Entrevista com Ai Weiwei

 Um mês antes de ser preso, artista falou com a Time Out

Frank Schinski

O ateliê de Ai Weiwei é um lugar discreto. Localizado no extremo nordeste de Pequim, tem fachada simples, uma parede de tijolos lisa, porta azul e uma pequena placa onde se lê "FAKE". O interior é da mesma forma: concreto, um pátio de bambus e uma dúzia de gatos preguiçosos, em um por do sol de inverno. Ninguém suspeitaria que este pacífico retiro é a casa do mais controverso artista e ativista chinês. A ficha só cai quando você se vira e vê a palavra "FUCK" escrita na parede da entrada. Quando Ai finalmente aparece, pergunta muito tranquilamente: "O que vocês acharam de Pequim?" (ele não evita o olho no olho, como fazem muitos artistas.) "Paranoica", respondemos. Ai move as mãos com desinteresse. "É a época das grandes reuniões", diz.

O artista refere-se ao Congresso Nacional do Povo, em que o governo chinês apresentaria seu 12º plano quinquenal no Grande Salão do Povo. Ele não parece interessado no assunto, mas está sim. Nos últimos dois anos, a vida e a arte de Ai se tornaram indistinguíveis. Suas obras são carregadas de potente conteúdo político.

Ele apanhou, foi grampeado, monitorado, silenciado pela mídia, condenado a prisão domiciliar e teve seu ateliê em Xangai demolido. Tal é a sua importância na China hoje em dia, que qualquer comentário sobre política emitido por ele (ele participa intensamente do Twitter, acessando o site bloqueado por meio de um servidor estrangeiro) é imediatamente repercutido pela imprensa internacional. Um colunista de Londres, recentemente, chegou ao ponto de dizer que Ai estava a ponto de se tornar "uma figura cultural de real importância global, nos moldes de Vaclav Havel e Alexander Solzhenitsyn".

A reação a suas palavras e a suas obras demonstra uma espécie de perplexidade diante de sua coragem. E Ai sabe disso. Ele é bastante consciente de que, ao longo dos últimos 60 anos, intelectuais foram perseguidos, presos e mortos, ou simplesmente desapareceram, por ousar questionar o todo-poderoso Partido Comunista. Basta pensar em seu pai – o poeta Ai Qing, que viveu 26 anos em exílio por ter criticado Mao Tsé-Tung – para se chegar à conclusão de que Ai está preparado para encarar as consequências de suas ações. E foi com uma questão sobre esse problema desconcertante que começamos nossa entrevista, realizada menos de um mês antes de sua prisão.

Time Out São Paulo - Quando eu disse a colegas em Hong Kong e na Europa que iria entrevistá-lo hoje, eles ficaram preocupados com seu bem-estar. Então, comecemos por isso: como você está?
Ai Weiwei - Isso é cada vez mais difícil de responder. Minha situação é como o ateliê onde eu estou vivendo agora. É muito pacífico, mas, ao mesmo tempo, cheio de problemas e crises. Por exemplo, no estacionamento, naquela direção, há um carro me observando há mais de uma semana, dia e noite, com duas pessoas dentro, mesmo quando há neve.

TOSP - A que distância você tem sido monitorado?

AW - Às vezes é um carro, às vezes são três. Policiais disfarçados. Isso vai se tornando uma coisa absurda. Se você caminhar pelo centro de Pequim, verá as pessoas confortáveis, nenhuma crise, mas eu acho que há uma série de problemas.

TOSP - Como sua segurança pessoal tem estado nos últimos dias?

AW - Minha segurança na verdade está ok. Acho que se você é vigiado pela polícia secreta está especialmente bem. Eles se asseguram de que nada te aconteça. Mas continuam tentando te lembrar que tudo está sob o controle deles. Lembre-se, esta é a época do ano em que acontecem as grandes reuniões e, agora que a Revolução de Jasmim aconteceu, todos estão muito nervosos.


TOSP - A "Revolução de Jasmim" é um movimento genuinamente online?

AW -  É, porque a China censura toda a internet e realmente esmaga aqueles que têm opiniões sobre por que esta sociedade deveria mudar. Nas duas últimas semanas, mais de cem pessoas foram presas. Alguns são escritores de longa data, acadêmicos, advogados; outros são apenas estudantes, dizendo "vamos nos encontrar em tal lugar, em tal rua".


TOSP - A palavra "jasmim" foi bloqueada na internet. O vídeo com o presidente Hu Jintao cantando "Flor de Jasmim" desapareceu. Jornalistas estrangeiros foram atacados por permanecer nas ruas. Quão severa foi a reação policial ao que é, essencialmente, um não protesto?

AW - Em primeiro lugar, na internet chinesa você não pode escrever qualquer frase contendo a palavra "amanhã" – a palavra "amanhã" se tornou suscetível.


TOSP - Por quê?

AW - Porque as pessoas diriam "Amanhã todos marcharemos em Wang Fu Jing" (ponto central de Pequim, onde aconteceram os protestos da "Revolução de Jasmim"). Ao mesmo tempo, você não pode digitar "hoje". A máquina remove qualquer coisa que contenha "hoje" (risos). Então você pode ver como eles estão extremamente nervosos. E não há debate, trocas intelectuais ou argumentos. É como os pais chineses de antigamente, quando as crianças tinham que escutá-los sem mostrar qualquer sinal de contrariedade, questionamento ou atitudes diferentes. Questionar a situação econômica e a política atuais não será tranquilo. Será devastador. A nação não teve criatividade nos últimos cem anos.


TOSP - Você é um artista mundialmente famoso, bem sucedido, mas corre o risco de ir para a prisão a qualquer momento. Você tem medo de ser preso?

AW - Tenho medo da prisão, mas meu pai era um poeta (Ai Qing, 1910-1996). Não o admiro muito como poeta, mas admiro o fato de que, aos 20 e poucos anos de idade, foi condenado a seis anos de prisão, e depois exilado por 20 anos, realmente na pior situação, limpando banheiros públicos, e ainda assim sobreviveu. Então penso no meu pai e digo: "Ele era realmente uma alma forte, um poeta, que aceitou um tipo de prisão, uma condição humana". É um manifesto, sabe? É assim que tento explicar para mim mesmo o que aconteceria na prisão. Mas ninguém realmente sabe o que acontece na prisão.


TOSP - Você sabe o que está acontecendo com o escritor Liu Xiaobo? Quais as suas condições na prisão?

AW - (Visivelmente irritado) Nem a mulher dele pode vê-lo! Você não condena só a pessoa, condena a família inteira! Ele desapareceu totalmente. Os advogados não podem vê-lo. Ninguém pode vê-lo. Quer dizer, espera aí! Se você está tão seguro, se você acha que a justiça foi feita, tem que fazer as coisas direito; você não pode agir em segredo. Não é mais tempo de segredos. Que o condenem. Na frente das pessoas, em um julgamento aberto. Mas não secretamente.


TOSP - Você sente raiva ou decepção em relação ao fato de que a geração que seguiu os protestos da Praça Tiananmen ajudou no boom da China, mas, ao mesmo tempo, deixou de lado sua consciência social?

AW - Acho que eles foram vítimas do sistema. É como cobrir os olhos e ouvidos das pessoas para a forma como mundo realmente é. Isso é um típico produto da nossa sociedade. Para ser bem sucedidos, eles têm que manter esta ordem. É feio, nojento e estúpido, e a "sociedade incapaz" tem que desaparecer como a água no por do sol.

TOSP - Os acontecimentos da Praça Tiananmen podem se repetir?

AW - Não é possível imaginar outro protesto como o que aconteceu em 1989. Olhando para trás, fiquei realmente desapontado porque não tinha de fato nenhuma perspectiva política. Eu tinha muita experiência, por ter crescido com a geração do meu pai e por viver em uma sociedade democrática, em Nova York, mas apenas depois de 1999, quando me envolvi com a arquitetura, é que enxerguei melhor a estrutura interna do governo. Como cada acordo foi feito. Como as terras foram vendidas. Como essas pessoas enriqueceram. Como fizeram seu dinheiro. A arquitetura é uma coisa que você constrói no interior da sociedade, e tem que lidar com o governo. A arquitetura é muito política, como o estádio Ninho de Pássaro.

TOSP - As pessoas esperam muito de você. Como você lida com isso?

AW Há muita pressão, mas isso faz você se sentir mais forte. Trata-se da esperança de um grande número de pessoas. Vale a pena dizer algo para mudar as condições de outras pessoas.

TOSP - O que você quer dizer?

AW - Eu quero dizer que os jovens deveriam ter oportunidades iguais, se comprometer com a mudança e ser livres para aproveitar a vida em vez de ter que se sacrificar pelas desculpas de outras pessoas. Eu quero que as pessoas tenham uma vida alentada, realmente independente; talvez pobre, mas ainda assim forte. Isso não é pedir muito.

 

Preso em Pequim em 3 de abril de 2011, Ai Weiwei foi libertado, sob fiança, em 22 de junho.

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus
 

© 2011 - 2016 Time Out Group Ltd. All rights reserved. All material on this site is © Time Out.