Time Out São Paulo

Os Amantes Passageiros

Os Amantes Passageiros

Diretor Pedro Almodóvar

Elenco Javier Cámara, Carlos Areces, Raúl Arévalo


Um teste básico da autoria de um diretor é ver se ele é capaz de fazer em um espaço pequeno e fechado o que costuma fazer com mais liberdade cênica. No Tempo das Diligências e Um Barco e Nove Destinos são, sem dúvida, os grandes filmes de John Ford e Alfred Hitchcock, apesar de se passarem quase todo o tempo em uma carroça e em um barco. Alguns cineastas prosperam nesse modelo, outros parecem inapropriados a ele: Repulsa ao Sexo, de Roman Polanski, é, em muitos aspectos, sua obra-prima, enquanto que um dos apelos de 127 Horas foi ver como o dinâmico Danny Boyle contaria a história de um homem preso sob uma rocha.

A maior parte de Os Amantes Passageiros, de Pedro Almodóvar, acontece dentro de um avião comercial, e sem dúvida não poderia ter sido feito por outra pessoa além do cineasta espanhol. Humor e drama de alto nível, segredos de família e mentiras podres, o uso da narrativa e o abuso do subconsciente, guinadas sobrenaturais e reviravoltas melodramáticas – as questões que são sua marca estão todas a bordo e prontas para decolar.

Uma declaração inicial nega qualquer ligação entre o filme e a realidade, mas, ainda assim, Os Amantes Passageiros é uma espécie de farsa excêntrica da situação do país. A classe executiva fervilha com um punhado de tramas de ressonância sócio-política, girando em torno de uma celebridade (Cecilia Roth), um banqueiro trapaceiro (José Luis Torrijo), um mexicano misterioso (José María Yazpik) e uma virgem paranormal (Lola Dueñas). A classe econômica está às traças. O voo tem problemas. A tripulação da cabine (Javier Cámara, Carlos Areces, Raúl Arévalo) dedica-se à distração, uma folia regada a bebidas, drogas, boquetes e dublagens. Há um rompante de dança, outro de sexo, muita tequila. É uma diversão desenfreada, mesmo que nem sempre fique claro aonde é que vai dar.

Como em qualquer filme de Almodóvar, as ligações com seus filmes anteriores são muitas: podemos pensar no gazpacho de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, na ética contestável à beira da cama de Fale com Ela, nos sequestradores terroristas de Labirinto de Paixões. De fato, com essa sátira escancarada e esse tom de pastelão, Os Amantes Passageiros é o mais perto que Almodóvar chegou, em anos, de suas brincadeiras iniciais, como Labirinto, Pepi, Luci, Bom e O Que Fiz para Merecer Isto?. O contexto, é claro, mudou da libertação pós-Franco para a ansiedade pós-crise na Espanha: depois de sobreviver a uma queda, os passageiros agora encaram
mais uma. O conselho do cineasta é tentar ser honesto e fazer sexo. Apertem os cintos – será uma noite de turbulências. 


Escrito por Ben Walters
Compartilhe

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus