Time Out São Paulo

Francis Ford Coppola

O cultuado cineasta conversa com a Time Out sobre suas escolhas ao dirigir 

Com Velha Juventude (2007) e Tetro, Francis Ford Coppola completou a jornada de uma vida, que o tirou de dentro da indústria e o levou à arte independente. Ele começou como coadjuvante na máquina de filmes B de Roger Corman, fazendo trabalhos com títulos como Dementia 13 (1963), mas foi o roteiro, premiado pelo Oscar, de Patton, Rebelde ou Herói? (1970) que o fez famoso. Contratado para escrever – e depois dirigir – O Poderoso Chefão (1972), Coppola misturou o realismo europeu com as emoções de Hollywood, e bateu recordes. A Conversação  (1974) veio a seguir, antes que O Poderoso Chefão II (1974) retirasse o resplendor do primeiro com um retrato da criminalidade em queda livre. Apocalypse Now (1979) foi a obra-prima, mas as rodagens épicas arruinaram o espírito de Coppola, enquanto o musical O Fundo do Coração (1982) arruinou sua conta bancária. 
Longas adolescentes como Vidas Sem Rumo, O Selvagem da Motocicleta (ambos de 1983) e Peggy Sue, Seu Passado a Espera (1986) o deixaram ocupado, mas O Poderoso Chefão III (1990) foi decepcionante. Então, ele mirou as grandes bilheterias com Drácula de Bram Stocker (1992), o aterrorizante Jack (1996) e a adaptação sem graça da obra de John Grisham, O Homem que Fazia Chover (1997), até que seu desgosto com a indústria o fez retroceder. Agora ele é o artista que queria ser: impenetrável, imprevisível, responsável apenas por si mesmo.
TO Você acha que o esforço físico de fazer filmes é um teste maior de paciência agora do que era, digamos, nos anos 1970?
FFC Em um filme com um tema que você adora e que o intriga, você tem energia ilimitada. É algo parecido com o que chamam de "vida de prateleira" de produtos alimentícios – alguns temas têm "vida de prateleira" longa, o que significa que você é constantemente renovado, enquanto outros se estragam rapidamente.
TO Você sente que seu estilo de direção mudou ao longo dos anos?
FFC Minha abordagem sempre combinou com o tema tratado. É por isso que, por exemplo, o estilo de O Poderoso Chefão é totalmente diferente do de Apocalypse Now. Mas, ultimamente, vejo que há um estilo que eu prefiro – um estilo em que a câmera não está sempre se movendo, e em que os cortes não são tão rápidos a ponto de você não saber exatamente o que viu.
TO Está feliz trabalhando por conta própria, longe da indústria do cinema?
FFC Moro perto de San Francisco, no lugar mais bonito da Terra, e me divirto de várias maneiras. Sim, adoro trabalhar, o que por enquanto significa pensar e ler e escrever, então é um sonho realizado. Sei que, se um filme está pronto para surgir de algo que escrevo, poderei fazê-lo sem pedir permissão a ninguém.
TO Se o roteiro ou a ideia certos aparecerem, você estaria aberto para trabalhar em Hollywood?
FFC Acho que não, apesar de ainda receber ofertas. Mas os temas e as limitações são muito estreitas.
TO Seus últimos dois filmes, Velha Juventude e Tetro, provocaram fortes reações. A opinião dos críticos é a que mais importa para você?
FFC Alguns críticos são estimulantes, pois o fazem perceber no que pode melhorar, e estes são valorizados.
TO Por que decidiu filmar Tetro em preto e branco?
FFC Senti que esse filme tinha a ver com O Selvagem da Motocicleta, e parecia melhor para a história, que eu considerei como sendo realismo poético, o que implicava em filmar em preto e branco.
TO Você chamou um ator bastante desconhecido (Alden Ehrenreich) para um dos protagonistas.  Você fica de olho em novos talentos?
FFC Amo cinema, mesmo que não participe mais do negócio profissional de cinema. Ainda adoro ver filmes que oferecem algo diferente, como O Desinformante, de Soderbergh, ou Um Homem Sério, dos irmãos Cohen, que são diferentes de tudo o que já vi antes.
TO Você consegue ver sua influência nos filmes de sua filha, Sofia?
FFC Sempre disse que as pessoas devem fazer filmes sobre sua visão pessoal das coisas, e posso enxergar isso no trabalho dela.
TO Você tem orgulho da obra dela?
FFC Sim, porque sua obra é tão pura, tão pessoal e tão Sofia.

Escrito por David Jenkins
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