Time Out São Paulo

Pietá

Pietá

Estreia 15 Mar 2013

Diretor Kim Ki-duk


Após incursionar pelo documentário semiautobiográfico (em Arirang, vencedor do prêmio Um Certo Olhar, em Cannes) e por uma produção de um homem só (o minimalista Amen, em que foi responsável por cada detalhe, desde o roteiro, a direção e a câmera até a montagem e a produção) em 2011, Kim Ki-duk retorna à ficção, formato que lhe é mais familiar.

O cineasta coreano também usa a atração que sempre sentiu pela perversidade humana e pela alegoria religiosa neste novo trabalho, Pietá, que ganhou o Leão de Ouro no último Festival de Veneza. O fato de ter batido O Mestre pode se dever, pelo menos parcialmente, às regras da competição, que proibia o filme de Paul Thomas Anderson de ganhar mais de dois prêmios principais, mas seria errado dizer que Pietá não teve mérito. Utilizando o tema recorrente da arte cristã (que constitui-se no retrato de Maria segurando o corpo de Cristo) – embora não bem do jeito que seria de se esperar –, essa fábula brutal gira em torno de Gang-do (Lee Jung-jin), um sádico cobrador de dívidas de 30 anos de idade que costuma aleijar os clientes devedores em uma área industrial decadente para pegar os benefícios do seguro, e de Mi-seon (Cho Min-soo), uma enigmática mulher de meia idade que um dia lhe aparece, afirmando ser a mãe que o abandonou após o parto. Basta dizer que nada na crescente relação dos dois é o que parece e o processo de ligação entre eles envolve vários tipos de agressões físicas e sexuais (bela forma de testar se alguém é de fato sua mãe).

Conforme Gang-do se aproxima da mulher e desenvolve compaixão por um ser humano, imaginamos que, pela primeira vez, ele começará a se preocupar com o risco de possíveis vinganças por parte de suas vítimas. Embora no início possa parecer que o filme é uma galeria de personagens levemente desestruturados que habitam um mundo marginalizado, quase abstrato, cheio de pobreza e sofrimento, Pietá, com seu terceiro ato revelador, acaba se transformando em uma história muito mais complexa de vingança e redenção, na qual a maior parte dos personagens – incluindo os das cenas mais curtas, tais como os devedores e seus familiares – flertam com os dilemas morais que praticamente todo mundo enfrenta. A ironia que envolve esses personagens perturbados é tão mortal que, às vezes, é quase cômica. 
 

Escrito por Edmund Lee
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