Michael Powell: entrevista

O diretor de Os Sapatinhos Vermelhos e Neste Mundo e no Outro, cujo trabalho é o tema de uma retrospectiva no CCBB, morreu há 20 anos. A Time Out teve o privilégio de entrevistá-lo pouco antes de sua morte

Getty Images
Diretor Michael Powell

Embora Michael Powell tenha realizado uma boa parte dos clássicos do cinema britânico - como The Life and Death of Colonel BlimpNeste Mundo e no Outro e Os Sapatinhos Vermelhos -, o diretor Michael Powell foi por muito tempo uma figura ignorada até que descobertas dos dois lados do Atlântico o trouxeram de volta à luz do holofote no começo da década de 80. Em 1986, com 80 anos e a apenas 4 anos de sua morte, que aconteceria em 1990, ele lançou o primeiro volume de sua autobiografia A Life in Movies e iniciou uma turnê literária pelo Reino Unido.

TO O que você acha dessa redescoberta da sua carreira ocorrida nos últimos anos?

MP Foi um processo lento e gradual. Eu tinha muitos inimigos nos altos escalões da indústria cinematográfica britânica e eles usaram as primeiras críticas a A Tortura do Medo contra mim. Muita gente achava que eu era uma pedra no sapato, sempre querendo fazer algo novo. Às vezes eu provava que eles estavam errados, frequentemente que eles estavam certos! Mas por muito tempo, A Tortura do Medo impediu que eu fizesse qualquer filme na Inglaterra.

 

TO Ao contrário da crença popular, A Tortura do Medo não acabou com sua carreira.

MP Eu fiz They’re a Weird Mob,  na Austrália, e achei que esse filme tinha muitas qualidades das antigas produções americanas de Leo McCarey, como Vamos à América. Foi um grande sucesso na Austrália, mas aqui eles diziam coisas como “mas é um filme sobre operários!”. Eles também não gostaram de Age of Consent. Muita nudez, eu acho. Eu concordo que há tipos de nudez que ninguém quer ver, mas Helen Mirren tem um corpo espetacular. E James Mason conheceu sua segunda esposa Clarissa, naquele filmeEu coloquei os dois juntos na cama na primeira cena, eles se apaixonaram e se casaram. Eu queria que ele fizesse uma versão de A Tempestade depois disso, porque eu achei que ele seria um ótimo Prospero. Mia Farrow interpretaria Ariel e André Previn, seu marido na época, ia fazer a música. Eu tinha pensado em um jeito de fazer com que não fosse só Shakespeare, mas que tivesse um pouco de Powell também. Todos adoraram o elenco, mas nós não conseguimos o dinheiro.

 

TO O lado financeiro do negócio é algo que sempre te complicou?

MP Ah, eu acho que sou um pouco inocente para essas coisas. Eu acho que se você tem os atores certos e uma boa história, alguém tem o dever de colocar dinheiro no projeto.

 

TO Martin Scorsese é um dos principais responsáveis pela sua redescoberta. Você já considerou se mudar para a América para trabalhar?

MP Eu nunca quis trabalhar em Hollywood. Não por desprezo ou qualquer coisa assim, mas se eu tenho qualquer coisa a trazer para o cinema, humildemente, é o fato de eu ser inglês.

 

TO Mas o alcance das suas obras com certeza não se limita a essas “inglesices” e engloba os mundos da ópera e do balé, não?

MP Nunca tentei conscientemente trazer outras formas de arte para o cinema, eu queria usar todos os meios. A Arte é uma só. Essa é a mensagem do segundo volume da minha autobiografia, que estou escrevendo agora. Mas você sabe, Os Sapatinhos Vermelhos é uma história que Alexander Korda já queria fazer antes da guerra, com Merle Oberon. Eu tive a ideia de comprar o filme de volta, mas nós só poderíamos fazer o filme se tivéssemos uma bailarina de verdade no papel principal e se criássemos um balé especialmente para o filme. Emeric empalideceu quando eu lhe disse isso.“Todo um balé?!”, ele é um escritor, afinal. “E onde nós vamos encontrar essa garota?” bem, eu não tinha ninguém em mente, mas isso é arte e você não pode fingir na arte. Eu achava que se déssemos essa oportunidade, a garota certa iria aparecer. E Moira Shearer apareceu! Muitos críticos ficaram receosos de que a matássemos no fim. Até Emeric titubeou, devo dizer. Mas nós ouvimos por dez anos que devíamos morrer pelo nosso país, morrer por isso ou por aquilo. Ninguém dizia que devíamos morrer pela nossa arte, então nós iríamos dizer isso!

 

TO Você vê uma linha dividindo artistas e diretores?

MP O cinema é a arte que eu escolhi e eu sei mais sobre sua história que ninguém, porque eu sou ela! Meu livro é sobre minhas experiências pessoais como artista nesse meio, incluindo muitos filmes que eu queria ter filmado, mas não pude. Eu sempre lamentei não ter feito Ondine com Audrey Hepburn, um conto de fadas sobre uma ninfa aquática que se apaixona por um cavaleiro. Então é apenas um acaso que seja um livro sobre filmes. O que importa é sua arte. Você tem que se lembrar disso. Se você é um artista, não pode escapar disso.

 

TO Mesmo que haja uma guerra e você esteja tentando trazer algo pessoal para o tema com um pouco de propaganda?

MP É, o ponto inicial de Nesse Mundo e no Outro foi o diretor do departamento de filmes do Ministério da Informação. Ele achava que fazíamos filmes que pareciam sermões e por isso seríamos capazes de fazer um filme que mostrasse o quanto amávamos os americanos e o quanto eles nos amavam. “Qual o problema?”, eu perguntei, “não estamos ganhando a guerra?”. “Ah, esse é o problema”, ele disse, “quando nós estávamos perdendo, todos se amavam, mas agora que estamos ganhando...”

 

TO Por que a parceria com Emeric Pressburger deu tão certo?

MP Bom, Emeric tem o tipo de gênio que faz você se apaixonar imediatamente. Nós nos conhecemos em uma conferência sobre uma história horrorosa que Korda queria filmar com Valerie Hobson e Conrad Veidt, O Espião de Preto. Ninguém havia reparado em Emeric até Korda o apresentar, aí ele pegou o que eu lembro ser um pedacinho muito pequeno de papel e ele lançou um enredo completamente diferente que virava o roteiro anterior de cabeça para baixo. Todo mundo começou a ficar roxo com essa ideia, mas eu a achei maravilhosa. Emeric tinha uma coisa... num dia eu dizia que achava que a frase “um de nossos aviões sumiu” renderia um filme, mas falava isso bem por cima. Quando eu já tinha esquecido o assunto, ele aparecia com uma história de pilotos que voltavam da guerra e tinham uma missão na Holanda e precisavam achar um jeito de voltar para casa. “Tá bom”, eu disse, “vamos escrever o roteiro!”.

 

TO Suas diferenças se complementaram?

MP O Emeric nasceu na Hungria e era judeu como o Korda, por isso ele tinha esse humor incrível e uma atitude meio sarcástica em relação à vida. Eu tinha um jeito mais solene, poético de encarar as coisas, a combinação deu certo por vinte anos.

 

TO Como teria sido sua carreira sem ele?

MP Eu acho que teria feito filmes interessantes, bem visuais, mas meio chatos. Ele trouxe um forte viés teatral para os filmes. A culpa pelo fim da parceria foi minha. Eu fiquei entediado. Mas nós continuamos ótimos amigos. Eu passei o último fim de semana com ele. Ele está meio fragilizado ultimamente. Ele me disse “Michael, eu sou quatro anos mais velho que você e eu não invejo seus próximos quatro anos de vida”.

 

TO Mas você ainda acredita nas colaborações?

MP É necessário para o cinema. É uma questão de vida e morte. O diretor não tem que ser responsável pela ideia inicial. O papel dele é encontrar os melhores colaboradores que conseguir, sugar suas ideias, arrumar o dinheiro e colocar tudo na tela e deixar os atores levarem os créditos. Eles são sempre o rosto dos projetos, não se esqueça disso.

 

TO Mas como diretor, você tomou as dores por A Tortura do Medo, isso machucou?

MP Não, eu apenas achei que eles estavam errados e eu estava certo. Eu não entendi a reação violenta do público. As pessoas não são tão inocentes, são?

 

TO Você queria provar que o cinema é capaz de canalizar os desejos mais ocultos das pessoas?

MP Eu não, mas o autor sim. Leo Marks primeiro tentou me vender uma história sobre agentes duplos, isso porque ele esteve nos departamentos de decodificação durante a guerra. Mas eu simplesmente não queria fazer um filme sobre isso na época. Eu senti que o estava testando e perguntei se ele poderia escrever alguma coisa sobre Freud. Ele voltou uma semana depois com um enredo sobre um cara que matava com sua câmera. “Você conseguiu”, eu disse, “isso é a minha cara. Vamos fazer isso”.

Escrito por Time Out São Paulo editors
 

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus
 

© 2011 - 2016 Time Out Group Ltd. All rights reserved. All material on this site is © Time Out.