Time Out São Paulo

Entrevista: Charles Esche

Escocês fala sobre os desafios de ser o curador da 31 ª Bienal de Arte de São Paulo


Em abril, a Fundação Bienal anunciou o britânico Charles Esche como o curador da 31ª Bienal de Arte de São Paulo, que acontecerá no segundo semestre de 2014. Diretor do Van Abbemuseum, de Eindhover, na Holanda, o curador e escritor foi selecionado entre 14 nomes. No momento, ele define sua equipe, uma etapa que deve durar três meses. À Time Out São Paulo, Esche falou sobre sua escolha para a função, seu modo de trabalho e a maneira como enxerga a arte perante o mundo real.

Você falou que o processo de entrevistas para o posto de curador da 31ª Bienal foi meticuloso e provocativo. O que quis dizer?
Fizeram-me boas perguntas. Obviamente, estavam tentando descobrir o que eu poderia oferecer e se isso era bom para o evento. Por outro lado, me fez pensar: “Quero fazer isso?”. As entrevistas provocaram uma mudança em mim – antes, não me sentia tão comprometido em estar em São Paulo como me sinto agora. Compreendi que há algo muito precioso nessa Bienal. Sua história e sua importância, que eu conhecia de forma abstrata, parecerem muito tangíveis. Me fez refletir mais profundamente sobre o fato de que, se eu fosse o curador, teria de desempenhar essa função de forma a me sentir eticamente correto, e espero poder fazer isso.

O que quer dizer com “eticamente correto”?
Bem, a primeira coisa é que farei o que disser que farei. Mas também que a Bienal tem uma história muito particular – problemas com orçamento e coisas assim –  e é claro que a Fundação Bienal quer promover mudanças. Sua diretoria têm feito isso nos últimos três ou quatro anos e quer continuar. Sempre tentei levar ética à curadoria, seja no relacionamento com o mercado, no pagamento dos artistas e do cuidado com eles, no relacionamento com o ambiente local no qual se está trabalhando. Todas essas coisas rolam na minha cabeça, então, quando elas me foram apresentadas na entrevista, gostei muito. Suponho que me surpreendi positivamente.

Você chega à Bienal como forasteiro na cena artística brasileira, embora tenha sido curador de várias bienais antes – Gwangju (Coreia do Sul, 2002), Istambul (Turquia, 2005), Riwaq (Palestina, 2007 e 2009), e Liubliana (Eslovênia, 2010). Como está encarando o desafio?
Bem, tenho a responsabilidade de usar o conhecimento e a experiência que possuo. Preciso questionar tradições e formas de trabalho – a maneira como funcionam o prédio, o diálogo com o público e o sistema de comissionamento – e ver o que precisa ser mudado. Pode ser que os sistemas do Brasil ou da Bienal sejam melhores que os meus, mas precisam ser testados novamente. É uma de minhas responsabilidades, acredito, ser ousado o suficiente para questionar essas coisas. Por outro lado, devo ser extremamente atento – olhar o Brasil e tentar encontrar mais ou menos a posição em que está no momento, artística, social e até politicamente. Tentar descobrir isso sozinho será o grande desafio.

Como você fará isso?
Eu sempre confio nos artistas para me ajudarem. E há meus colaboradores, incluindo os brasileiros. Há a leitura, a releitura e também a intuição. É um equilíbrio – ser insistente, mas também estar aberto. É algo que realmente estou ansiando: fiz isso em diferentes lugares  – na Palestina, na Coreia –, então acho que sei os processos pelos quais preciso passar e os que preciso colocar em andamento. Devo repassá-los a fim de saber o que é específico de São Paulo.

Há algum artista que você já sabe que vai querer na Bienal?
Há algumas pessoas que definitivamente quero conhecer e conversar – no Rio, São Paulo, Recife – e espero que, a partir daí, isso me leve a outras. Mas seria injusto falar de qualquer um neste estágio, sem ter tido uma conversa com eles.

Seu conceito preliminar para a Bienal é “como falar de coisas que não existem”. O que quer dizer com isso?
A arte fala da vida – é disso que sempre fala, espera-se. Mas o mundo também é cercado por forças que não podemos explicar – ainda. A economia é um ótimo exemplo: é completamente irreal, sem quase nenhuma relação com os resultados. Sabemos disso – historicamente, podemos provar isso. Há previsões, e algumas delas estão certas, mas muitas vezes estão erradas. Mas, ainda assim, investimos nisso, pois precisamos ter alguma sensação de que sabemos o que está acontecendo. E, da mesma forma, precisamos investir na arte – em compreensões da arte – mesmo se não pudermos provar sua relação com a realidade ou a vida. É uma constante que nunca podemos explicar.

Você disse suspeitar da eterna reinvenção em torno da Bienal – que deveria ser possível fazer uma Bienal que se trate simplesmente de boa arte.
Há uma ideia de reinvenção pela reinvenção, de que temos que produzir algo novo. Mas isso não parece fazer parte do zeitgeist. Acho que as pessoas estão um pouco cansadas do novo. O novo provou não ser muito novo. Não acho que haja a necessidade, uma vez mais, de anunciar que vamos reinventar a ideia da Bienal. Precisamos fazer uma Bienal realmente boa, fazer um evento, uma exposição, uma experiência que toque as pessoas.

Até que ponto a Bienal precisa refletir a realidade do Brasil ou de São Paulo?
Bem, se você me pergunta abstratamente, eu diria que não é um aspecto obrigatório – a Bienal de Veneza não reflete muito Veneza. Mas é uma tremenda oportunidade para mostrar essa metrópole que é São Paulo. Por que não aproveitá-la? Acho que, se não espelharmos a cidade, então refletiremos a arte como uma atividade à parte do resto do mundo, e realmente não estou interessado em manter esse tipo de argumento. Quero que a arte seja relacionada à vida, às decisões que tomamos sobre nossa existência cotidiana e, para fazer isso, é preciso que haja relação com o lugar onde estamos. Isso me parece importante, mas sei que há outros curadores que discordariam completamente.

31ª Bienal de Arte de São Paulo. De setembro a dezembro de 2014. bienal.org.br

Escrito por Claire Rigby
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