Entrevista: Tracey Emin

A artista britânica falou conosco sobre seu processo criativo quando veio à São Paulo para sua mostra na White Cube

Divulgação
A artista na vernissage de sua exposição em São Paulo, em frente ao nu feito em bordado


Os nus são o tema mais constante de sua exposição. Todos eles representam você?
Não são de nenhuma outra pessoa. Não são de nenhum outro corpo que não o meu. Me uso como tema para o que tento dizer. Soa um tanto antiquado, mas é como uma ideia de que poderia ser qualquer mulher. Não importa se sou eu ou não, mas certamente não é minha amiga, e não é você. Representa uma mulher. Uso a mim mesma, ou usei a mim mesma, ou a minha forma porque sou eu que estou aqui. É fácil.

Parece ser muito mais desafiador olhar essas imagens do que outros nus – elas não parecem sexualizadas.
Não, não se trata de sexo. A maioria das coisas não é sobre sexo. Muitas coisas que têm a ver com amor não são sobre sexo.

Mesmo os desenhos animados da mulher nua se masturbando?
O filme não é sobre masturbação, o filme todo é sobre desenho. Quando você se masturba, faz isso sozinha. Quando desenha, faz isso sozinha, e é um ato singular entre sua mente e sua mão. Tive de fazer muitos desenhos para fazer esse filme. É disso que se trata. Também é por isso que ele tem uma certa moderação. Ele não é tão direto, há algo mais acontecendo.

Você disse que, em algumas dessas obras, você se desenhou a partir ‘de fora’, e não de dentro. Do que se trata essa mudança de perspectiva?
Tenho uma casa na França – ela é realmente isolada, e passo muito tempo lá sozinha. Então, sento-me assim [ela faz a pose] e percebo que estive sentada ali por dez minutos. E penso: “Deveria me levantar”. Levanto e me sento em outra cadeira. Então me dou conta de que estou falando sozinha enquanto faço isso, e que estou posando em minha própria sala de estar. Como se alguém estivesse ali. E pensei: “Isso é realmente interessante”. Inconscientemente, devo sentir que há alguém ali. Pensei: “Como será que eu pareço?”. Então, fiz uma série de desenhos de mim mesma, da forma como eu achava que parecia. Daí, quando alguém ia lá me visitar, eu pedia: “Você poderia tirar algumas fotos minhas nessas posições?” E, então, fiz os desenhos a partir das fotos. Tem a ver comigo olhando para mim mesma, não somente me sentindo.

Quando você diz “como se alguém estivesse olhando, como se alguém estivesse ali”, é um sentimento bom?
Sim, é gostoso. Bem, talvez seja por isso que eu estava tão feliz no final desse verão. Mais feliz que em anos com a minha obra. Porque percebi que estava fazendo algo novo para mim mesma. Eu até poderia não estar diferente – ainda pareço com Tracey –, mas dei um mergulho dentro de minha cabeça e fui para um outro lugar.

Você disse ter se assustado com São Paulo na última vez que veio, em 1999. Por quê?
Sim, lembro-me de ter sentido medo. Você não pode usar uma porra de um relógio aqui. Não seja boba. Desculpe, mas não vejo você usando seu relógio bacana hoje. Não vi ninguém usando relógio aqui.

Bem, eu tenho um relógio, um Casio, e às vezes uso!
Bom, quando vim aqui antes, fiquei com pessoas que eram muito ricas, então talvez estivesse sentindo a apreensão deles. Desta vez, realmente parece melhor. A economia está muito melhor, há muita gente trabalhando. Ainda há um imenso abismo entre ricos e pobres, mas o nível melhorou. Outra coisa é que São Paulo é muito grande – é tão imensa,
que você se sente um pouco intimidado por ela.

Escrito por Claire Rigby
 

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