Time Out São Paulo

Entrevista: Daniel Craig

O astro britânico Daniel Craig fala sobre a franquia 007 e seu personagem em Millenium , de David Fincher, como um jornalista falido

Daniel Craig está imitando um bufão sorridente para me explicar como se sai mal quando se trata de sorrir a pedidos e, por isso, é acusado de ser “mesquinho e mal-humorado” toda vez que é clicado inesperadamente por algum fotógrafo. Então, me oferece seu melhor sorriso forçado. E não fica bom. “Não sou desse tipo”, diz, rindo. “Então acham que estou mal-humorado o tempo todo.”

Pode-se dizer que, como James Bond, ele tem uma reputação a zelar. Aos 43 anos, Craig está gravando seu terceiro filme da franquia, Skyfall. Mas quando nos encontramos em um hotel no Soho, em Nova York – ele vive em Manhattan com sua mulher, Rachel Weisz –, o período era de calmaria. Estava em um intervalo entre as filmagens de Millenium: os Homens que Não Amavam as Mulheres e uma viagem a Londres, onde começaria a filmar 007 com o diretor Sam Mendes.

Millenium é o motivo de nosso encontro. Craig está vestido com seu uniforme de fora das telas: camiseta preta, jeans, tênis coloridos e um relógio grande. É evidente que ele andou malhando: ele confirma, dizendo que vai todos os dias à academia para se preparar para encarnar James Bond.

Quando fala do diretor David Fincher (de A Rede Social), ele é só elogios – Fincher, na esteira dos filmes baseados na trilogia Millennium, de Stieg Larsson, produziu sua versão do primeiro romance. Aqui, Craig é Mikael Blomkvist, o jornalista falido que se conecta com a problemática hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara) para investigar um serial killer. O filme foi o último de Craig antes de tirar o pó do smoking e voltar ao mundo de 007.

Você já disse, certa vez, que conversar com a imprensa é como ir ao dentista. Você pensa diferente, agora que interpretou um jornalista?

Ah, claro, agora eu entendo! (Risos.) Não tenho nenhum problema com jornalistas. Considero alguns deles meus amigos e alguns dos meus heróis são jornalistas, sou um grande fã de Robert Fisk. São grandes pessoas, às vezes malucas, preparadas para defender o que é certo. Sou como o cara do filme. O que gosto nele é o fato de ser um homem imperfeito, complexo, fraco e egoísta, envolvido em uma cruzada moral. Além de ele ter uma relação brilhante com sua garota, Lisbeth Salander, esse ser humano problemático e hiperinteligente. Em tese, os dois nunca poderiam ficar juntos.

Seu personagem é sueco, o filme se passa na Suécia, mas você fala inglês sem sotaque. No filme, algumas pessoas têm sotaque, outras não. Eu não tenho. A única coisa que importa, do meu ponto de vista, é que ninguém soe americano. Tentamos parecer europeus, na medida do possível. Estamos todos falando uma língua em comum, que por acaso é o inglês. Eu não queria que um sotaque atravessasse meu caminho. Salander não tem educação formal e fala a linguagem das ruas, isso é bem específico.

Você já tinha lido os livros antes?
Já. Se você for a um aeroporto, verá a variedade de pessoas que está lendo esse livro, foi assim que eu notei. Eu o via sempre na lista de bestsellers e não tinha ideia do que era, e você encontra gente de 14 a 80 anos lendo. É fenomenal.

Você não precisou de muito incentivo para trabalhar com o diretor David Fincher depois de A Rede Social.
Seu estilo visual estava lá, mas estava embutido no filme de uma forma que eu nunca tinha visto antes. Adoro todos os filmes, mas Clube da Luta ficou datado, porque o seu visual foi copiado por alguns comerciais. Isso acontece quando você faz algo vanguardista, você cria coisas novas no cinema, e tem gente que vai roubar essas ideias. Com A Rede Social, eu senti que ele amadureceu, ele sempre foi um grande cineasta, mas se tornou mais confiante a respeito da narrativa e das escolhas visuais, e combinou ambas de uma forma que nunca o vi fazer antes.

Você está prestes a começar a gravar o novo filme de James Bond. Há um sentimento do tipo “aqui vamos nós pelos próximos sete meses…”, por ser uma tarefa tão extensa?
Definitivamente há algo assim, mas estou realmente animado porque temos um bom roteiro. Era o fator decisivo para que eu aceitasse fazer Casino Royale, apesar resmungar. [Faz voz de mal-humorado:] “Não sei se quero fazer isso.” Pensei: “Merda, tenho que fazer isso”. E acho que este é ainda melhor. É uma história totalmente original. Li e achei que funciona muito bem.

Parece que o roteiro, às vezes, é deixado em segundo plano nas grandes produções.
Sim, e a gente jura que não vai se envolver com esse tipo de coisa, mas acaba acontecendo. Em Quantum, nos ferramos. Tínhamos o esqueleto de um roteiro e aí houve uma greve de roteiristas e não havia nada que pudéssemos fazer. Lá estava eu tentando reescrever as cenas.

Você teve de reescrever cenas?
Eu e o diretor (Marc Forster) éramos os únicos autorizados a fazer isso. Você não podia contratar nenhum escritor, mas o ator e o diretor podiam trabalhar juntos nas cenas. Estávamos de saco cheio! Conseguimos, mas foi por pouco.

Ainda assim, foi um impressionante sucesso comercial. Não foi um fracasso, nesse sentido.
Não, realmente. Graças a Deus, funcionou. Mas, para mim, do ponto de vista da satisfação pessoal, eu queria algo melhor da próxima vez. Isso é muito importante para mim.

Ter uma performance melhor?
Não, o filme inteiro. Se você vai fazer esse tipo de coisa, tem de fazer direito. Tem de fazer o melhor que pode. Quando você tem todo esse talento, todo mundo se esforçando para fazer o melhor possível, tem de conseguir. Porra, é um filme do James Bond! Você quer ouvir as pessoas dizendo “Uau!” Ter de respirar fundo, em um filme como esse, nunca é ruim.

Você tem alguma responsabilidade na escolha de Sam Mendes para dirigir o filme?
Sim, tenho. Ele é inglês, foi educado em Cambridge e é inteligente. Ele viveu com James Bond a vida toda, como eu. Crescemos exatamente na mesma época, e eu disse a ele: “Nós temos de fazer isso juntos, nós temos exatamente os mesmos pontos de referência, gostamos dos mesmos filmes de Bond e gostamos das mesmas coisas nesses filmes”. Nos sentamos e ficamos batendo papo por horas, falando sobre Viva e Deixe Morrer ou Moscou contra 007, e conversando sobre pequenas cenas. Foi assim que começamos a falar sobre isso e foi isso que tentamos colocar no roteiro. Ele tem trabalhado como louco para amarrar todas essas coisas juntas de uma forma que faça sentido, no estilo de Bond.

Amei o último de Sam Mendes, Distante Nós Vamos, o mais independente até agora.
Sim, é verdade, e agora ele está fazendo um filme de US$ 200 milhões do James Bond. Ele é obsessivo-compulsivo, no melhor sentido possível. Todos os diretores são, David Fincher, inclusive. Todos eles são absolutamente obsessivos e tudo o que querem é que fique perfeito. Em um filme como esse, você precisa disso. Talvez eu não devo chamá-lo de obsessivo-compulsivo, é uma piada, mas você precisa de alguém com muitas cabeças diferentes – da produção, direção, dos efeitos especiais, da publicidade. Mais do que em qualquer outro filme, você precisa de alguém que leve tudo isso adiante, e ele consegue, ele é um gerente, um grande gerente, e uma das habilidades necessárias em um filme de James Bond é administrar um grupo grande de pessoas, dizendo: “Ok, faça isso, isso precisa ser feito e eu vou fazer isso”.

Parece que você está se envolvendo cada vez mais com o trabalho por trás das câmeras.
Desde o começo, falei para a Barbara [Broccoli] e Michael [Wilson, os produtores e guardiões da franquia Bond]: “Se vocês me derem essa responsabilidade, só posso entrar nesse set e fingir ser James Bond”. Mas eles me autorizaram a me envolver mais ainda. As coisas caminharam naturalmente. Não quero interferir no trabalho dos outros, só quero levar as coisas adiante. Nós tivemos a chance de contratar pessoas brilhantes. Fizemos o melhor que podíamos, porque colocamos as pessoas certas no trabalho. Ache a pessoa mais talentosa que você conseguir, dê a ela um bom tempo e faça o melhor que puder. Agora estou parecendo uma merda de um político!

Quando aceitou ser Bond, você se preocupou com o fato de se tornar uma celebridade, um alvo dos tablóides?
Em alguns aspectos é inevitável, você não pode impedir. Em outros aspectos, eu continuo lutando contra isso. Não posso entrar em guerra com os paparazzi. O Daily Mail adora dizer [com voz lamuriosa]: “Ele nunca sorri”. Claro, porque eu sei que vocês estão tirando fotos de mim, é por isso que eu não sorrio. O Daily Mail vem à minha cabeça toda vez que vejo uma câmera. Desafio você a sorrir. Mas entendo como é, você não pode se irritar. Não há sentido em se irritar. Você precisa viver a sua vida. Sei que não sou esse tipo de gente. Nunca vou chegar a um aeroporto, depois de um voo de 12 horas, e dizer: “Oi, pessoal, é tão bom ver vocês!” Eu não posso fazer isso. Você tem que viver a vida e aproveitar. E esse é um grande momento, estou representando James Bond. Isso é o que me dá segurança, estou me divertindo muito com isso, e as pessoas acham que estou mal-humorado o tempo inteiro.

Você não tem medo de ficar preso para sempre à figura do Bond?
Analisei tudo, e a única razão para não aceitar o trabalho seria medo. O medo de perder todo o resto. E você não pode deixar de fazer algo só porque está com medo. Bem, você até pode, em se tratando de pular de um penhasco ou algo parecido, mas ficar com medo de perder algo porque eu iria atuar como James Bond é meio sem sentido. Foi assim que me convenci. Pensei: mesmo que dê errado, com sorte eu ganho dinheiro suficiente para viver em uma ilha quando ficar velho, e pegar um bom bronzeado! E tomando uns coquetéis à noite. O que parece muito bom, para dizer a verdade.

Você realmente abandonou sua casa em Chester aos 16 anos para entrar no National Youth Theatre, em Londres?
Deixei Chester em 1985, quando estava o mais deprimido possível. Morei no norte de Londres, no oeste, dormia de favor até as pessoas me expulsarem. Nós não tínhamos muito dinheiro, mas minha mãe me arranjava alguns trocados, e havia pessoas que se importavam comigo. Consegui me virar. Só Deus sabe como, é horrível, na verdade. Minha mãe me deu um empurrão. A escola tinha falhado. Não restava nada a fazer. Eu queria atuar e ela sabia que não havia nada acontecendo em Liverpool e que eu tinha de ir para Londres.

Você luta contra o lado mais fútil do cinema, em que se espera que os atores sejam belos?
Eu e um amigo próximo chamamos isso de “agir como  modelo”. Não me considero particularmente bom nisso. Mas você acaba tendo de fazer isso algumas vezes no cinema. [Faz uma expressão sedutora, mão no queixo e aquele olhar.] Algumas pessoas são ótimas nisso. E quando você vê isso, pensa, “porra, isso é o que um modelo faria, o que você está fazendo?” Mas faz parte do processo. Isso é o que gosto no David Fincher também. Ele pode dizer “ponha a mão no queixo”, e você sabe que ele está reparando o ângulo, a iluminação. Se você estiver muito consciente de si mesmo, acho que dará errado, realmente. Se minhas orelhas não aparecerem demais, já me dou por satisfeito.

Escrito por Dave Calhoun
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