No ateliê com Raphaël Zarka

Ao terminar de produzir uma série em São Paulo, o escultor francês nos deu um depoimento sobre suas obras

Claire Rigby


"Defino meu trabalho como escultura documental – minhas peças podem parecer abstratas, mas, na maioria das vezes, têm referência de objetos pré-existentes. Meu sonho seria produzir o tipo de escultura que [a artista polonesa] Katarzyna Kobro produzia, mas não tem por quê – não estamos mais nos anos 1930, e não sou construtivista. Então, como eu produziria obras de arte abstratas e geométricas em 2013, com toda a história do Construtivismo, do Concretismo aqui no Brasil, do Minimalismo? Mesmo sentindo que a geometria é sua principal linguagem, você precisa se perguntar: o que posso acrescentar e como posso trabalhar com isso? A solução que encontrei foi me tornar uma espécie de colecionador ou arqueólogo – procurando formas, construções e estruturas do passado, e ver como poderiam viver no presente.

Após meus estudos na escola de arte, percebi que, nas primeiras obras [‘Les Formes du Repos’, uma série de fotos de objetos encontrados no dia a dia que, sob o olhar do artista, viraram esculturas], eu estava como os skatistas, procurando lugares. Uma das particularidades da prática do skate é não inventar seus espaços: eles encontram estruturas prontas e as usam com um novo propósito, procurando os ângulos certos, onde se pode pular e deslizar, na beirada do meio-fio, ou do banco, o que for. Há um outro lado do meu trabalho, mais relacionado com o surfe, que é buscar curvas. Para mim, isso é realmente importante. Achar esculturas que eu gostaria de ter feito se fosse mais inteligente.

A fotografia é importante para mim por seu processo de documentação e porque pode transformar objetos que não foram feitos para serem obras de arte em obras de arte. Quer dizer, isso não é novo, mas é uma ferramenta útil para quem se pensa como escultor.

Por exemplo, a indústria fez esses quebra-mares, objetos para conter maré [Raphaël aponta para imagens de grandes objetos de concreto na praia, da série “The Shape of Rest”]. Mas a maneira como estão instaladas, com uma luz especial em um dia especial, faz deles um lindo monumento. Este outro objeto [aponta para outra imagem] foi um monotrilho para um trem experimental na França.

No último ano, tenho misturado a forma de um agrafo – instrumento usado pelos pintores para esticar as telas – com grandes vigas grandes, em uma série chamada ‘The Prismatics’, e essas são as obras que fiz para minha mostra no Brasil. Tenho feito os desenhos no Ateliê Fidalga, durante minha residência aqui, mas também tenho trabalhado em uma oficina em Louveira, a uma hora de São Paulo, no ateliê do escultor brasileiro Hugo França.

Quando o conheci, discutimos sobre as madeiras que ele usa, o quão raras ou comuns podem ser, e o que poderia servir para o meu trabalho. Na França, uso carvalho, mas é muito caro e difícil de conseguir aqui. Acabei usando o jatobá – não é raro, como o carvalho, e é muito forte." 

Leia aqui sobre a exposição Gramática e Coletânea, de Raphaël Zarka, que está à mostra na Galeria Luciana Brito até 23/3. 

Escrito por Claire Rigby
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