Time Out São Paulo

Galã irritadinho

Cheio de si e um tanto ácido, ator e direitor reage (mal) às perguntas sobre Tudo pelo Poder

No dia 15 de março do ano 44 a.C., (data conhecida, no calendário romano, como “idos de março”, dia de brilhante lua cheia), Júlio César foi emboscado e golpeado 23 vezes por um grupo de senadores. O complô envolveu mais de 60 homens e está aí a origem da frase “cuidado com os idos de março”, na peça de Shakespeare sobre o imperador romano. Vem daí também a inspiração para o último filme de George Clooney, Tudo pelo Poder (Ides of March). O tema: política e traição.

O longa gira em torno das primárias democratas: Clooney, 50, é nosso César, um dos candidatos na disputa, e Ryan Gosling, 30, nosso jovem e tonto Brutus, membro da equipe do candidato, corrompido pelo poder que o cerca. Uma história cheia de escândalos, intrigas e decisões equivocadas (principalmente por parte do egocêntrico personagem interpretado por Gosling).

O filme é estelar: George Clooney é ator, diretor, produtor (ao lado de Leonardo DiCaprio) e coroteirista. O garoto de ouro Gosling conduz o staff e o elenco de apoio – incluindo Phillip Seymour Hoffman, em um papel inicialmente pensado para Brad Pitt – também é de peso. No total, reúne 13 indicações para o Oscar (e três estatuetas) e 23 menções para o Globo de Ouro (seis premiações).

Conversamos com os dois protagonistas sobre as filmagens, o poder, a política e a fama, temas tão intrinsecamente conectados. E, é claro, perguntamos a opinião de um a respeito do outro.

GEORGE

Você pode falar sobre George Clooney, o diretor?
Falar o quê? Não quero bagunçar a cabeça de ninguém, mas ele é basicamente o mesmo cara que George Clooney, o ator. Tenho a mesma altura, o mesmo cabelo, é quase tudo igual. Não sei o que você espera com essa pergunta, só posso dizer que tenho sorte de trabalhar com um excelente conjunto de atores, que enriquece o projeto. É esse o segredo de dirigir: trabalhar com pessoas realmente boas. Que tal, como resposta política?

O que você, como diretor, espera dos atores e como conseguiu reunir um elenco tão impressionante?
Bem, eu tinha fotos de alguns deles em posições comprometedoras, então eles tiveram de aceitar. Na verdade, fotos de alguns deles juntos, mas vou deixar você adivinhar o resto. Olha, eles gostaram do roteiro e queriam os papéis. Agora, esqueci a pergunta, fiquei perturbado ao lembrar das fotos.

Por que você quis Ryan Gosling no papel e o que achou de sua atuação?
Acho que ele joga pesado. Olha, é um papel difícil. Você precisa estar no olho do furacão e carregar o ponto de vista de todo mundo em seus ombros e isso é algo muito difícil de fazer. Requer um ator com inteligência, o que nem sempre encontro. Trabalhar com Ryan foi um prazer.

Nós assistimos ao filme e decidimos nunca mais votar. Qual é o objetivo?
Foi isso que eu tentei fazer. Como entretenimento é um filme e tanto, mas a mensagem é cínica: esmague o idealista. Bem, acho que você precisa se lembrar de que não são os filmes que estão na frente. Em geral, um longa demora dois anos para ficar pronto. Então, se a história reflete um pouco do cinismo que temos visto nos últimos tempos, provavelmente é bom. Não é ruim erguer um espelho e olhar para algumas coisas que estamos fazendo. Mas o filme não foi pensado para isso. Quero dizer, honestamente, nossa ideia era: não há uma só pessoa que nunca tenha tido de encarar certas questões morais. Todos nós já nos deparamos com uma ideia como “bem, se eu aceitar este trabalho, que é melhor, talvez eu ferre com meu chefe, de quem eu gosto”. Todo mundo  já tomou decisões morais que são melhores para si, ferindo outras pessoas.

Muita gente fala que o cinema é um negócio competitivo. Você já usou manobras, como alguns personagens do filme?
Não, nunca.

O que é mais difícil, dirigir ou namorar sob os holofotes?
Bem, isso é engraçado. Eu sabia que alguém faria isso [a pergunta]. Mas estou um pouco desapontado com o fato de ser você. Qual o seu nome?

Paul Chi.
Olha, acho ótimo você ter feito essa pergunta. Pode voltar e dizer para seu editor que você fez a pergunta. Parabéns.

Você moldou seu personagem em algum político americano específico?
Há tantas formas de se meter em enrascadas respondendo a uma pergunta dessas. Entende o que eu quero dizer? Não. As pessoas pensam que é sobre o [senador] John Edwards, mas o filme foi escrito muito antes de vir à tona. Não espelhamos o personagem em ninguém. Havia exemplos suficientes que podiam ser picados em pedacinhos e compostos da forma que quiséssemos.

RYAN   

O garoto de ouro fala sobre as peças pregadas por George, sobre Eva Mendes e como é ser o cara da vez.

Descreva o diretor George Clooney.
Bem, ele é muito específico e sabe exatamente o que quer. Não há muitas ambiguidades em suas decisões.

Você já perguntou a ele por que o escolheu para atuar?
Ele disse que me escolheu porque todo mundo recusou o papel! Mas, para mim, tudo bem.

Qual a diferença de ser dirigido por um diretor que é também ator?
Eu não achei muito diferente. Enquanto ele estava dirigindo, era capaz de separar até certo ponto, o que era interessante. Mas ele fez muita coisa: ele é coautor do roteiro, dirigiu, produziu e estrelou o filme. E ainda achava tempo para conferir a situação em Darfur no seu celular. Além de ficar pregando peças, umas 20, ao menos, ou dez por dia! Multitarefas, sabe como é.

Ele é famoso por pregar peças. Como você lidava com isso?
Você tem que estar alerta o tempo todo.

Ele pegou você?
Sim, pegou.

E você, o pegou?
Não, é impossível.

O que o pôster do filme representa para você? Os dois rostos, o seu personagem e o de George meio que se misturando... Talvez signifique que, no fim, não importa quem é de fato o presidente?
Não, é só o George Clooney tentando mostrar como ele é muito mais bonito do que eu!

Você confia na imprensa?
Não.

Qual a diferença de interpretar um personagem silencioso, como no filme de ação Drive, em relação a Tudo pelo Poder, em que você tem muitas falas?

Foram experiências diferentes e cada uma ofereceu algo diferente. Acho que tem uma coisa legal em não falar. Do tipo: você pode dizer mais ao falar menos. É bom ter espaço no filme e é muito mais raro poder trabalhar daquele jeito.

Qual seu próximo filme?
Estou trabalhando em The Gangster Squad, um filme de gângster que se passa nos anos 1950, com Sean Penn no papel principal, Mickey Cohen, Josh Brolin e Emma Stone. Um grande elenco.

Você parece trabalhar sem parar. Está em todo lugar, é o cara do momento. Como sua vida mudou com tanta atenção?
Estou cansado de mim mesmo! Mas parecia uma boa ideia na época. Quando fiz 30 anos, por aí, comecei a me sentir muito criativo, mais do que jamais fui antes, o que é bom, eu gosto disso.

Brad Pitt recentemente disse que você tem a carreira mais interessante...
Não disse, imagina! É a primeira vez que escuto isso! É uma grande honra o fato de alguém que você admira e acompanha durante anos gostar de você. Alguns dos filmes de Brad são o que me dão vontade de fazer filmes, sabe?

Qual a diferença entre atuar hoje e quando você começou?
Tinha uma lista de caras com os quais eu queria trabalhar, mas estou num ponto em que quero trabalhar com os mesmos. Tive muita sorte com Derek Cianfrance (Namorados para Sempre) e Nicholas Winding Refn (Drive). Acabo de terminar outro filme com Derek, chamado Beyond the Pines, e foi a melhor experiência da minha vida. É muito diferente de Namorados para Sempre. Bradley Cooper, as pessoas não vão acreditar em como ele é bom, e Eva Mendes, é dela a melhor performance que já pude ver de perto.

Você gravou um álbum dois anos atrás com sua banda, Dead Man’s Bones. Quais são suas preferências musicais?
Cresci ouvindo muita música dos anos 1950 e 60: Buddy Holly, Del Shannon, The Shangri Las… O que me fez gostar desse estilo. Eu ainda escuto bastante.

Finalmente, que carro você está dirigindo?
Ah, estou dirigindo meu carro de Drive!

Escrito por Paul Chi
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