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A Dama de Ferro (The Iron Lady)

A Dama de Ferro (The Iron Lady)

Diretor Phyllida Lloyd

Elenco Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant

Se o fotógrafo que adora sósias de celebridades Alison Jackson se juntasse ao escritor britânico Gyles Brandreth para fazer um musical sobre a vida de Margaret Thatcher, talvez o produto final ficasse parecido com A Dama de Ferro, uma biografia barulhenta e espalhafatosa da primeira mulher a ser primeira-ministra da Grã-Bretanha. Escrito por Abi Morgan (da série de TV The Hour) e dirigido por Phyllida Lloyd (do musical Mamma Mia!), o filme começou a ser criticado por cinéfilos e jornalistas bem antes da estreia. O longa promete gerar polêmica, com críticas raivosas e defesas sinceras, assim que estrear. Nesse sentido, é possível admirar A Dama de Ferro: topo qualquer coisa que relacione o cinema com o real e desperte as pessoas para o diálogo entre ambos.

Mas, após assistir ao filme, é difícil não enxergá-lo como acrítico e, talvez pior do que isso, drasticamente fraco e nada ousado. Sim, a presença física e a voz de Meryl Streep são dignas de louvor, mas a sequência abusa de elogios clichês à ex-primeira-ministra e dá um ar de diversão à coisa toda. Isso pode até funcionar em um musical do Abba. Mas, quando se trata da vida de uma das líderes mais controversas do mundo, não importa sua opinião política sobre ela, é insultante.

Um dos problemas é que o diretor tenta fazer caber tudo e revive poucas coisas com alguma profundidade. A Dama de Ferro se passa no presente, quando Thatcher, agora com 86 anos, se arrasta em sua casa londrina. Seu marido, Denis (Jim Broadbent), está morto, mas aparece para ela como uma visão, o que garante alguém para compartilhar seus pensamentos. Trata-se de um recurso tão desgastado como o de usar filmes caseiros para voltar ao tempo dos feriados com as crianças. Os flashbacks são a força motriz do filme e vemos fragmentos, desde o trabalho na loja do pai e a derrota na primeira eleição, em 1950, à decisão de defender as Ilhas Malvinas em 1982 e as discussões, já como primeira-ministra.

Peter Morgan mostrou em A Rainha que um escritor pode ter a ousadia de transformar a reconstrução histórica em opinião e de adotar o território factual como uma arena para ideias. Ao dramatizar criativamente a vida privada de uma figura pública, um romancista pode sugerir uma versão da verdade e enfrentar uma boa briga. Lembre-se da cena de A Rainha (sobre Elizabeth II) em que a monarca se depara com um veado na Escócia. Não há prova de que isso tenha acontecido, o que nos faz pensar melhor no assunto.

Não há nenhuma cena assim, pelo menos não nos flashbacks de sua vida como mulher política. Em vez disso, encontramos uma série dos ‘maiores sucessos’ de sua carreira. O roteiro de Abi Morgan teme fazer suposições que vão além da Thatcher de hoje. Podemos vê-la interagindo com a filha, a empregada e o fantasma do marido, mas pouco de importante é discutido ou sugerido. Ficamos apenas com duas questões, que não interessam a (quase) ninguém: ela teria perdido a razão? E aguentaria jogar as roupas do marido fora?

Um bom drama oferece uma visão alternativa do mundo ou uma maneira diferente de ver o que está à nossa frente. Este apenas nos lembra o que já sabemos. Isto é, a não ser que não saibamos nada ou muito pouco sobre Thatcher. Qualquer um que tenha familiaridade com os telejornais diários de 1979 a 1990, ou que leia jornais, talvez sinta que o filme subestima o espectador.

A atitude em relação à história também é negligente. As memórias aparecem em ordem cronológica, mas uma das montagens mistura cenas das manifestações de mineiros em 1984 com os tumultos de Brixton em 1981. Talvez a questão seja que tudo isso desse no mesmo para Maggie – mas dá para suspeitar que os realizadores do filme acharam a diferença entre um tumulto e uma manifestação insignificante quando se trata de provocar uma comoção visual.

E quanto à política? Garantimos: não vai irritar os admiradores de Thatcher. Genericamente, ela é retratada como uma guerreira progressista na luta de classes e de gêneros do final do século 20. “Nunca corra com a multidão, Margaret. Siga o próprio caminho”, diz seu pai, e logo a vemos lutando por espaço em salas esfumaçadas, dominadas pelos homens. Sem dúvida, haverá muita gente que ficará ofendida com a ideia de Thatcher como uma heroína, mas pelo menos é uma provocação. O sentimento é de que uma ótima oportunidade foi desperdiçada.

Estreia em 17 de fevereiro

Escrito por Dave Calhoun
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