Entrevista com Alice Brill

 Uma das maiores damas da arte paulistana

Divulgação

Mulher de personalidade forte e nada convencional, a pintora de origem alemã Alice Brill tem uma trajetória que se mistura a São Paulo. Exilada na cidade ainda adolescente, foi uma das fundadoras do Museu de Arte Moderna (MAM); tornou-se fotógrafa, notabilizando-se por capturar a agitação da cidade e deixou a câmera pela pintura. Casada e mãe de quatro filhos, pintou obsessivamente o isolamento e a solidão da experiência urbana.

No bojo do nonagésimo aniversário da artista, uma amostra das evocativas vistas urbanas pintadas por Brill, fotografias e outras obras estiveram expostas no Espaço Cultural da BM&F Bovespa. A mostra, com bela curadoria de Elvira Vernaschi, foi compacta o suficiente para ser percorrida no intervalo do café, porém as obras têm um efeito duradouro, algo como um soco no estômago.

Refúgio e esperança
Brill nasceu em uma família de intelectuais judeus, em Colônia, em 1920. Seu pai era um talentoso pintor, que alcançou renome local ao retratar figuras como Albert Einstein. Quando Hitler subiu ao poder, em 1933, Alice e sua mãe (que havia se separado do pintor) transferiram-se para a Espanha, para a Itália e, em seguida, para o Brasil, onde sua mãe lutou para conseguir um trabalho. Apesar das dificuldades financeiras enfrentadas por Brill nos primeiros anos em São Paulo, a adolescente teve sorte em conseguir um emprego em uma livraria frequentada por artistas e boêmios, onde conheceu alguns pintores do Grupo Santa Helena, que mantinham ateliês coletivos e promoviam saídas, nos fins de semana, para pintar ao ar livre. Mais de meio século depois, Brill escreveria sobre o período: "A arte era tudo para mim: refúgio e esperança, o sonho de uma liberdade perdida precocemente diante da adversidade do destino. Foi então que eu encontrei um sentido de vida capaz de me sustentar apesar da insegurança de um mundo que parecia desabar".

Alguns desses temas – refúgio e aprisionamento, isolamento e esperança – emergem nas magníficas pinturas geométricas de Brill, elaboradas em seu período mais produtivo, entre as décadas de 1970 e 90. Nuances de laranja, vermelho, marrom e mostarda iluminam paisagens verticais, dominadas por casas e arranha-céus. Um turquesa brilhante ocasionalmente pede passagem, um enorme globo vermelho flutua sobre os telhados, enquanto, abaixo, figuras solitárias estão imobilizadas atrás das janelas. Muitas das cenas pintadas por Brill – horizontes confusos, igrejas, árvores e casas de telhados vermelhos – são visíveis ainda hoje das janelas de seu ateliê, no sexto andar de um prédio da Vila Madalena. Contudo, sua aguda percepção sobre a vasta e caótica cidade era também fruto de sua intensa atuação como fotógrafa, que durou uma década: ela documentou a crescente São Paulo do começo dos anos 1950 para o então diretor do MASP, Pietro Maria Bardi. "Talvez não haja outro artista no qual eu consiga pensar que seja capaz de capturar a paisagem, as fachadas e o isolamento de São Paulo do modo como faz Alice Brill", diz Vernaschi.

No cândido autorretrato pintado em 1942 – o ano em que seu pai morreu no campo de concentração de Jungfernhof, na Letônia (Brill só conheceria o destino do artista anos depois) –, emerge da tela uma jovem mulher, de branco, com uma expressão rígida, olhos apreensivos, mas determinados, talvez até teimosos. A boca e o queixo são firmes, e seu olhar desafia o mundo ao redor.

Pioneira no emprego do batik como técnica artística moderna no Brasil e tendo finalmente obtido o doutorado aos 73 anos de idade, Brill realmente cumpriu o que o autorretrato prometia. Ela foi diagnosticada com Alzheimer em 2000, mas continuou a pintar e a desenhar depois disso. Sua filha, Silvia Czapski, afirma: "Foi como se ela esquecesse as cores escuras, que sempre foram suas preferidas". Elvira Vernaschi concorda: "Sua pintura se tornou violentamente colorida". 

Escrito por Grace Fan
 

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