Time Out São Paulo

Uma picape para o mundo

O criador de hits Fatboy Slim apresenta o seu set consagrado no próximo dia 24

Lá se vão dez anos desde que Norman Cook, como também é conhecido Fatboy Slim, apresentou o show ‘Big Beach Boutique’ em sua cidade natal de Brighton – que o projetou definitivamente na cena eletrônica. Como em uma revisão dance, é esse espetáculo que o top DJ traz ao Transamérica Expo Center, em São Paulo, no dia 24. Sua mistura mântrica de house, acid, techno e electro pode soar demasiado pop para alguns, mas tem a inquestionável eficiência que chacoalha sorridentes multidões.

Eu estava ouvindo The Mighty Dub Katz e Beats International (antigos grupos de Fatboy Slim), e pensei que você sempre esteve interessado no apelo do pop e na eficiência nas pistas. É engraçado... quando comecei a ficar famoso, a reclamação era: “Ah, Norman só toca eletrônica para pessoas que não gostam de eletrônica”. Como se isso fosse ruim! Mas sempre tive ouvido para identificar o que mexe com as pessoas, e o projeto sempre foi fazer eletrônica mais acessível, com melodia, ou que pelo menos tivesse uma batida irritante, repetitiva, que prendesse a atenção das pessoas.

Você já tentou, alguma vez, tocar sons mais vanguardistas?
Já tentei fazer gravações mais underground, mas elas sempre acabavam tendo um apelo pop. Eu cresci nos anos 1960 ouvindo Beatles; amadureci durante a época do punk rock; e, quando comecei a discotecar, tocava rap e house. Acho que o que faço hoje é a soma de tudo isso. É a atitude “faça você mesmo” do punk, a sensibilidade pop dos 1960 e a prática de samplear hip hop e house.

Você pulou sua passagem pela banda de rock The Housemartins, nos anos 1980.
Bem, esse era meu trabalho diurno. Não se esqueça: naquela época, pessoas brancas não faziam eletrônica de verdade, e era meu destino – tendo crescido no sul da Inglaterra, branco e suburbano – tocar em uma banda pop. Mas o advento do sampler e da bateria eletrônica significou, a partir de um determinado momento, que pessoas como eu poderiam fazer eletrônica.

Sua turnê atual parece agitada em relação aos anos passados, você esteve em cerca de 70 locais, e chegou até a Muralha da China.
Eu parei de beber há dois anos, e realmente me sinto como se tivesse vida nova. Sem ressaca, é muito mais fácil fazer todas as viagens. Além disso, na minha idade, você começa a perceber que há uma quantidade finita de tempo em que você pode fazer esse tipo de coisa: estou aproveitando ao máximo.

Como você está tocando agora? Eu sei que, por muito tempo, você foi um entusiasta do vinil.
Finalmente abandonei o vinil, o que é outra coisa que tornou as viagens mais fáceis. Estou discotecando com o Serato, que também pode ser usado como um programa de vídeo, então na verdade sou VJ agora. Nós escrevemos roteiros visuais para as músicas, e então tudo que eu faço com as pick-ups aparece nas telas. É um elemento novo, que me ajuda a mexer com as mentes das pessoas. E parece que funciona! Uma coisa que a internet e os downloads não podem substituir é a experiência de sair, ficar bêbado e transar, e estou aqui para facilitar isso.

Você tem tocado músicas próprias nesses shows?
Não, na verdade, não. Eu meio que cito trechos de ‘The Rockafeller Skank’ e ‘Praise You’, mas não vou tocá-las de novo, a noite toda. Como disse: não estou aqui para vender discos nem nada. Estou aqui como DJ, para fazer um som.

Que artistas você tem tocado ultimamente?
Gosto muito de Riva Starr, Dirty Dutch e pessoas como Afrojack. São eles que provavelmente estão fazendo o som mais avançado hoje em dia. Há sempre os meus velhos favoritos, como Armand Van Helden, mas ninguém tem papel principal no momento. Exceto talvez David Guetta, e ele não faz muito meu estilo... é um pouco pop demais para o meu gosto. Mas está fazendo algo corajoso, levando as pessoas do hip-hop para o eletrônico. Tenho todo o respeito por ele, assim como pelas barreiras que está quebrando.

Você disse que não está envolvido em nenhuma gravação no momento, mas tem planos nesse sentido?
Não. Depois de 25 anos no mundo da música, você tem algumas vantagens. Não precisa mais gravar um disco a cada dois anos. E isso é ótimo. Agora estou apenas aproveitando, tocando as músicas de outras pessoas. Quem sabe... Pergunte-me ano que vem. Mas acabamos de ter uma filha e ela toma todo o meu tempo livre. Sou um pai de verdade – apenas pai e marido.

No Brasil

Em uma rápida conversa por telefone com Fabiana Caso, Fatboy Slim falou sobre a sua (apaixonada) relação com o Brasil: ele é o DJ recordista em apresentações no país – já tocou por aqui 12 vezes.

Você mudou a letra da canção ‘Put your hands up for Detroit’ em homenagem ao Brasil. Qual é a sua relação com o país? Eu amo o Brasil, é o meu lugar favorito para viajar. É um público tão quente… gosto de tudo sobre o país, o clima, o povo, a comida. Musicalmente, nós nos harmonizamos, de alguma forma. É muito raro ir a um país onde as pessoas se orgulham de sua nação, como acontece no Brasil – e vocês realmente têm motivo para isso. Também gosto de música brasileira, meus pais ouviam samba... talvez isso explique algumas das cores em minha música. Oh, há problemas terríveis para pronunciar os nomes, mas no momento, minha artista favorita é Elis Regina (ele pronuncia o nome perfeitamente).

Com a internet e os downloads, temos cada vez mais DJs tocando em festas. Comente.
Hoje é muito fácil ser DJ. Mas para ser um bom, você precisa ter vivido experiências, tocado em casamentos e em festas de escolas, isso não é algo que você possa conseguir através de seu laptop. É preciso entender o que faz as pessoas dançarem. E acho que essa experiência é uma das razões para tantos de nós, velhos DJs, estarmos aqui. Mas é muito bom que mais pessoas tenham acesso à música! Antes passávamos metade de nossas vidas nas lojas tentando encontrar os melhores discos. Agora é fácil encontrá-los, mas ainda é difícil saber quais são bons.

Fatboy Slim. Transamérica Expo Center. Av. Dr. Mário Villas Boas Rodrigues, 387, Santo Amaro, 11 5505-1013. R$ 100-R$ 350.  24/1, 2h30

Escrito por Bruce Tantum
Compartilhe

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus

Outras notícias recomendadas

Os filmes da semana – 01/12/2016

Ceia de Natal da Casa Santa Luzia

Rodízio de brigadeiro