Time Out São Paulo

36ª Mostra Internacional de Cinema

Com a chegada da 36ª Mostra Internacional de Cinema, mergulhamos na cultura da sétima arte para descobrir os destaques da programação

Este evento terminou

36ª Mostra Internacional de Cinema

Data 19 Out 2012-02 Nov 2012

Horário de abertura A programação será divulgada em breve.


A cinefilia é um vício muito bem alimentado em São Paulo. Prova disso é a Mostra Internacional de Cinema chegar à sua 36ª edição. Acompanhá-la equivale a checar a pulsação do cinema mundial. Espalhada por 20 salas de exibição, dá ao cinéfilo a deliciosa impressão de estar cercado de cinema por todos os lados (veja também a exposição sobre cartazes de filmes icônicos dos séculos 20 e 21).

Criada pelo crítico Leon Cakoff quando o Brasil ainda sofria sob a ditadura militar, a Mostra sobreviveu aos solavancos da história recente do país, ao falecimento de seu idealizador em 2011 e permanece como um espaço dos mais nobres.

Basta verificarmos a programação deste ano para constatarmos sua importância: cineastas consagrados como Marco Bellocchio (Bella Addormentata), Abbas Kiarostami (Like Someone in Love) e Alain Resnais (Vous n’avez encore rien vu) convivem com diretores que já conquistaram seu espaço, como Olivier Assayas (Après Mai) e Cristian Mungiu (Dupa dealuri), e outros que caminham a passos largos nesse sentido, como Ben Affleck (Argo) e Sarah Polley (Take this Waltz).

Assayas é um velho conhecido dos frequentadores da Mostra, autor de filmes como Demonlover, Clean e da minissérie Carlos. Seu novo Après Mai repousa nos anos pós-1968, traçando um retrato do início da ressaca daquele mês de maio.

Polley fez carreira como atriz antes de passar à direção, atuando em filmes de Atom Egoyan e Terry Gilliam. Em 2006, realizou o lancinante Longe Dela, sobre um casamento erodido pelo Alzheimer. Agora, com Take this Waltz, alivia a mão com uma comédia dramática em que uma mulher se vê dividida entre o marido e um vizinho artista.

Outro destaque é A Royal Affair (En kongelig affaere), filme de época dirigido pelo dinamarquês Nikolaj Arcel (corroteirista da versão escandinava de Os Homens que Não Amavam as Mulheres) sobre a agitada corte do louco rei Christian VII. Ali, nos fervores do século 18, a rainha Caroline Mathilde (irmã do rei britânico George III) se envolve com o médico real – e partidário dos ideais iluministas – Johann Struensee.

A Mostra também estimula a aventura de encarar filmes aleatoriamente, de cineastas desconhecidos e países distantes. É deitar os olhos no mundo e vê-lo recriado cinematograficamente.


Brasilwood


'Chamada a Cobrar' apresenta o pior pesadelo de uma mãe 


















A exemplo do que acontece com os realizadores estrangeiros, também há espaço, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tanto para cineastas brasileiros com alguma rodagem como para aqueles ainda em início de carreira.

Anna Muylaert, diretora dos bons Durval Discos e É Proibido Fumar, lança Chamada a Cobrar, em que uma paulistana de classe média alta cai no golpe do falso sequestro e dirige até o Rio de Janeiro para “resgatar” a filha. Ela é guiada no trajeto pela voz do suposto sequestrador. Por sua vez, Marcelo Gomes (de Cinema, Aspirinas e Urubus) nos leva a Recife com Era Uma Vez Eu, Verônica, sobre o cotidiano de uma jovem recém-formada em medicina que se entrega a uma autoavaliação.

Uma boa pedida é procurar pelos filmes nacionais passados na cidade de São Paulo. Afinal de contas, e parafraseando a máxima de Tolstói, uma boa maneira de atingir a universalidade é cantar a própria aldeia. Comecemos por um estreante: Francisco Garcia nos oferece Cores, filme em preto e branco em que três jovens amigos vagam pela metrópole. O tom meio fantasmagórico instiga uma discussão sobre a virtualidade e o consumo nos dias de hoje. A obra foi selecionada para o Festival de San Sebastian, na Espanha.

O outro lado da moeda pode ser visto no documentário Sinfonia de um Homem Só, de Cristiano Burlan. Por meio de uma estrutura musical (prelúdio, adágio e posfácio), temos a trajetória de um homem que vem do interior trabalhar como operário da construção civil em São Paulo. Continuamos ao nível do asfalto em Super Nada, de Rubens Rewald, no qual Guto, um artista de rua e aspirante a ator, fã de um comediante de TV (interpretado por Jair Rodrigues), tenta fazer com que sua carreira decole.

Se o espectador tem interesse pelo cinema pregresso, mas ainda atual, a programação inclui dois filmes importantes. O primeiro é o clássico do Cinema Novo Os Fuzis, de Ruy Guerra. O filme é uma das melhores coisas já produzidas por aqui. O outro é Alma Corsária, obra dentre as mais expressivas do recentemente falecido Carlos Reichenbach, na qual São Paulo é presença marcante.
 


Retrospectivas


'V Tumane', por Sergei Loznitsa, é um dos destaques da Mostra


















Este ano, a Mostra olha para o leste com a retrospectiva de Andrei Tarkovski que incluirá, além dos filmes do próprio diretor de Solaris e Stalker, documentários e homenagens à sua obra, como a Elegia Moscovita, de Aleksandr Sokurov, e Une Journée d’Andrei Arsenevitch, de Chris Marker.

Outra digna de atenção é a de Sergei Loznitsa. Com vários documentários e dois poderosos filmes de ficção no currículo, o bielorrusso dá conta de toda a experiência de vida russa, no passado e no presente, pelo filtro da violência. Podemos observar isso em Minha Felicidade e no recente V Tumane (In the Fog), agraciado em Cannes 2012 com o prêmio FIPRESCI, atribuído pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, mas também em documentários como Blokada. Neste, o espectador é exposto ao interminável cerco nazista a Leningrado em um documentário que prescinde de narração e letreiros. Tudo o que temos são imagens da época e um trabalho sonoro que nos enterra ali, no gélido cotidiano de uma cidade sitiada por bárbaros.

A programação completa será divulgada em breve em mostra.org 

Escrito por André de Leones
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