Morre Carlos Reichenbach

André de Leones fala sobre o cineasta radicado em São Paulo que se destacou na Boca do Lixo paulistana

Divulgação
O cineasta Carlos Reichenbach foi, acima de tudo, um grande cinéfilo


O cineasta Carlos Reichenbach faleceu ontem (14 de junho de 2012), dia em que completou 67 anos de idade, em decorrência de uma parada cardíaca, por volta das 17h30, em São Paulo.



Em qualquer necrológio que se faça de Carlos Reichenbach deve constar que, além de diretor, produtor, fotógrafo e roteirista, ele foi um tremendo cinéfilo. Foi, aliás, acompanhando o seu blog Olhos Livres nos diversos endereços que teve (ele sempre estourava o limite de upload de imagens e precisava mudar de endereço; ultimamente, estava em olhoslivres2.zip.net) que conheci gênios como Valerio Zurlini e Alejandro Jodorowsky.

Carlão, como era conhecido, nasceu em Porto Alegre, mas tinha apenas poucos meses de idade quando seus pais vieram a São Paulo. Estudou cinema na São Luiz, onde foi aluno de ninguém menos que Luís Sergio Person. Depois, foi para a Boca do Lixo paulistana. Seu primeiro trabalho como diretor em longas foi o episódio Alice, de As Libertinas (1968). Reichenbach já exercitava um estilo que trafegava livremente entre alta e baixa culturas. Ou seja, tínhamos, sim, uma pornochanchada, mas uma pornochanchada na qual o diretor, evocando Godard e Jonas Mekas, pediu ao fotógrafo Waldemar Lima (o mesmo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha) que não usasse filtros, saturasse as imagens, tremesse a câmera nas panorâmicas e fizesse movimentos alucinados.

Seu primeiro longa-metragem solo foi Corrida em Busca do Amor (1971), inspirado em Roger Corman e nos filmes da “turma da praia”, em que parodiava os clichês do cinemão hollywoodiano e, em plena Ditadura Militar, celebrava a desobediência civil. Ali, já estavam presentes as principais características dos filmes de Reichenbach: mistura heterodoxa de gêneros, fragmentação narrativa, uso constante e às vezes inusitado da música e um gosto saudabilíssimo pela subversão da gramática cinematográfica.

Essas e outras características, aliadas a observações agudas sobre a nossa realidade social (e sem jamais incorrer em maniqueísmos ideológicos), estariam presentes em alguns de seus melhores filmes: Lilian M., Relatório Confidencial, Amor, Palavra Prostituta, Anjos do Arrabalde, Alma Corsária, Dois Córregos e Garotas do ABC.

Carlos Reichenbach faleceu ontem. Tinha apenas 67 anos de idade.

Tags: 

Mais sobre Morre Carlos Reichenbach

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus
 

© 2011 - 2016 Time Out Group Ltd. All rights reserved. All material on this site is © Time Out.

powered by