A arte dos rótulos de cervejas artesanais

O designer de rótulos Randy Mosher conversou conosco sobre como as etiquetas das cervejas artesanais podem ser tão interessantes quanto a bebida que representam


Mais de 70 cervejarias brasileiras mostraram seus produtos artesanais e fizeram a cidade de Blumenau, em Santa Catarina, bombar durante o Festival Brasileiro da Cerveja, em março. É um sinal dos tempos: o jovem mercado nacional das loiras, ruivas e morenas artesanais começa a ganhar ritmo e chamar a atenção fornecendo um bem-vindo antídoto às cervejas insípidas das gigantes marcas industriais.

Há uma geração jovem de cervejeiros apaixonados, que têm colocado suas próprias personalidades em pale ales, porters, lagers e stouts e dão características mais descoladas à bebida.

Mas o que aparece do lado de fora da garrafa é tão importante quanto o vem dentro dela, segundo o designer americano Randy Mosher. Mestre nessa arte, Mosher desenha rótulos há 23 anos e, mais recentemente, o faz para uma das marcas artesanais pioneiras no Brasil – a Colorado, produzida em São Paulo. Mais recentemente, Mosher passou a desenhar também para as cervejarias brasileiras Amazon Beer, Bauhaus, Santa Fé e uma iniciante paulista chamada Steck. À Time Out São Paulo, ele fala sobre o poder do rótulo.

O que significa o termo cerveja artesanal, que tanto usamos?
São produtos muito individualizados e geralmente criados por pessoas apaixonadas, que querem fazer algo artístico. Elas não miram nichos de mercado.

O que nos diz do mercado de cervejas artesanais no Brasil?
A primeira onda de cerveja artesanal foi há cerca de 15 anos, principalmente no sul do Brasil e com inspiração na Alemanha. Agora, temos uma nova onda de jovens cervejeiros, cheios de energia e de ideias. É como uma religião.

Qual é a importância do rótulo para uma cerveja artesanal?
Primeiramente, ele deve chamar a atenção. O segundo papel [do rótulo] é transmitir o que é a cerveja. Depois, queremos criar uma presença na prateleira – chamamos isso de bill boarding, em que muitos rótulos criam uma seção na prateleira e realmente aumentam a presença da marca. Os rótulos também precisam de profundidade e de muitas camadas. Você descobre pequenos detalhes neles – é como abrir um ovo de Páscoa.

Randy Mosher

Como é o visual típico de uma cerveja artesanal?
Geralmente, há alguma referência histórica. O rótulo da Budweiser, por exemplo, é basicamente o mesmo desde 1880. O mesmo vale para a Miller e a Coors. Você geralmente vê uma organização simétrica e, muitas vezes, lúpulo e malte meio que brota das coisas. Isso vale tanto para as marcas comerciais como para os rótulos artesanais, embora geralmente os artesanais sejam mais vívidos, mais intensos.

Por onde você começa um desenho?
Primeiro, ajudo a esclarecer a missão da cervejaria. Algumas cervejarias novas sabem qual é [sua missão] logo de cara. Mas algumas ficam: “Ah, só queremos uma coisa legal”. Mas [o desenho] tem de vir da personalidade, do sonho dos cervejeiros. Com o Marcelo [Rocha, dono da Colorado] foi muito fácil.

Por onde começou com os rótulos da Colorado?
Tenho centenas e centenas de jpegs de rótulos antigos de todo o mundo. Nos últimos dez anos, procuro no eBay e faço o download das imagens. É muito difícil encontrar bons livros de design com referências em tipografia antiga e coisas antigas. Tudo tem de ser moderno e novo. Então, depois de conversar com o Marcelo, olhei alguns rótulos antigos de cervejas brasileiras e me senti arrebatado por elas.

Fale mais sobre os rótulos brasileiros.
Eles se esforçam para copiar os rótulos norte-americanos ou os europeus, o que acho realmente encantador. É possível ver isso na forma como tentam usar cada espaço da página – são muito abarrotados. É meio que um estilo vitoriano: “Aqui tem um espaço sobrando, vamos enchê-lo com alguma coisa”. Gosto de trabalhar assim, mas é antimoderno. O design moderno é organizado e limpo. No Brasil, é comum também o tema festivo – adorar uma diversão é da personalidade brasileira. E, claro, os rótulos são extravagantes.


Prove as eleitas

Conheça as cervejas artesanais brasileiras preferidas de Randy Mosher:

Wäls
“Essa cervejaria de Belo Horizonte tem produtos muito bons. Eles fazem uma cerveja que começou caseira, chamada Petroleum. É uma imperial stout, então é escura, substanciosa, grossa e viscosa.” Onde beber: Empório Alto dos Pinheiros. R. Vupabussu, 305, Pinheiros, 3031-4328. altodospinheiros.com.br

BodeBrown
“Essa cervejaria de Curitiba faz cervejas realmente saborosas, incluindo uma IPA (indian pale ale) e uma ale escocesa forte. Eles têm uma que queriam chamar de Venenosa, mas o governo não aprovou. Então a chamaram de Peligrosa.” Onde beber: Bar de Bruer. R. Girassol, 825, V. Madalena, 3812-7031.

Bamberg Bier
“Alexandre Bazzo produz cervejas fantásticas ao estilo alemão, a apenas 100 km de São Paulo. Coincidentemente, a cidade alemã que deu nome a sua primeira cerveja tem uma tradição muito antiga de fazer cervejas em pedras quentes e com malte defumado. Ele faz uma rauchbier, que é defumada, bastante deliciosa.” Onde beber: Melograno. R. Aspicuelta, 436, V. Madalena, 3031-2921. melograno.com.br

Escrito por Catherine Balston
 

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