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Jovem e Bela: crítica do filme

Jovem e Bela: crítica do filme

Estreia 15 Nov 2013

Diretor François Ozon

Elenco Marine Vacth, Géraldine Pailhas, Frédéric Pierrot

François Ozon anda na ponta dos pés em um campo minado em Jovem e Bela (Jeune & Jolie) – história de uma garota de 17 anos, Isabelle (a ex-modelo Marine Vacth), que tem uma vida confortável em Paris e decide se tornar prostituta de alto nível, no meio tempo entre ir à escola e lidar com os altos e baixos da vida familiar. Isabelle não é pobre, não há nenhuma indicação óbvia de ter sofrido abuso e os problemas que tem em casa são bastante comuns.

Ainda assim, desde as primeiras cenas do filme, quando ela discute um casinho de férias com seu irmão pré-adolescente, rejeitando a intimidade de um romance de verdade, percebemos que algo está seriamente errado quando o assunto é sexo, seu corpo e seus relacionamentos com os homens. É uma premissa instigante quando Isabelle se lança em uma série de encontros pré-pagos com homens bem mais velhos em quartos de hotel – mas Ozon só fica na superfície, com uma abordagem que vai de suave a austera.

Não entregar respostas fáceis é um mérito do diretor. Mesmo após longas cenas de sexo e confrontos com as pessoas mais próximas a Isabelle, e até uma sessão com um psicólogo, não ficamos sabendo o que a move. Essa abordagem é bem-vinda e dá muita ênfase à atuação de Vacth – e ao filme como estudo de personagem –, conforme nos esforçamos a interpretar seu comportamento, suas poucas palavras e até mesmo seu olhar. Isso sem falar que Vacth abraçou as cenas francas e frequentes de sexo de forma ousada e corajosa.

Mas ela oferece mais que isso. Há uma dureza em seus olhos, contrabalançada pela vulnerabilidade, que é profundamente entristecedora. Ela é dura e experiente demais para sua idade; mas também está perdida e muito infeliz. Uma cena que se desenrola tarde da noite com seu padrasto (Frédéric Pierrot) é desconfortante e incômoda, pois ela leva para casa o charme superficial que usa para ganhar clientes. Sua relação impaciente com a mãe compreensiva (Géraldine Pailhas), porém distraída, tem algo de indecifrável e é mostrada com habilidade.

Mas essa bem-vinda abertura entra em contradição com outras decisões que Ozon toma. A estrutura de quatro estações do filme – vamos do verão à primavera – é sufocante e espreme ideias complexas em um formato simples demais. As músicas que marcam a mudança das estações são banais e óbvias (“A menininha que você conhecia não existe mais”, diz uma das letras). Outras tentativas de mostrar a ambiguidade de Isabelle, como quando seus colegas de classe recitam o poeta francês Rimbaud, também parecem forçadas.

Felizmente, Ozon derruba um episódio tardio de um novo namorado para a protagonista, no qual parece que a conclusão das coisas é clara demais. Mas então, a aparição ainda mais tardia da esposa de um dos clientes de Isabelle, em um papel pequeno interpretado por Charlotte Rampling, é estranha e inverossímil. Em uma conjuntura fatal, isso desvia a atenção das questões importantes do filme e da nobre tentativa de Vacth de abordá-las com a sutileza e a autoconfiança que marcam a estreia de uma nova e genuína estrela.

Escrito por Dave Calhoun
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