Red Bull Station abre no Centro

Uma antiga subestação elétrica renasce como um novo ponto das artes

Lost Art/Red Bull/Divulgação
Red Bull Station
Video mapping ilumina a fachada na noite de abertura do Red Bull Station

Com pouca fanfarra, um importante novo centro cultural foi inaugurado em São Paulo no mês passado: o Red Bull Station. O espaço, um prédio dos anos 1920 antes negligenciado no coração do Centro da cidade, passou por uma reforma incrível, que incluiu restauração e construção por seis meses, depois de mais de dois anos de planejamento.

Duas diferenças principais separam o Red Bull Station do já excelente grupo de polos artísticos da cidade: ele foi concebido como um espaço para a produção cultural, na forma de música e arte, em vez de uma plataforma para exposições e shows já prontos; e é patrocinado – para ser mais exata, 100% pago – pelos fabricantes da famosa bebida energética.

Com um histórico de investir em esportes e artes de vanguarda – como parte de uma estratégia de marketing que mira o público mais hipster –, a Red Bull é ativa no cenário artístico paulistano há muito tempo. O Red Bull House of Art, programa de residência para artistas, já teve três edições aqui desde 2009, incluindo duas no magnífico prédio Sampaio Moreira, no Centro e que agora vai abrigar a Secretaria Municipal da Cultura.

Quando o processo de buscar um lugar para a próxima edição começou, há cerca de dois anos, e mostraram para a equipe a antiga subestação elétrica que se transformou no Red Bull Station, a decisão tomada foi a de criar um espaço permanente desta vez, que também abrigasse um estúdio de gravação e espaço para exposições, oficinas, shows e outros eventos.

Os arredores do prédio não poderiam ser mais urbanos e mais paulistanos, pois ele fica perto do cruzamento entre as grandes avenidas 9 de Julho e 23 de Maio, em uma curva acentuada no Vale do Anhangabaú no sentido Liberdade. Presa em uma teia de vias de trânsito pesado, viadutos e passarelas de pedestres adjacentes ao Terminal Bandeira, trata-se de um entroncamento confuso de proporções impressionantes.
 

Lost Art/Red Bull/Duvulgação
Fonte no terraço do Red Bull Station
Transformadores

A estação em si, antiga propriedade da São Paulo Tramway, Light and Power Company (a Light), fazia a distribuição de energia elétrica para a frota de bondes de São Paulo, daí a localização nesse ponto arterial. A bela fonte no teto do prédio, ao lado de um terraço sombreado por uma novíssima marquise (cobertura de concreto que também coleta água da chuva para reuso), era um elemento essencial para o funcionamento da subestação: fazia parte de um sistema de refrigeração no qual a água era bombeada através do prédio para resfriar os imensos transformadores.

A bela e bem realizada reforma do prédio, que restaurou a fachada tombada, mas criou um interior praticamente todo novo, foi feita por ninguém menos que Triptyque, um quarteto de jovens arquitetos franceses e brasileiros que nos últimos anos se tornaram alguns dos mais procurados no Brasil. A equipe acrescentou um conjunto colossal de plataformas e escadas de metal em um lado do prédio, ligando seus cinco andares e permitindo a circulação fácil para cima, para baixo, por dentro e em volta do prédio.

Mas talvez o aspecto arquitetônico mais impressionante do projeto – além da combinação très Triptyque de concreto puro e elementos originais restaurados e expostos, que incluem painéis de pintura gasta e granulada, resultado de anos de novas pinturas – é o maravilhoso estúdio de gravação no térreo. O estúdio, que abrigará o Red Bull Bass Camp nas próximas semanas – um programa de imersão para músicos com ambição de se profissionalizarem – é um módulo pesado de concreto que foi inserido no centro do edifício.

Autônomo e à prova de som, com paredes grossas, o estúdio tem transparência proporcionada por janelas de vidro que dão visão para o espaço de gravação e para a sala de mixagem, onde uma mesa de mixagem analógica imensa – um mamute dos anos 1980, comprado de segunda mão de uma escola de música em Islington, Londres – ocupa lugar de destaque.

Claire Rigby

O ‘manequim’ Fancy, alter-ego de Rodolpho Parigi

 
Artistas Residentes

Enquanto isso, nos andares acima, os seis artistas selecionados para este ciclo do programa de residência da Red Bull incluem Ale Domingues, que inova no trabalho com luz; a artista performática Fabiana Faleiros; e Chico Togni, cuja obra incorpora papelão e outros materiais descartados em um efeito surpreendente. Raquel Uendi trabalha com a fotografia como uma forma de escultura, usando uma impressora de alta resolução para ‘revelar’ algumas de suas imagens antes de dobrá-las e arrumá-las na parede; Thiago Honório usa várias mídias para criar instalações cuidadosas e que fazem pensar; e Rodolpho Parigi, talvez o mais conhecido do grupo, com uma carreira bem sucedida como pintor, está experimentando com um alter ego, um manequim chamado Fancy.

O pernalta Fancy – que anda pelos corredores totalmente montado de drag e que apareceu na noite de inauguração, fazendo uma série de poses trágicas em um pedestal – é emblemático da natureza experimental da arte que é promovida durante essas residências. A ideia, segundo a jovem curadora do programa, Paula Borghi, é que os artistas tenham a oportunidade de trabalhar com práticas experimentais que podem não ser vendáveis, mas que contribuem para o desenvolvimento deles a longo prazo.
Os artistas contam com ateliês individuais onde podem trabalhar dez semanas, além de acesso a palestras e oficinas, incluindo uma digital e outra ‘analógica’, para trabalhar com cerâmica e coisas assim.

É impossível duvidar da sinceridade e da generosidade monetária da Red Bull quando se trata do patrocínio deste e de outros empreendimentos esportivos e criativos ao redor do mundo. O que é mais difícil de entender é como isso tudo se traduz em vendas daquelas latinhas finas de refrigerante, que, afinal das contas, são o negócio da empresa. Parte de uma mistura de cool-hunting, marketing obscuro e mecenato à moda antiga, o Red Bull Station é representativo de um mundo muito moderno, no qual a publicidade, o marketing e a criação de ‘conteúdo’ se misturam em uma coisa só.

Se é de graça, você é o produto, diz o provérbio da era da internet. No Red Bull Station, quase todas as atividades são gratuitas, desde as residências e os programas de música até as palestras, oficinas, shows e exposições. A única coisa que não é de graça, é claro, são as bebidas gasosas: o pequeno café vende refeições simples e lanches, além das onipresentes latinhas azuis e prateadas de bebidas energéticas.

O Red Bull Station fica na Praça da Bandeira, 137, República (redbullstation.com.br). Horários Ter. a sáb., 11h-21h. Entrada gratuita.

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

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