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Lore: crítica do filme

Lore: crítica do filme

Estreia 11 Out 2013

Diretor Cate Shortland

Elenco Saskia Rosendahl, Kai-Peter Malina, Nele Trebs.

Já estamos acostumados – alguns diriam no sentido negativo – a ver personagens vivendo como fugitivos em histórias sobre a devastação da Segunda Guerra na Europa. De fato, ao conhecermos a protagonista do drama de Cate Shortland, não faltam razões para pensarmos que Lore Dressler (Saskia Rosendahl) é mais uma heroína que tenta ficar um passo à frente da indústria genocida da Gestapo.

Só que algo parece estranho, uma vez que a jovem e seus irmãos são instruídos pela mãe (Ursina Lardi) a fugir de casa. Logo descobrimos por que: não se trata de crianças judias perseguidas, mas sim dos filhos bem de vida de um oficial da SS que tentam evitar o encontro com as tropas aliadas após as notícias sobre a morte do Führer.

Quanto mais esses jovens nazistas correm pela Floresta Negra para chegar à ‘casa da vovó’, como crianças de um conto dos irmãos Grimm, mais o desespero de Lore revela seu antisemitismo ostensivo. Nós vimos a inimiga – e se espera que simpatizemos com ela.

É uma jogada ousada, que testa os pontos fracos do emocional da plateia, conforme a ainda nazista Lore, seus parentes e uma criancinha vulnerável vagueiam pela paisagem pós-apocalíptica da Alemanha Ano Zero. E como em Somersault (2004), filme de estreia da jovem diretora australiana, o seu segundo longa é hábil em usar close-ups abstratos e claustrofóbicos – uma bituca de cigarro, água gotejando, formigas em um cadáver – para enfatizar momentos de beleza e terror enquanto a protagonista lida com um mundo brutal.

Mas, depois de um tempo, o show de horrores de Lore começa a parecer menos um meio de chegar a um fim, e mais o fim em si: o que começa como um conto maluco de sobrevivência se transforma em uma exploração trágica que chafurda em seu eterno sofrimento.

Escrito por David Fear
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