Time Out São Paulo

No

No

Estreia 21 Dez 2012

Diretor Pablo Larraín

Elenco Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers


Uma revolução pode até não ser televisionada, mas isso não significa que uma grande campanha na TV não ajude a semeá-la entre as massas. Esta é a base de No, do cineasta chileno Pablo Larraín, que foi o grande destaque da Semana dos Realizadores em Cannes, no primeiro semestre deste ano. De tudo o que vimos no festival, o filme foi o que chegou mais perto de ser uma obra de arte (embora seu título tenha transformado as conversas de Cannes em piada: “Qual seu filme preferido até agora?” “No.” “Por que você não responde?” “Já respondi: No!” “Conta logo!”).

Terceira parte de uma trilogia sem título do cineasta sobre a era Pinochet, No é um drama baseado em fatos reais do referendo de 1988, que deu ao povo a oportunidade de tirar o general do poder. Os cidadãos tinham duas opções: o “sim” na cédula significava o voto pelo continuidade da ditadura, enquanto o “não” era um sinal de que os chilenos estavam prontos para a democracia. Apesar de Pinochet controlar a mídia, cada lado teve direito a 15 minutos na televisão durante um mês, até o dia do plebiscito: 25 de agosto.

É aí que entra René (Gael García Bernal), um bem-sucedido publicitário especializado em comerciais produzidos com sintetizadores, atores jovens e muitas mímicas. Um amigo comunista o convence a usar seu talento na campanha do “Não”. Já seu chefe (Alfredo Castro, que sempre está nos filmes de Larraín), fiel a Pinochet, contribui com a turma do “Sim”.
Enquanto um lado tenta mostrar o ditador como ‘o sonho americano’ em vez do ‘pesadelo latino-americano’, o outro usa um arco-íris como logomarca e muita cultura pop para vender a ideia de liberdade como um novo produto.

Comerciais e campanhas de difamação logo começam a aparecer (assim como ataques físicos ao contingente do “Não”), mas o regime de Pinochet sofre danos irremediáveis. René de repente se vê contribuindo, embora com relutância, com a História e confrontando-se com falhas morais de seu país e de si próprio.

Larraín tem explorado terrenos férteis com uma boa dose de arte e terror em sua filmografia. Ele se especializou em histórias sombrias sobre psicóticos culturalmente aceitos (no filme de humor negro Tony Manero) e a decadência social (em Post Mortem). Em No, ele está muito menos mordaz ao fazer paródias dos marqueteiros piegas da década de 1980. Mas não se trata de uma nostalgia, e sim de uma tentativa de retratar com exatidão o momento midiático chileno em que as correntes foram quebradas. Até mesmo a decisão de fazer uma filmagem de péssima qualidade (como os vídeos da época) parece estranhamente acertada.

A combinação do estilo retrô com publicitários machões levou muitos a fazerem comparações com a série de TV Mad Men, mas o filme vai além disso: é um exemplo pertinente de como a vitória obtida pelo marketing pode ser – ou, pelo menos, poderia ser – uma coisa boa.

Escrito por David Fear
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