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Panorama do quadro

Aproveitamos a abertura da oitava edição da SP-Arte para falar com o curador britânico Neville Wakefield sobre os artistas brasileiros em ascensão

O interesse internacional na arte brasileira se tornou um fato consumado nos últimos anos, em parte graças ao aquecimento da economia, mas também como resultado da cena artística cada vez mais dinâmica. Isso acontece principalmente em São Paulo, onde, em algumas regiões, novas galerias parecem surgir com a mesma frequência que novos restaurantes. Mas, embora o movimento modernista do país tenha gerado milhares de debates ao longo dos anos, escrever sobre a arte contemporânea brasileira ainda precisa atingir o ponto de massa crítica, principalmente no exterior, onde o interesse geralmente ganha mais o formato de curiosidade do que de especialização bem informada.

Com mais interesse que a maioria, o bem conectado curador Neville Wakefield, de Nova York, está no meio de uma pesquisa sobre a “arte emergente brasileira”, iniciada no ano passado a convite da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (ABACT). Nativo do Reino Unido, Wakefield pretende concluir a ‘investigação’ com uma exposição internacional que mostre o melhor da arte contemporânea brasileira.

É algo para se aguardar: as credenciais de Wakefield são impressionantes, tanto como figura das artes – ele tem gente como o cineasta Larry Clark e o artista Matthew Barney entre seus amigos mais descolados – como seu papel de curador – por três anos, ele participou do time de curadores da Frieze Art Fair, de Londres, e também já foi conselheiro sênior de curadoria do MoMA PS1 (um centro de arte contemporânea em Nova York ligado ao Museu de Arte Moderna da cidade). 

Divulgação 
O curador britânico Neville Wakefield 

 

Falando de Nova York, Wakefield começa assim: “O que mais me interessa é esta geração de artistas que agora está no final dos 20 e início dos 30 anos de idade. Eles estão vindo à tona em uma época em que há uma versão um pouco diferente do Brasil emergente”.

Ele está no processo de pesquisar o conteúdo da exposição que deve acontecer. Apesar de “ainda hipotética”, há uma obra que tem grandes chances de participar da mostra: Eu Só Vendo a Vista (na foto, acima), do artista Marcos Chaves, da galeria Nara Roesler.

Trata-se de uma vista de cartão postal do Rio de Janeiro com esses dizeres impressos, que também são o título de trabalho da exposição. “É um bom ponto de partida para essa mostra”, afirma Wakefield. “É um jogo com a ideia de ver e vender: o que vemos e como colocamos valor nisso; e também com as atitudes pós-coloniais em relação ao turismo e esse tipo de coisa.”

Para Wakefield, Marcos Chaves é essencial dentro da nova cena: “De uma certa forma, ele é um tipo de padrinho dessa linha artística. Obviamente, ele é de uma geração diferente, mas acho que seu trabalho realmente ecoa no público mais jovem. Há um aspecto de performance em algumas coisas que ele faz – escultura no campo expandido, se preferir. Isso é interessante para os artistas mais jovens, que querem mostrar isso de uma forma um pouco diferente, criando obstáculos à interação normal ou ao fluxo normal de vida, e abordando também a reação a outras pessoas.”

Ele segue discorrendo sobre essa linha de trabalho ser seguida por uma série de artistas brasileiros, e menciona Cinthia Marcelle, Tatiana Blass, Renata Lucas, Leandro Lima e Gisela Motta, Marcelo Cidade (que está vindo da arte de rua) e o jovem Paulo Nazareth. “Mas, se eu tivesse que reduzir a lista, escolheria Cintia Marcelle, Renata Lucas e Tatiana Blass”, seleciona.

Motta&Lima/ Divulgação
'Captcha 02', de Gisela Motta e Leandro Lima

 

Respectivamente representadas pelas galerias Vermelho, Luisa Strina e Millan, essas três artistas têm um interesse em comum, segundo Wakefield: intervenções em espaços urbanos, com a criação de obras que misturam performance com escultura e arquitetura com a interrupção do espaço público – itens representativos do tipo de arte que ele aprecia no momento.

“O que muitos dos artistas que me interessam estão fazendo é brincar com percepções de espaço, fluxo e interação social. Então, seja em uma praia do Rio ou em São Paulo, há espaços sociais comuns que são fundamentalmente democráticos, e isso dá material para os artistas fazerem e mostrarem a vida cotidiana”, afirma.

Um exemplo é a obra Confronto, de Cinthia Marcelle. A artista forma uma fileira de malabaristas com tochas de fogo em um semáforo e filma os resultados. Dois malabaristas viram quatro, depois seis, depois oito e, como a performance continua quando o farol fica verde, o entretenimento se transforma em impaciência e, depois, em irritação – há um fade, o filme escurece e uma cacofonia ensurdecedora de buzinas barulhentas soa.

“Trata-se de tomar espaços urbanos da forma como foram definidos pelos arquitetos e pelo trânsito, e transformar o que pode ser uma interação cotidiana em peças esculturais”, diz Wakefield. “A mídia é a rua e o encontro acontece entre pessoas ou veículos. A maneira como a pessoa entra ou existe no espaço se torna um material para este tipo de arte.”

Ele se entusiasma com o trabalho de Renata Lucas, citando uma obra específica, Falha, na qual a artista cria um piso feito de painéis removíveis que se levantam para formar uma série de barreiras. “A obra dela também aborda um tipo de coreografia social e como a arquitetura pode afetar isso: a maneira como as pessoas se movem no espaço, como interagem umas com as outras, e como, se você mover uma porta ou bloquear uma entrada, muda o fluxo”, comenta.

Em uma exposição muito admirada que terminou no mês passado na Galeria Millan, a artista Tatiana Blass criou uma instalação no estacionamento em que um carro parecia ser engolido, afundando no chão. Em outra, Penelope, uma instalação de 2011 na Capela do Morumbi, novelos de lã vermelha saíam de buracos na parede e entravam pelo jardim, passando por um tear e espelhando-se dentro da igreja. “Não está claro se a vida está sendo desembaraçada junto com esta instituição, ou se embaraçada”, analisa Wakefield.

Há algo especificamente brasileiro em todas essas obras? “Não, não acho que sejam exclusivamente brasileiras”, afirma. “Mas penso que elas estão sendo feitas com uma urgência ou ressonância particulares no Brasil. Acho que provavelmente a ordem social, assim como a ordem econômica, está em um processo de mudança por aí. E algumas dessas obras fazem um registro sobre essa mudança.”

Ele quer dizer “mudanças” em termos de classe e também em um sentido mais abstrato? “Os artistas não são economistas”, responde. “Eles são economistas sociais, portanto, o que estão fazendo é observar a maneira como as pessoas reagem a outras pessoas, principalmente em locais públicos.”

A SP-Arte acontece de 10 a 13 de maio no Pavilhão da Bienal. Parque do Ibirapuera, portão 3. Av. Pedro Álvares Cabral, s/no, Moema, 5573 - 4180. R$ 15-R$ 30. sp-arte.com

Escrito por Claire Rigby
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