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Trapaça: crítica do filme

Trapaça: crítica do filme

Estreia 7 Fev 2014

Diretor David O. Russell

Elenco Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Amy Adams, Christian Bale

No intervalo de seis anos que seguiu o lançamento do delirante Huckabees: A Vida é uma Comédia, de 2004, David O. Russell parece ter tomado gosto por dirigir filmes de grandes estúdios – mas isso não é exatamente a mesma coisa que virar mainstream. O Vencedor e O Lado Bom da Vida pareciam experimentos para ver quanto da sensibilidade caótica e combativa de Russell conseguia sobreviver à fórmula hollywoodiana para filmes de boxe e comédias românticas, respectivamente.

A resposta, pelo visto, é ‘muito bem’. Trapaça, sua agitada versão de filmes de vigaristas, não é diferente, com boa parte do sensacional elenco saído de seus dois filmes anteriores, e funcionando quase como uma parte final desta ‘trilogia’.

Quase é a palavra-chave aqui. “Algumas dessas coisas aconteceram de verdade”, brinca o letreiro que introduz o filme, que faz um relato ficcional e digressivo da infame operação Abscam do FBI, no fim da década de 1970. O enredo é bem complicado: Irving Rosenfeld (Christian Bale) – um dono de lavanderias drogado de Nova Jersey, que age como falsário nas horas vagas – é forçado pelo agente federal Richie DiMaso (Bradley Cooper, com um cabelo permanente estilo poodle) a participar de um plano para prender diversos políticos importantes.

Mas, no fim, a história do filme acaba sendo secundária frente aos detalhes que o diretor imprime à caracterização de personagens e do ambiente. Uma cena de abertura brilhante e sem falas, na qual Bale cobre sua careca com uma peruca falsa e barata com todo o cuidado do mundo, ilustra o quanto o filme se importa tanto com disfarces pessoais quanto profissionais.

Trata-se também de uma história de amor, curiosamente efetiva em sua frieza, entre dois vigaristas cheios de falsa autoconfiança: Rosenfeld alterna entre ser conquistado e manipulado pela escorregadia Sidney (Amy Adams, intensa), enquanto sua exuberante esposa de Nova Jersey, Rosalyn (Jennifer Lawrence), assiste a tudo da arquibancada.

Chateada e fora de controle, cantando aos berros ‘Live and Let Die’, em sua gaiola suburbana literalmente dourada, Lawrence está extraordinária, aprimorando a performance que lhe rendeu um Oscar no último filme de Russell. Que esta parceria continue por muito tempo: em Lawrence, ele encontrou a fagulha ideal para o seu tipo de comédia humana vivaz e turbulenta.

Escrito por Guy Lodge
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