Última Palavra: Tadeu Chiarelli

O curador, professor e diretor do Museu de Arte Contemporânea (MAC USP) fala sobre arte e o diálogo com a nova sede

Divulgação

Por que a escultura foi escolhida como tema para a primeira exposição no prédio?
Ao mesmo tempo em que iniciamos as atividades do MAC aqui [no prédio que era ocupado pelo Detran, no Ibirapuera, mais no roteiro de Arte], também estamos devolvendo o edifício de Oscar Niemeyer para a população. Se organizássemos uma exposição de pintura no térreo, teríamos de enchê-lo de painéis. Com isso, esconderíamos a beleza do prédio de Niemeyer. Então, a solução foi escolher esculturas da coleção, sem colocar em risco a experiência arquitetônica.

Como o edifício de Niemeyer dialoga com a arte?
Agora uma das principais obras do MAC é o próprio prédio. Daqui para frente, todas as exposições vão estabelecer diálogos com essa primeira. Niemeyer é um dos maiores artistas brasileiros. Esse prédio é monumental, mas não diminui o visitante. Você não se sente encolhido pelo caráter grandioso, ele respeita a escala humana. A proposta da exposição também é discutir a integração entre escultura e arquitetura.

Houve alguma mudança drástica depois da reforma?
Esse edifício foi projetado para ser uma secretaria da agricultura, que funcionou por pouco tempo. Depois, o Detran ficou aqui por décadas. Durante esse período, o prédio foi sendo adaptado de maneira muito improvisada às necessidades desse departamento, repleto de divisórias e gambiarras que o foram descaracterizando. A pessoa entrava aqui e não tinha noção do que era o prédio. Imaginava que era uma coisa grandiosa, mas só parecia um favelão. Então, quando o Detran saiu, a proposta foi reformar o edifício para que ele voltasse à sua concepção original, adaptando-o para receber o museu, mas sem mexer em sua estrutura.

Vocês querem acabar a ocupação do prédio com o acervo do MAC até 2013?
Se tudo correr como o previsto, até outubro de 2012 o público poderá ver parte significativa do nosso acervo de obras modernas e contemporâneas. Temos mais de dez exposições para inaugurar até lá, a publicação de pelo menos três livros sobre o museu, cursos e seminários internacionais. A maior parte do acervo do MAC vai ficar aqui: a sede da USP será voltada para as atividades dos alunos de história da arte, crítica e museologia, com exposições mais específicas, porém também abertas ao público.  

Por que promover exposições mais longas aqui?
Os grandes museus do mundo têm coleções permanentes. Elas ficam expostas por no mínimo um ano, para que o público possa frequentar o museu e ver as obras que interessam mais. Essa é uma experiência que acreditamos ser fundamental. Vamos garantir isso para o povo de São Paulo, agora que temos esse espaço. A grande preocupação do MAC é com a formação do público. Acreditamos que isso se dá pela sedimentação: a pessoa vem, volta outra vez e faz atividades paralelas.

Isso também tem relação com a vocação educativa do MAC?
A minha ideia é trazer escolas de primeiro e segundo graus, que possam vir duas vezes na mesma exposição, para desenvolver atividades diferentes com as mesmas obras. Isso é conquistar o público, fazê-lo se sentir mais íntimo das obras, começar a ter as preferidas, saber onde elas estão.

Qual é a importância da exposição da coleção do MAC?
O MAC tem algumas obras muito icônicas, tanto da arte brasileira como da internacional. Como o único autorretrato pintado por [Amedeo] Modigliani. Então, queremos criar condições para que essas obras fiquem aqui e possam ser vistas sempre. Como os outros espaços eram menores, se mostrássemos a coleção, não poderíamos apresentar mostras temporárias. Tínhamos de escolher. Agora, na nova sede, teremos espaço para tudo.

O acervo do MAC tem cerca de dez mil peças. Todas serão mostradas na casa nova?
Na verdade, conseguíamos mostrar 5%, 7% da coleção. Com essa nova sede funcionando a todo vapor, nós teremos condições de expor em torno de 25%. Nenhum museu mostra toda a coleção, sempre há a reserva técnica. Temos de levar em conta o cuidado com as obras: algumas não podem ficar mais do que dois meses em exibição, porque são muito frágeis à luz, à umidade. Depois de um ano, ou dois, é preciso pegar parte do que está exposto e levar para os laboratórios de limpeza e preservação. Isso também  é parte do trabalho de um museu.

Escrito por Alice Rangel
 

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