Time Out São Paulo

No ar: a vídeo-arte paulistana

 A vídeo-arte desafia a pintura e vira, cada vez mais, o suporte artístico de jovens brilhantes artistas

"O papel está morto, a não ser pelo papel higiênico, e o tubo de raios catódicos substituirá o quadro", profetizava o avô da vídeo-arte, Nam June Paik, apenas alguns anos depois do nascimento do videocassete, em 1965 – ao menos é o que dizem. Apenas uma geração e meia depois de Paik ter proferido tal heresia, parece que o guru do dadaísmo eletrônico estava certo. O vídeo – hoje, uma forma artística dominante não apenas nos circuitos internacionais, mas também no Brasil – rapidamente está se tornando o meio preferido de alguns dos artistas mais brilhantes do mundo.

Ironicamente, enquanto artistas contemporâneos cada vez mais empregam o vídeo como um meio, os vídeo-artistas – ao menos em São Paulo – continuam às margens da cena artística: são respeitados e até admirados, mas, como acontece com os quadrinhos e a cachaça de qualidade, apenas até certo ponto. Mas os amantes da arte que se esforçam para acompanhar a produção de alguns dos mais notáveis vídeo-artistas da cidade e do Brasil sabem que o meio tem produzido algumas das expressões artísticas mais provocativas e inesperadas do país.

 Lucas Bambozzi

Um dos principais artistas e curadores multimídia do país, Lucas Bambozzi vem construindo uma carreira incansável e criativa, abarcando vídeos, documentários, instalações e outras produções, e buscando inspiração, de modo irreverente, na filosofia, ciência e literatura. Em um experimento em vídeo ("Pêndulo") realizado em 2005, o artista instalou um projetor de vídeo em formato de pêndulo no Centro de São Paulo, acoplando ao dispositivo alguns sensores de movimento, o que fazia com que a projeção se movesse com mais violência conforme mais pessoas caminhassem pela sala. Em um trabalho mais recente, "Mobile Crash", o público era convidado a embarcar na doce catarse de "esmagar" celulares: apontando para as telas dispostas a seu redor, os espectadores acionavam lasers que, por sua vez, disparavam vídeos de martelos esmagando celulares. Uma obra poética e, ao mesmo tempo, impactante – o efêmero e o invisível frequentam o trabalho deste artista, junto a profundas investigações sobre alteridade, política, questões de controle social e intimidade em espaços coletivos.

Em sua mais recente mostra individual, "Presenças Insustentáveis", na galeria Luciana Brito, Bambozzi projeta cenas de cômodos e casas vazias para elaborar uma crônica da lenta e insistente deterioração do espaço interior. Em "Puxadinho", da exposição "Paralela", vídeos de janelas e portas cerradas são projetados em um minúsculo puxadinho de tijolo e telhado de zinco, acompanhados por insistentes batidas, como se uma pessoa invisível estivesse desesperada, tentando sair. "O que me interessa são as linguagens que ainda não foram estabelecidas e as fronteiras – o que está à margem", diz Bambozzi, que pode encontrar inspiração tanto em Marcel Proust quanto nas mais recentes tecnologias wireless. "O que não é arte: me interessa também."

Kika Nicolela

Para Kika Nicolela, que estudou cinema antes de se tornar vídeo-artista, o meio pode engendrar o que o artista de 34 anos considera "a mais intensa experiência humana com o Outro". Esta intensidade, frequentemente misturada com lirismo e carregada de intimidade, é uma marca registrada das obras de Nicolela, seja quando faz uma crônica sobre quatro transexuais em um quarto de hotel conversando candidamente acerca de seus desejos mais íntimos ("Trópico de Capricórnio"), seja quando captura a fragilidade de uma jovem serena, vagando nua pela noite ("Naked").

 A artista, que já fez residências em lugares tão diversos como Finlândia, Áustria e Coreia do Sul, aponta um paradoxo essencial na atividade dos vídeo-artistas de São Paulo. Apesar da centralidade do meio no cenário artístico local e da rápida adoção do vídeo no país – um dos festivais de vídeo mais antigos do mundo, o Videobrasil, foi lançado aqui, em 1983 –, o cenário da vídeo-arte está, em muitos sentidos, "ainda no começo", prejudicado pela ausência de distribuidores de vídeo-arte e pelas dificuldades ainda encontradas pelos artistas para comercializar obras de vídeo. A força da artista repousa tanto no que ela mostra nos filmes quanto no obsessivo rigor com que procede à edição. Assista ao lento desafio à realidade efetuado pela câmera em "Actus", que esteve em cartaz no Maria Antonia este ano. No hipnotizante "Desesmetak 2", inspirado nas danças e transes do candomblé, fragmentos de vídeo permanecem alojados na memória como projéteis: um olho desorientado, a cabeça girando e palmas trêmulas, como se pudessem tocar o divino.

Gisela Motta e Leandro Lima

A iminência da violência é um tema recorrente para a dupla de artistas Gisela Motta e Leandro Lima, que iniciaram suas carreiras como vídeo-artistas nos anos 1990, mas recentemente ampliaram sua produção de modo a incluir instalações e outras formas artísticas. Não há muitos artistas na cidade que exibam a qualidade e a tensão de Motta e Lima. Em "I.E.D. (Improvised Explosive Device)", criado em 2008, uma bomba com formato de um coração palpitante, composta de itens de consumo descartados (incluindo garrafas plásticas, dois maços de Marlboro e uma lata de bebida), pulsa ameaçadoramente conforme o dispositivo realiza a contagem regressiva. No ano seguinte, a dupla criou o igualmente memorável "You Stop It", um vídeo exibido em duas telas, em que um homem e uma mulher lançam um contra o outro, alternadamente, facas de cozinha afiadas, que por pouco não acertam o alvo. "Nós queremos tirar o vídeo da sala escura do cinema e levá-lo para a luz natural, onde as outras artes – pinturas e esculturas – estão", diz Lima. 

Escrito por Grace Fan
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