Time Out São Paulo

Homens em Fúria

Edward Norton como um criminoso em busca da liberdade condicional

Um funcionário de escritório que inicia uma revolução subterrânea à base de socos. Um skinhead neonazista aprisionado em um legado de ódio. Uma mistura de caubói e sociopata moderno com graves delírios de grandeza. Um traficante preparando-se para um relaxamento na prisão depois dos acontecimentos de 11/9. Pode-se dizer, sem medo de errar, que Edward Norton não foge de papéis intensos – e muitas vezes desagradáveis. Com seu último filme, Homens em Fúria, o ator de 41 anos adiciona mais uma personagem controversa a seu currículo.

Gerald ‘Stone’ Creeson é um persuasivo criminoso; sua condicional depende de ele conseguir fazer com que o oficial responsável por seu caso, Jack (Robert De Niro), acredite que ele abraçou uma religião e está recuperado. Até aí, nada diferente de As Duas Faces de um Crime… mas a narrativa, dirigida por John Curran, sofre uma séria reviravolta quando o personagem de De Niro comete um deslize moral e Creeson vivencia o que parece ser uma verdadeira epifania. A Time Out conversou com Norton na véspera da estreia mundial do filme, no Festival de Toronto.

Como você se envolveu neste projeto?
Meu envolvimento se deu através de John [Curran]… quando nós dois estávamos trabalhando em O Despertar de uma Paixão (2006), ele falava sobre realizar um filme que realmente se debruçasse sobre o modo como os Estados Unidos se apresentam como um lugar religioso e moralista e, mesmo assim, fazem coisas que contradizem esse discurso. Ele ficava dizendo: "Você não acha que seria interessante examinar a contradição entre a forma pela qual indivíduos e culturas se apresentam e o que ocorre no interior deles… e como, caso não se reconciliem essas duas coisas, instala-se um senso de corrosão moral?".

Deve ter soado como uma grande coincidência quando surgiu o roteiro de Angus MacDonald…
Esses elementos não eram tão presentes no roteiro de Angus quando nós começamos. A história se passava, originalmente, no sul dos Estados Unidos, em vez de Detroit, e tinha outro desenvolvimento… assim que o John começou a trabalhar o roteiro, as questões passaram a ser: O que é um despertar espiritual? De que forma ele se dá? O que garante que seja autêntico? Eu não estava seguro quanto ao roteiro no começo, mas John me disse: ‘Pense nele como um ponto de partida para a inversão entre esses dois personagens – Stone e Jack’: meu personagem sobe e o de De Niro desce. Eu adorei a ideia de que este criminoso pareceria, a um primeiro olhar, merecer o prêmio de ‘pessoa mais improvável para viver uma séria transformação espiritual’...

Nunca temos certeza se esse cara tenta simplesmente deixar a prisão ou se está de fato experimentando um momento genuinamente religioso, não é?
Este não é um filme em que há uma grande virada no final, um grande ‘te peguei’, e sempre foi muito importante que mantivéssemos a ambiguidade. Eu quero que o público saia do cinema se perguntando: Isso era real? Ele começa fingindo e, em algum ponto, se torna real? Para mim, isso era muito mais interessante que um truque.

Um complexo estudo de caráter sobre dois homens experimentando altos e baixos espirituais é, de fato, mais interessante que um suspense típico – mas é desta segunda maneira que o filme está sendo anunciado, não?
Eu concordo plenamente com você, mas a Overture sabe muito bem o que é o filme. Eu acho que é difícil sair e dizer às pessoas: eis uma reflexão séria sobre assuntos sérios, vá ver! [Risadas] Mas eu acredito que há um público lá fora ávido por esse tipo de filme; ele precisa apenas ser cativado. Minha esperança é que as pessoas assistam e pensem ‘uau, eu fui esperando um suspense e eu recebi algo mais, algo muito mais interessante e profundo’.

Você participou de uma grande quantidade de filmes – A Última Noite, O Despertar de uma Paixão, Vale Proibido, A Outra História Americana e mesmo Clube da Luta – em que interpreta alguém buscando ativamente salvação e uma forma de paz interior. O que faz você gravitar em torno desses personagens?
Eu realmente não sei, é… Você já viu aquelas entrevistas de Joseph Campbell com Bill Moyers?

A série O Poder do Mito? 
Há uma fala de Campbell sobre a transparência: as narrativas realmente penetram nas pessoas quando elas conseguem olhar para seu interior e ver que a história é, na verdade, sobre elas próprias. Lembro-me de ter tido uma verdadeira epifania quando ouvi isso e, agora, se leio um roteiro que me agarra, quase sempre é por ele atingir um ponto nevrálgico em relação a como vivemos hoje. E isso geralmente envolve um personagem procurando algum tipo de salvação.
Além disso, a parte de mim que é genuinamente cinéfila fica empolgada com coisas assim – digamos, Vale Proibido –, porque lembro que os filmes que realmente significaram algo para mim, coisas como Taxi Driver e O Rei da Comédia, provocaram um choque e uma agitação. Esses são os filmes que quero fazer. É por isso que trabalhar com John Curran é algo único. Acho que ele não recebe crédito suficiente pelo que faz.

O que você quer dizer?
Quero dizer que ele é um cara que fez três filmes muito diferentes – Tentação (2004), O Despertar de uma Paixão e este – e está fazendo um bom trabalho. É difícil para mim ser totalmente objetivo, porque trabalho com ele. Mas há vezes em que paro para pensar e, puxa, este é um diretor que está tentando fazer filmes profundos e que lidem com grandes questões. Olho para algo como Homens em Fúria e penso: como ele conseguiu fazer esse filme hoje em dia? [Risos] Ninguém está conseguindo fazer esse tipo de filme hoje em dia, lidando com negação e fé e o que acontece quando você se encontra diante de um vazio interior... isso é profundo! É o território de um Ingmar Bergman.

Você acabou de compará-lo a Ingmar Bergman?
Acho que uma geração de críticos cresceu assistindo àqueles filmes do fim dos anos 1960, durante a era de Bergman e Fellini, além de outros grandes nomes – para esses críticos, tais filmes são o auge. Esses críticos ficam tão obcecados em canonizar aquele período que você é levado a pensar: será que essas pessoas reconheceriam quando cineastas contemporâneos fizessem uma grande obra, como aquelas, hoje em dia? Ou eles estão tão obcecados com sua erudição que simplesmente se recusam a ver? Acho que John tenta olhar para uma série de coisas ao mesmo tempo, e não recebe crédito suficiente por isso. [Pausa] E, sim, acho que Ingmar Bergman teria gostado deste filme. Ele teria sorrido ao olhar o que estamos tentando fazer aqui.? (David Frear) 

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Escrito por Time Out São Paulo editors
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