Time Out São Paulo

It: A Coisa – crítica do filme

Nova adaptação da obra de Stephen King falha no conceito do menos é mais.

A obra do escritor americano Sephen King gerou uns trocentos filmes. Alguns inesquecíveis, como O Iluminado (1980), Carrie, a Estranha (1976), A Hora da Zona Morta (1983), Conta Comigo (1986) e Louca Obsessão (1990), por exemplo. Outros, nem tanto. It: A Coisa, minissérie/telefilme de 1990 está em uma das prateleiras mais baixas dessa estante cinéfila. Porém, o palhaço Pennywise é um dos monstros mais marcantes da cultura pop. E, talvez por isso, a Warner resolveu fazer um remake à altura do mestre do terror.

Mas Andrés “Andy” Muschietti (diretor do ótimo curta Mamá [2008] e de sua versão longa não tão bem sucedida, de 2013) não é nenhum Stanley Kubrick, Brian De Palma ou David Cronenberg, só para citar alguns dos cineastas autores dos filmes citados acima. É visível seu apuro técnico, mas ainda lhe falta bagagem. Todo grande mestre sabe que menos é mais, lição que o argentino ainda não captou.

It: A Coisa é um pot-pourri de clichês de filmes de terror. O palhaço assustador, a casa assustadora, o banheiro assustador, a caverna assustadora... Uma overdose de cenas – algumas bem inventivas é verdade – que pouco acrescentam à narrativa. Estão lá apenas por um propósito: assustar. Dito isso, há sequências realmente eficientes, mas a falta de um intervalo maior entre elas empapuça o espectador. No final, o sentimento é como a de uma depressão pós festinha infantil (do inferno!), em que você se empolgou e caiu matando nos salgadinhos e brigadeiros e saiu do lugar com uma bela dor de barriga.

Isso sem falar na quase ausência de uma história. Tudo é jogado sem muita construção. Conhecemos algumas características estereotipadas do grupo de crianças protagonistas e só. Nada sobre o que seria essa “coisa” e o motivo dela se materializar na figura do palhaço Pennywise. Se dá, por exemplo, muito mais importância às referências pop dos anos 1980 (década onde essa versão se passa), do que o medo real que esses personagens encaram em seu dia a dia, como o pai abusador, a mãe extremamente controladora, o bulying... É o efeito Stranger Things. Aliás, a busca pelo sucesso na carona da série é tão explícita, que um dos meninos do grupo, Richie Tozier, é interpretado por Finn Wolfhard, que também faz parte do casting infantil do seriado da Netflix.

É inegável que há cenas bem sacadas em It: A Coisa, mas a opção por ignorar as preliminares tira o tesão da coisa toda. A sensação que fica é a de que poderia ter sido bem melhor. No entanto, ainda há esperanças, pois, diferente de seu antecessor, o filme foi dividido em duas partes. Quem sabe na conclusão da trama, com os personagens já adultos, alguns desses problemas sejam resolvidos.

Escrito por Rafael Argemon
Compartilhe

Comentários dos leitores

blog comments powered by Disqus

Outras notícias recomendadas

A Forma da Água: crítica do filme

Os filmes da semana – 16/11/2017

11 anos do JazzNosFundos