Time Out São Paulo

Luz nas Vielas

Criado pelo coletivo espanhol Boa Mistura, projeto chamou a atenção mundial para o bairro na zona norte da cidade

Uma vez mais, notícias sobre as favelas brasileiras correram o mundo no mês passado, em manchetes no Washington Post, na BBC, em sites em inglês, espanhol e alemão, e em incontáveis blogs, Tumblrs e outras plataformas. Desta vez, porém, no lugar das narrativas sobre terríveis deslizamentos de terras ou violentas operações policiais, eram boas novas. Impressas sobre fundos coloridos, em vielas no interior de uma favela na Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo, as palavras “amor”, “orgulho”, “beleza”, “doçura” e “firmeza” espalharam-se pela internet em uma combinação perfeita entre colaboração internacional, arte urbana, curiosidade sobre a vida nas favelas e imagens belas e profundamente atraentes.

Boa Mistura/Divulgação
 

As pinturas foram criadas pelo coletivo Boa Mistura, composto por cinco artistas espanhóis, com formações diversas de arquitetos, designers gráficos, publicitários e engenheiros. Com um currículo que inclui intervenções artísticas na África do Sul e um portfólio com atraentes trabalhos comerciais (de webdesign a capas de livros e discos), os cinco foram convidados pela embaixada espanhola em Brasília para vir e criar um trabalho à sua escolha no Brasil. Um encontro fortuito, em São Paulo, com o jovem músico e ativista cultural Dimas Reis levou-os à casa dele, na Vila Brasilândia, e foi então que perceberam que tinham encontrado o lugar perfeito.

Boa Mistura/Divulgação
 

“Fomos direto ao albergue onde estávamos hospedados e pegamos nossas mochilas”, diz Pablo Purone, por telefone, de Madri. O grupo foi morar com Reis e sua família, e passou uma semana convivendo e conversando com moradores, antes de decidir qual seria sua abordagem, que utiliza um engenhoso truque tipográfico (“anamorfose”), que faz com que as palavras sejam plenamente legíveis apenas quando observadas de um ponto específico. Com a ajuda de moradores da favela, o grupo passou a segunda semana se preparando e depois aplicando as tintas: as palavras foram espalhadas pela imensa comunidade, onde vivem quase 300 mil pessoas.

As ruas pavimentadas que cruzam os morros nos quais fica a comunidade tem algumas lojas pequenas, mas o coração do lugar é o labirinto de vielas curvas, que ziguezagueiam pelas quadras desordenadas. “É ali que tudo acontece”, diz Purone. “É ali que ficam as portas para as casas das pessoas, é onde as crianças brincam e se conectam. Nós achamos realmente bonito – o senso de comunidade, a ligação entre as pessoas, e mesmo a paisagem.” Como resultado, a seleção de palavras para a intervenção foi uma tarefa fácil. “Eram palavras que ouvíamos o tempo todo. As pessoas cumprimentavam umas às outras dizendo ‘beleza’ e ‘firmeza’ – isso chamou nossa atenção.”

Boa Mistura/Divulgação

 

“Pode parecer apenas uma confusão de prédios”, diz Reis, “mas, se você olhar de um determinado ângulo, poderá ver beleza, orgulho e doçura também – este era o conceito por trás do trabalho.” Reis (abaixo, à esq., na escada) nasceu e cresceu na Vila Brasilândia: seus pais chegaram a São Paulo no começo dos anos 1970, vindos da Bahia e de Minas Gerais. Da casa de sua família, a vista para o Parque Estadual da Serra da Cantareira faz um contraponto verde à paisagem repleta de construções. Conforme caminhamos pela área, ele rapidamente aponta casas aqui e ali, incrustadas na densa floresta. Do topo de um dos morros, vemos um assentamento precário, cortado por caminhos de terra, projetando-se contra as árvores.

Em toda parte, os tijolos e blocos dominam a paisagem. Algumas das casas foram rebocadas, mas, como Reis explica, o custo é alto para a maioria das famílias. Para o Boa Mistura, as cores dos blocos e a ilusão de ótica atuaram como uma espécie de equalizador: “Pensamos que as cores intensas seriam um bom meio de democratizar as superfícies – suprimindo as diferenças com uma cor e uma palavra.”

Boa Mistura/Divulgação

 

Desde que os artistas espanhóis partiram, em janeiro, as cores intensas sumiram nos locais onde as pessoas passam. “Virá um tempo em que a coisa toda desaparecerá”, diz Purone. Para o Boa Mistura, isso tem a ver com o suporte de sua arte – eles começaram como jovens grafiteiros. “Nós sempre trabalhamos nas ruas – estamos acostumados com o fato de nossa arte ser efêmera. Os trabalhos nascem, vivem e morrem. É natural.” Eles não planejam, portanto, refazer a obra. O que estão debatendo, com Reis e outros moradores, e também com alguns arquitetos interessados, é a possibilidade de retornar para um novo projeto, muito maior, que transcenda a arte e inclua melhorias em algumas das casas, com reboco e pintura. “Queremos dar um empurrão inicial, reformando parte de um morro que pode servir como exemplo para outros bairros e mesmo outras favelas”, diz Purone.

Um documentário feito pelo Boa Mistura será exibido na programação da Virada Sustentável, de 2 a 3 de junho. viradasustentavel.com

Escrito por Claire Rigby
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