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O Mestre

O Mestre

Estreia 25 Jan 2013

Diretor Paul Thomas Anderson

Elenco Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Joaquin Phoenix


O Mestre, de Paul Thomas Anderson, trata das origens e do fascínio da Cientologia com a mesma estranheza instigante e intensidade estimulante que o roteirista e diretor americano trouxe em seu último filme, Sangue Negro.

O Mestre é um conto sobre o poder corrompido e ilusões causadas pelo fanatismo. Nele, Anderson se mostra um cineasta cativante, capaz de surpreender e impressionar a cada cena.

Alguns comentários críticos sobre O Mestre tentaram distanciar seu ponto de vista da controversa religião, mas o longa é menos ambíguo: a organização retratada por Anderson pode até se chamar The Cause [A Causa] e seu líder, Lancaster Dodd (interpretado por um frenético Philip Seymour Hoffman, que concorre ao Oscar de melhor ator coadjuvante). Mas Dodd é claramente baseado em L. Ron Hubbard, criador da Cientologia, desde a aparência física e as teorias excêntricas até o fato de afirmar ser escritor, cientista e outras coisas mais.

Entretanto, dá para entender por que Anderson não quis se aprofundar na realidade. Seu interesse é tão psicológico quanto histórico. Ele cria um personagem, Freddie Quell (Joaquin Phoenix, indicado ao Oscar de melhor ator), para nos levar ao mundo de Dodd. Quell é um marinheiro obcecado pela bebida e por fantasias sexuais. Phoenix interpreta com uma intensidade alienadora; é imprevisível da primeira à última cena. É por meio dele que conhecemos Dodd, líder de um pequeno bando de seguidores a bordo de um navio que pega esse solitário aflito e aplica nele a metodologia The Cause.

O Mestre transcorre ao ritmo da música sóbria e excêntrica de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Os close-ups são impressionantes; as cenas mais longas são cheias de camadas, e nas mais criativas, com cores e detalhes brilhantemente reproduzidos, até parecem ser em 3D. Hoffman e Phoenix estão o máximo. Amy Adams, como a mulher de Dodd, também disputa o Oscar, de atriz coadjuvante.

Como descrição de uma religião, o filme parece um retrato de Jesus sob a perspectiva de um de seus discípulos. Descobrimos que Dodd é uma figura que gosta de diversão e poder, que tende à fúria extrema quando desafiado e que quer extrair verba e tempo de seus fiéis. Anderson pergunta: por que homens como Dodd e Quell ficam juntos? Do que precisam um do outro? Como um sustenta as fantasias do outro?

Em parte, suas respostas se revelam no encontro do carente com o poderoso. Mas também sugere motivos mais psicológicos e sexuais para tais alianças. Além disso, o filme é um retrato geral dos Estados Unidos em um período bem específico: oferece uma ideia forte e perturbadora de um mundo que virou de ponta cabeça por causa da guerra e de um caos que possibilita a ascensão de uma nova e estranha ordem chamada The Cause.

Escrito por Dave Calhoun
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