Noé: crítica do filme

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Niko Tavernise/Divulgação
Jennifer Connelly e Russell Crowe em 'Noé'
Jennifer Connelly e Russell Crowe em 'Noé'

Até aqueles que não acreditam, conhecem a história: um mundo se afogando em pecados, um dilúvio enviado dos céus, e uma embarcação enorme, com dois animais de cada espécie, esperando pelo fim de uma inundação por 40 dias e 40 noites. O que você talvez não saiba é sobre os Transformers.

Mas cada coisa na sua hora. A primeira a se notar é que a versão da lenda bíblica de Noé (interpretado por um Russell Crowe sério demais) feita pelo diretor Darren Aronofsky é um trabalho bem idiota, mas, ainda assim, muito fascinante. É de se ficar de boca aberta várias vezes. Como, por exemplo, na sequência de sonho inicial, quando o homem comete o pecado original no Jardim do Éden (com uma cobra digital que desperta risos), filmada ao estilo das montagens de consumo de drogas em Réquiem para um Sonho (2000), obra do mesmo cineasta.

A visão de Noé, no entanto, não é fruto de substâncias narcóticas, mas enviada pelo “Criador” (o eufemismo do filme para Deus) para alertar seu rude subordinado que uma limpeza étnica está para acontecer. Com a ajuda do vovô Matusalém (Anthony Hopkins), que tem mil anos de idade, e de sua esposa – que está sempre seguindo ele – Naameh (Jennifer Connelly), Noé se dá conta que o sonho é um chamado divino para que ele construa a lendária arca.

A enorme quantidade de madeira e de resina resulta em uma peça de design espetacular que Aronofsky declarou seguir as especificações originais da Bíblia (“300 côvados – uma medida bem antiga que varia entre 45 e 50 centímetros – de comprimento, 50 de largura e 30 de altura”). Palmas para o realismo, eu acho. E também para as, às vezes verdes, às vezes queimadas, paisagens – lindamente fotografadas por Matthew Libatique na Islândia e ao norte de Nova York – que entregam um retrato vivo da Terra antes do Dilúvio.

No entanto, as más decisões ganham das boas: começando pelas pedras Transformers, criaturas intituladas de “Vigilantes” que falam nas vozes cavernosas de Frank Langella, Mark Margolis e Nick Nolte. Eles deveriam ser representações fantasiosas da raça dos Anjos Caídos conhecida como Nefilim, mas parecem mais rejeições de uma superprodução de Peter Jackson que estão lá apenas para agradar a garotada.

Aronofsky se prova muito fraco nas cenas de batalha, deixando o impacto da ação nas costas da dramática trilha sonora de Clint Mansell. Também há muito melodrama entre Noé e sua família – mais precisamente na bobagem que é a busca de seu filho Ham por uma parceira –, assim como na atuação exagerada de Ray Winstone como o vilão Tubal-cain.

A linguagem bombástica neutraliza os elementos religiosos mais arriscados, tirando uma sequência que dá um visual lindo e provocador aos sete dias da Criação, feita em um stop motion acelerado. É ali que Aronofsky lança uma polêmica que pode ser sua única salvação, apresentando uma criação do universo que não nega nem a Evolução, nem a mão de um ser superior, que vai, com certeza, irritar muitos defensores dos dois lados da discussão. Mas é uma solitária exceção em um filme que mostra uma história pomposa, e não poética. Já quando chega o momento em que a pomba com o ramo de oliveira no bico passa pela tela, percebemos que somos testemunhas do naufrágio de um blockbuster. 


Escrito por Keith Uhlich

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Duração 138 minutes

País de origem USA

Ano de produção 2014

Classificação Not available

Estreia 3 Abr 2014

Diretor Darren Aronofsky

Elenco Russell Crowe, Anthony Hopkins, Jennifer Connelly, Emma Watson

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