir um imóvel em Miami, mas também obras de arte para suas coleções privadas. O aspecto negativo das coleções particulares é que as obras saem do olhar público: geralmente ficam restritas aos donos para sempre. Apesar da tradição de abrir coleções privadas ao público em muitas cidades ao redor do mundo, isso é raro em São Paulo, onde a vasta quantidade de obras-primas particulares ficam trancafiadas, vistas por poucos.

Mas isso não faz o estilo de um colecionador paulistano, Oswaldo Costa. Sua coleção pessoal de arte brasileira contemporânea está aberta para qualquer um que ligar: é o próprio Costa que abre a pesada porta de sua galeria, chamada Coleção Particular e localizada em uma rua sem saída e arborizada do bairro de Pinheiros.

“Administro meu espaço com muito pouco dinheiro, sem funcionários e o mínimo de custo. Parece que é muito trabalho, mas não fico atolado, e até agora tem sido muito compensador”, conta ele. “Minha motivação é entender o princípio de organização por trás dessa coleção. São diferentes versões de mim, já que o gosto de uma pessoa evolui constantemente.”

Uma exposição de 2011, sobre os anos 1980, foi selecionada a partir de um acervo formado durante 40 anos. “Todas as obras são brasileiras”, diz Costa. “Comecei comprando aqui porque não tinha muito dinheiro e (a arte brasileira) era barata – apesar de ter ficado cara depois. Algumas peças me foram dadas, outras paguei em 20 vezes. Muitos dos artistas são meus bons amigos agora.”

Os felizardos que vão à galeria são muito bem recebidos, em uma visita guiada particular temperada por anedotas sobre alguns dos mais famosos artistas do Brasil, além de ver obras de artistas como Geraldo de Barros, Cássio Michalany e Cildo Meireles. Uma obra do falecido Leonilson, cujo trabalho ganhou uma retrospectiva no início de 2011 no Itaú Cultural, foi feita com papel de embrulho da Banana Republic após uma viagem de compras a Nova York. Outra, de Leda Catunda, é composta de quebra-cabeças, uma obsessão da artista na época.

O passeio com Costa dá uma deliciosa noção de como os artistas desenvolveram seus estilos. Sergio Romagnolo (que recentemente estava com uma mostra na Casa Triângulo) começou fazendo pinturas, mas Oswaldo se interessou mais por suas esculturas, de cuja qualidade áspera ele gostava. O visitante vê duas delas, de casais abraçados, rudemente talhadas em plástico, que evocam uma qualidade ingênua de desenho animado e paixão crua.

As histórias sobre os artistas dão vida ao frequentemente opaco mundo da arte contemporânea e adicionam um toque pessoal à coleção, o que raramente é encontrado nas galerias comerciais ou públicas. “Minha missão é tornar a arte acessível. Parece um tanto tolo simplesmente pendurá-la e deixar as pessoas se resolverem com ela. ”, diz o colecionador. “Quando coleções são doadas a museus, geralmente perdem a sua singularidade. Ao visitar coleções particulares, o público consegue ter a experiência não só da arte, mas também do gosto do colecionador, que geralmente é um bom reflexo do gosto da época.” A Coleção Particular fica em Pinheiros e pode ser visitada com hora marcada por telefone: 2365-9575. colecaoparticular.com

Escrito por Kathleen McCaul
 

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