Time Out São Paulo

David Fincher

O diretor de Seven fala do "seu" Facebook

David Fincher pôs o dedo na ferida com A Rede Social – e ele sabe disso. Seu estudo genial, digno de Harvard, da gênese do Facebook funciona como a versão digital de O Grande Gatsby, com diálogos afiados que lembram uma comédia excêntrica dos anos 1940. É um filme bem diferente do que poderíamos esperar do homem por trás de Clube da Luta e O Curioso Caso de Benjamin Button, embora também seja centrado em um personagem – o pobre menino rico Mark Zuckerberg, co-fundador do Facebook –, que, apesar de todos os esforços, não consegue encontrar a felicidade construindo conexões humanas. A Time Out encontrou o diretor, de 48 anos em Paris, com a língua afiada em um intervalo das gravações de The Girl With a Dragon Tattoo, que está sendo rodado na Suécia.
Por que fazer um filme sobre Mark Zuckerberg?
Ele é fascinante, é obcecado, é esperto e é incrivelmente intolerante. Ninguém veio me perguntar "Você gosta de Mark Zuckerberg?". Eles disseram: "Nós temos um roteiro realmente muito bom, você quer ler?". Mas este é o Zuckerberg segundo o escritor Aaron Sorkin. É preciso ressaltar que eu não o conheci, apenas o observei de longe.
Você se identifica com ele?
Eu me identifico com quase todos os personagens do filme. Mas, como diretor, não acho que preciso me identificar com os personagens para poder fazer um filme.
Você acha um problema o fato de Zuckerberg não ser um personagem fácil de retratar?
Olha, muitas vezes as pessoas gostam de personagens que não precisam ser amados. Eu gosto desses personagens. Gosto de Jake LaMotta. Gosto de Travis Bickle. Gosto até de Rupert Pupkin. Gosto de personagens que não mudam, que não aprendem com seus erros. Charles Foster Kane era um menino de 8 anos mimado e insuportável com um trenó e se tornou um velho mimado e insuportável de 76 anos, que pode ter entendido tudo ou não em seus últimos momentos na Terra. Mas ele não muda. Se estou tentando tirar dinheiro de sua carteira, tenho que me preocupar se você vai gostar do que vê. Mas não estou. Gosto de pessoas que pensam "Foda-se!".
Você tentou entrar em contato com Mark Zuckerberg?
Quando me envolvi no projeto, o produtor Scott Rudin tinha tido as últimas negociações oficiais com o Facebook sem chegar a um acordo. Eles tinham feito uma lista com uma dúzia de "exigências" para poderem participar, e as duas primeiras eram: o filme não pode se passar em Harvard e vocês não podem chamar o site de Facebook. Por isso, Rudin, que não é tonto, disse que a conversa não precisava ir adiante: faremos um filme sobre o litígio, uma vez que os testemunhos fazem parte dos arquivos públicos e podemos tirar deles o drama que precisamos para fazer o filme.
Os representantes do Facebook foram convidados para ver o filme finalizado?
Um pessoal dos setores jurídico e de comunicação corporativa do Facebook viu o filme, mas não sei nenhum detalhe disso, pois eu não participei da exibição.
O que eles acharam?
Repito, eu não estava lá, mas a pessoa responsável por levar o filme para a sala de projeção me falou que eles estavam "apropriadamente apreensivos".
O filme foi lançado com uma estratégia muito boa de marketing.
Sim, mas meu problema com a campanha publicitária é que não podemos apenas dizer "Moleque, gênio, bilionário", porque é o tipo de coisa narcisista da MTV para atrair a garotada. Eu quis incluir "Judas" ou "traidor" porque é preciso ter uma palavra negativa. "Moleque, gênio, bilionário" é basicamente um boquete gigante.
O diálogo no começo do filme é extremamente rápido.
A primeira cena é para ensinar o público a assistir ao filme. Tenho um contrato para 2 horas e 19 minutos. Fiz uma edição final de 2 horas e 19 minutos. Por mais que consiga fazer o filme com esta duração, posso fazer o que eu bem entender. Tinha um roteiro de 166 páginas nas mãos, peguei as nove primeiras páginas, as entreguei a Aaron Sorkin, peguei um cronômetro e disse: "Fale". Ele obedeceu, foi engraçado, e isso vai prender as pessoas. E sabe o que mais? Não vai começar como estava escrito. Eles já vão começar a falar já com a porcaria do logo da Columbia Pictures na tela! Se eu pudesse ter colocado as primeiras falas no trailer, é o que teria feito. É hora de calar a boca: preste atenção, ou vai perder um monte do filme. 
Uma coisa que você já disse sobre A Rede Social é que teme que as pessoas possam vê-lo como superficial.
Ele com certeza é fácil, mas estamos falando de várias ideias grandes. Mas, sim, quando vi a primeira montagem, achei que estivesse um pouco superficial. Para mim, foi um remédio amargo, e seriam necessárias várias colheradas de açúcar para me ajudar a engolir. Mas eu não queria que o açúcar atrapalhasse a extrema tristeza do final do filme. Com Benjamin Button, a maior preocupação era que ficasse muito meloso. Acho que esta é versão certa para este filme. Mas gosto de me preocupar. Também fiquei preocupado que Seven e Clube da Luta não ficassem violentos o suficiente, então...
O filme tem sido comparado com grandes obras do cinema e da literatura, como Macbeth, O Grande Gastby, Cidadão Kane. Você sequer pensou em qualquer uma dessas referências pelas quais tem sido elogiado?
Alguém me perguntou qual foi minha intenção com este filme, e eu disse – de brincadeira – que eu queria fazer um Cidadão Kane de John Hughes. Estamos falando de um filme sobre o amadurecimento, que também é uma reflexão sobre os últimos quatro anos de uma pessoa de 26 anos. Este é o absurdo da era de informação. O que penso é que um dia na vida de uma baleia azul é diferente de um dia na vida de uma mosca de fruta.
Este é seu filme mais prolixo. Como um diretor conhecido por seu senso visual diferenciado, você se divertiu esculpindo palavras e atuações?
Sou responsável por duas coisas. Uma é se estou apresentando um comportamento verossímil, o que é totalmente subjetivo. A outra coisa é a posição da câmera: de onde verei esta pessoa? As pessoas acham que dirigir é como em The Big Circus: sim, 90% de dirigir é pegar o dinheiro e levar equipamento certo e as pessoas certas e departamentos para criar a sensação certa no contexto certo. No cinema, nós esculpimos o tempo, esculpimos o comportamento e esculpimos a luz. O público só consegue ver o que nós mostramos a ele, e, nesse momento, controlo tudo o que ouvem e veem. Espero que esses elementos se traduzam em sentimentos. Louis B. Mayer disse: "A genialidade da indústria cinematográfica é que a única coisa que o consumidor compra é uma memória". É disso que se trata a direção.

Escrito por Time Out São Paulo editors
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