Time Out São Paulo

Bienal de Arte de SP

Três artistas elegem suas obras favoritas de colegas da grande exposição  


A abertura da 30ª Bienal de Arte de São Paulo (leia mais aqui), em curso no prédio dedicado a ela, motivou uma profusão de festas, vernissages e mostras paralelas, em que amantes das artes, galeristas e figurões culturais – sem contar os próprios artistas – se esbarraram em todos os cantos da cidade.

E a presença de tantos artistas na cidade promoveu um intercâmbio entre eles, no sentido de conhecerem o trabalho de seus colegas que expõem no Pavilhão. Com isso em mente, conversamos com três participantes da Bienal para falarem sobre as obras – e os artistas – que mais os tocaram na exposição.

A artista americana Sheila Hicks, que utiliza tecidos e que tem décadas de experiência, conversou conosco sobre o coletivo chileno de arquitetos Ciudad Abierta. O pintor Eduardo Berliner se comoveu ao falar sobre o delicado trabalho presente nas instalações de Fernanda Gomes – que também aparece como uma das favoritas de Sheila Hicks. Já a fotógrafa Sofia Borges elegeu a obra do irlandês Patrick Jolley, que morreu tragicamente jovem em fevereiro – ele teve um enfarte enquanto trabalhava em um filme na Índia.

 

Sofia Borges/Arquivo pessoal

SOFIA BORGES FALA SOBRE PATRICK JOLLEY
“Eu não estava familiarizada com o trabalho de Patrick Jolley, até vê-lo na Bienal. A exposição reúne várias fases de sua carreira – há fotos em preto e branco e alguns vídeos bem antigos, assim como alguns mais recentes e em cores.

Há uma série de fotos capturadas na neblina. Essas imagens me deram uma sensação de algo inteligível – algo muito incomum. Quando assisti aos vídeos, gostei mais ainda do trabalho dele. Há um filme em que ele queima uma casa, e outro em que ele filmou macacos. Em um terceiro, ele destrói os móveis da casa, jogando-os de um andar para o outro.

Em um vídeo ele corta e desmantela um sofá e em dois outros as coisas foram destruídas ou pegaram fogo – há esse elemento de arruinar algo que estava ali. O poder do ato de destruição.

Essas coisas realmente me interessam – a capacidade de destruir o sentido de algo, ou transformar algo através da destruição. Destruir uma coisa para acontecer uma outra. A maneira como quando você destrói algo aquilo vira outra coisa, o sentido daquilo fica rompido, aquilo muda de sentido. A maneira como ele se relaciona com as coisas interrompe o sentido do objeto com o que ele estava se relacionando. Essa potência de corromper algo é interessante.

Tive a impressão que a exposição provavelmente não representa o trabalho dele completamente. Parece que a obra dele é muito forte e ampla, mas o que estava exposto me impressionou muito. Fiquei com muita vontade de entender o que estava exposto, de ver outras coisas e de me relacionar com a obra dele de uma maneira mais completa. É muito legal – você fica com a impressão que ele quer transmitir algo.”
 

Fernanda Gomes/Arquivo pessoal
A exploração das formas e espaços de Fernanda Gomes

EDUARDO BERLINER FALA SOBRE FERNANDA GOMES
“Eu vi o trabalho da Fernanda Gomes pela primeira vez na mostra dela no MAM, há poucos meses, e ela ocupava uma sala gigante com coisas íntimas. Eu o achei muito comovente, e gostei também do modo inteligente de ocupar o espaço – um acúmulo de coisas muito pequenas, delicadas, ocupando aquele espaço monumental. De certa forma, eu me identifico com o tipo de poética que eu percebi no trabalho dela, que tem a ver com a percepção de eventos íntimos, como pequenas simetrias, relações entre materiais.

Quando eu estava montando a minha sala na Bienal, eu tive a oportunidade de conversar rapidamente com a Fernanda, vi o espaço onde ela estava trabalhando e tive a impressão que era um tipo de ateliê em miniatura que ela montou, usando a parede do pavilhão, as divisórias das salas. Ela apoiava as coisas ali, um dia eu passei e tinha um cacho de uva, só que sem as uvas, só com o caule. Então, ela deixava isso de lado, e, de repente, ela incluía um pedaço de linha, ou pequenas coisas que faziam parte da instalação, e eu achei isso muito bonito.

Tinham alguns gravetos, ou pequenas varas. Ela experimentava com a tensão da vara, fazia uma espécie de curva que era a própria resistência da vara. Ela tensionava isso usando a própria estrutura de madeira da divisória da sala dela, como um ponto de limite da tensão da vara. Então a própria estrutura da sala dela determinava a elasticidade para essa vara, era uma maneira de ela perceber e dialogar com o espaço através da manipulação de coisas muito delicadas, que eram sobras de materiais que foram parar nesse espaço, caixas de transporte e coisas do gênero. Então ela usa objetos que encontra no local e cria aparatos especiais para perceber o espaço e para fazer com que nós percebamos o espaço.

Em um trabalho muito simples que ela fez, colocou dois sacos plásticos, que provavelmente vieram para embalar algo que ela mesma levava, e ela os uniu por uma linha e colocou um deles dentro do pavilhão e outro fora. Então, quando venta, só um deles se mexe. Eles estão pendurados pela mesma linha e na mesma altura, só que um fica parado, e o outro balança, do lado de fora. É muito bonita essa relação. Ela acaba criando sensações, como essa do saco plástico, que não faria se pudesse levar tudo que quisesse.

Tem a ver com limite. A impressão que tenho é que ela está trabalhando apenas com materiais que ela encontrou no local ou poucas coisas que ela levou. Então, acho que a potência do trabalho dela vem disso, porque na hora que reduzimos os elementos, o olho começa a perceber coisas que as pessoas que estão envoltas em muita informação não notariam. Quando ela reduz a quantidade de assunto, ela passa a prestar atenção em coisas muito pequenininhas.”

Divulgação
Instalação do coletivo chileno Ciudad Abierta


SHEILA HICKS FALA SOBRE CIUDAD ABIERTA
 

“Sem dúvida, a descoberta, ou a redescoberta, na Bienal para mim foi o coletivo Ciudad Abierta, de Valparaíso, no Chile. Eles fizeram um resumo da variedade de emoções e da inteligência prometidas pelo título da Bienal [A Iminência das Poéticas] e do propósito da exposição como um todo. Foi simplesmente lindo, do começo ao fim.

Para a Bienal, eles fizeram uma série de cerca de 20 estruturas com um material branco iluminado por trás – estruturas em cima do que eu chamaria de planície maleável, elástica, para simular os formatos da terra. Como era feito de tecido, eles conseguiram puxar e empurrar essa planície têxtil maleável a fim de criar as mais belas formas, que se transformaram em arquitetura.

Assisti aos 19 estudantes construindo seu estande e organizando o espaço designado a eles com graça e brilhantismo, contando uma história autêntica de quase 50 anos de atuações poéticas, compartilhadas em dois continentes. Eles elevaram o nível da Bienal ao topo e demonstraram a possibilidade de transmitir sistemas de valor, estética, aventura e criatividade que interferem na vida do dia a dia.

A criação deles começa do zero, e esse é um encontro que transforma todo o seu ser, levando a um outro registro de existência ou a outra intensidade. Há muitas experiências intensas e quase assustadoras na Bienal, para as quais você precisa estar aberto. Mas, se você se dispuser a experimentar, valem muito a pena.

O curador da Bienal visitou o grupo do Ciudad Abierta em Valparaíso. Ficou impressionado, pois os estudantes criaram uma instalação ao vivo, no chão. Eles chegaram com suas soldas e serras e criaram a coisa toda. Fizeram a subestrutura e a superestrutura, que é de um tecido elástico. Na cidade onde moram, o terreno é litorâneo e irregular, então essa obra envolve a descoberta de formas que funcionem nesse tipo de terreno.

Mas, ao invés de usarem colunas, essas pessoas entram no terreno para cavá-lo e saem da terra com os mais belos e únicos tipos de forma. Eles unem a terra ao céu, nos levando a um local como um maravilhoso espaço celestial aqui na Terra. Muito, muito poético. E é isso que está deixando todo mundo tão nervoso em relação a esta Bienal – dizem: ‘Por que falar de poesia?’. Acho que as pessoas parecem estar um pouco fechadas, um pouco enervadas com essa ideia de poesia.”

30ª Bienal de São Paulo
Pavilhão da Bienal. Parque do Ibirapuera, Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 3, 5576-7600. Ter., qui., sáb., dom., 9h-19h; qua., sex., 9h-22h. Até 9/12.
30bienal.org.br

Escrito por Claire Rigby
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