Madame, de roupa nova

A Time Out São Paulo resgata histórias do clube que marcou os anos 1980 e mostra a nova programação

Cortesia de Marcelo Vilela e Zoraide Lopes de Almeida

Em frente ao casarão de paredes pretas, janelas enormes e com blocos de cimento obstruindo a entrada, o taxista declara: “Aí é o Madame Satã. Morria de medo daqui”. Ele acertou em cheio. O imponente imóvel do Bixiga abrigou um dos mais famosos clubes da década de 1980. Agora, o mito é ressuscitado por Gé Rodrigues e Igor Calmona, empresários da noite paulistana. A casa foi reaberta no dia 29 de fevereiro. 

Mesmo com os pedreiros ainda trabalhando na reforma, a casa mantém algo de quase sobrenatural. O pé-direito alto do salão de entrada e o porão pintado de preto indicam a importância que o lugar teve na história da cultura alternativa. “Dá para sentir uma coisa”, diz a anfitriã Paula Micchi.

Ana Moraes
Fachada do Madame durante a reforma


Quando tinha 15 anos, Paula costumava fugir de casa, em Santo André, e correr para o Madame. “Pintava os olhos de preto para disfarçar a idade, né?”, ela entrega. Na época, o lugar era mais que um bar – funcionava como um centro de reunião de muitas tribos da Grande São Paulo. Com shows de bandas como Titãs, Capital Inicial e Legião Urbana, ir até lá era certeza de encontrar gente interessante. “Na época, o legal era ser culto, ler muito”, lembra Paula, “você podia sentar em uma mesa e começar a falar sobre Goethe.”

De jovem rebelde, Paula passou a dar aulas de teatro e hoje é coordenadora da programação cultural. Sua responsabilidade é definir não só as farras, mas peças, exposições, performances e cursos que ocorrerão no número 873 da Rua Conselheiro Ramalho. “Teremos performances no meio das festas”, conta, “assim como na década de 80”. Paula se refere aos atos “não tão” espontâneos que aconteciam no meio da noite. “Eu lembro da Gorda. Ela ficava em uma gaiola comendo repolho a noite toda”, lembra. A Gorda, na verdade, era Charô, uma performer de seus trinta e poucos anos que se vestia de noiva, declamava poemas e, é verdade, comia repolho.

Sobravam outras curiosidades no clube com a pista de dança mais escura da cidade – só uma luz estroboscópica piscava no porão. “Tinha o Mãozinha. Ele era um punk que tinha um fetiche e implorava para a gente pisar nas mãos dele. De salto, então, vixe!” 

Cortesia de Marcelo Vilela e Zoraide Lopes de Almeida
Zine do Madame Satã

A escritora Cristina Judar é outra que curtiu a adolescência naquela esquina do Bixiga. Na época, ela costumava se identificar com os góticos. Quer dizer, com os “darks, gótico é coisa recente”, ela explica. Das loucuras que fizeram a fama da casa, Cristina lembra de uma instalação que a marcou. “Na entrada, eles montaram um corredor com plástico que era muito apertado, a gente tinha de fazer força para sair. Parecia uma vagina.” A analogia vai além: “Sair daquilo foi um rito de passagem. Nunca mais fui a mesma!”

Entrando no time das garotas, mas da ala punk, Adriana Junqueira, Cristiana Rezende e Magda Castanha alertam: “O Madame Satã não era só a boate. Era a rua toda, principalmente o boteco que ficava ali do lado”. Na época áurea da casa, as três se reuniam com mais cinco amigas para formar a gangue Viatura Punk. “Nós éramos poderosas, a gente tinha carro e entrava de graça porque tinham medo da gente”, orgulha-se Adriana, que hoje é tecnóloga em gastronomia, enquanto Cristina é dona de uma loja de alimentos orgânicos e Magda tem uma confecção de tricô. Mas as três passaram por alguns perrengues nos tempos de luta contra o sistema. “Eu dormia direto no Madame. Morava no ABC [Paulista] e tinha de esperar até as sete da manhã para pegar ônibus”, conta Magda. E ainda havia ‘os carecas’ – skinheads – que aguardavam do lado de fora para bater nos punks.

Cortesia de Marcelo Vilela e Zoraide Lopes de Almeida
Pista do Madame Satã na década de 1980

O novo proprietário Gé Rodrigues também tem suas memórias do casarão. Lá pelos seus 12 anos, trabalhava na entrega do fanzine do Madame. Um dia, quando o DJ faltou, os donos chamaram o garoto para comandar as picapes. “Peguei meus vinis e fui lá. Depois disso, me convidaram outras vezes.” 

A aposta deu certo e até hoje esse morador do Bixiga de 39 anos toca no DJ Club, NovaNostro e outras casas de sua rede. E reforça que o novo empreendimento é mais que uma balada. “Queremos fazer uma coisa cultural.”

Para concretizar os planos, que se desenrolam desde que o antigo dono do ponto fechou as portas, em 2007, a equipe nova planeja reabrir a casa com a peça São Paulo Surrealista, de Marcelo Marcus Fonseca. “É uma peça bem maldita”, diz Paula.

A casa, aliás, foi exorcizada e perdeu o “Satã”. De nova maquiagem, ela agora tem espetáculos burlescos, shows e festas. “Magal e eu vamos tocar aos sábados”, conta Gé. “E vai ser só vinil o tempo todo, aqui não entra computador”.

Madame, R. Conselheiro Ramalho, 873, Bela Vista, 11 2592-4474. R$ 20-R$ 60.

Escrito por Anita Porfirio
 

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