Time Out São Paulo

Só as mães são infelizes

Tilda Swinton tem uma relação maternal cheia de rancor no filme Precisamos falar sobre o Kevin

Caminhar pela região londrina de West End com a atriz britânica Tilda Swinton é quase como ser atingido por um vendaval. Seu passo é ligeiro e suave, e suas ideias surgem rapidamente, mesmo quando o assunto é permeado por temas delicados como famílias disfuncionais – em particular, sobre aquela representada no filme britânico Precisamos Falar sobre o Kevin. No longa, Swinton interpreta Eva, uma mãe cujo filho cometeu uma chacina na escola. “Eles estão apenas fingindo, praticamente nada do que falam à mesa do jantar vai além de idiotices”, diz ela. “Seja o ‘e aí, cara’ do pai, seja o ressentimento da mãe, é tudo encenação. Há uma cena no livro, que não está no filme, em que a mãe pergunta a Kevin quando ele está preso: ‘Por que você não me matou?’. E ele responde: ‘Quando você está fazendo um show, não pode atirar no público’.”

Por causa do tema delicado da nossa conversa – e, em parte, devido à reputação de Swinton – me surpreendo com a sua simpatia. À medida que caminhamos por Chinatown, em direção à Leicester Square, ela só deixou de ser afável nas ocasiões em que cometi algum erro. Confundi ‘autoritarismo’ com ‘autoridade’ para descrever um aspecto da maternidade e ela me atacou instantaneamente: “Por acaso me candidatei a ser autoritária? ‘Autoridade’ e ‘autoritarismo’ não são coisas totalmente diferentes?”.

A capacidade de articulação e a inteligência apurada não surpreendem. Aos 50 anos, Swinton construiu uma reputação de atriz intelectualmente destemida e emocionalmente versátil. Trabalhou com cineastas tão diferentes quanto Derek Jarman e George Clooney, Sally Potter e os irmãos Coen. Foi deslumbrante como a Feiticeira Branca, em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e dormiu durante uma semana no interior de uma caixa de vidro, em uma performance na Serpentine Gallery. Quando assistimos a alguns dos seus principais personagens no cinema, fica claro como ela é capaz de expressar uma enorme quantidade de emoções sem falar muito. Por exemplo, na abertura de Orlando, quando transmite a ingenuidade de um jovem de olhos salientes prestes a conhecer Elizabeth I. Ou a cena em Caravaggio em que – com o rosto imundo e usando um lenço asqueroso nos cabelos – ela seduz Ranuccio, interpretado por Sean Bean, falando pouco, mas expressando uma sensualidade sem esforços.

Quando digo a Swinton que me senti ‘violentada’ pelo filme, ela parece triunfante. E não é para menos: a sequência, assim como o livro que a inspirou, procura explorar os aspectos sinistros e os silêncios em qualquer relação pai e filho. “Me lembro de quando tive meus filhos (gêmeos, Xavier e Honor). Eu sabia que gostava muito deles, mais do que isso: sabia que realmente os amava. Mas, da mesma forma, tinha consciência de que poderia ter sido diferente. Você pode imaginar as milhões de mulheres para quem a maternidade ocorre sem planejamento, sem o desejo de ser mãe? E, na maioria das vezes, elas pensam que não podem falar sobre isso. Acham que ninguém passou por essa experiência.”

Tive o privilégio de, inesperadamente, ver um relance da relação entre Swinton e seus filhos – um tema em relação ao qual ela é notoriamente reservada. Quando chegamos ao Hotel Haymarket, para continuar a entrevista, passamos por uma piscina coberta. Ali, uma menina e um garoto com os cabelos até a cintura brincavam animadamente na água, junto com um homem bonito, de barba escura e cerca de 30 anos. Swinton ri, feliz. São seus filhos e seu companheiro, o artista Sandro Kopp, que vieram de Nairn – onde vivem, na Escócia – para um raro passeio em Londres. Os gritinhos de alegria das crianças quando veem a mãe – ao menos foi o que eu deduzi – dão uma ideia de como Swinton teve de ir longe para se caracterizar como uma mãe tão mal resolvida.

Em 2008, ela levou a imprensa à loucura, com as especulações – equivocadas, ela me garante – sobre um ménage à trois entre ela, Kopp, 17 anos mais novo, e seu companheiro na época, e pai de seus filhos, o artista John Byrne, 21 anos mais velho que ela.

Houve um período de sobreposição – ela começou a sair com Kopp quando ainda vivia com Byrne –, mas tanto ela quanto Byrne enfatizam que viviam conforme um acordo civilizado em que todos estavam bem felizes. “John Byrne e eu já não estávamos juntos havia alguns anos, antes mesmo de eu ter conhecido Sandro”, diz, conforme nos ajeitamos no sofá do hotel. “Foram apenas boatos – não houve amargura nem divórcio entre mim e John, porque tampouco houve casamento.” E quem as crianças chamam de pai? “O pai delas!”, ela diz, ligeiramente horrorizada. E como elas chamam Sandro? “Cara.”

Swinton, como os mais observadores já perceberam há tempos, sempre resistiu às convenções e às classificações fáceis. Formada pela Universidade de Cambridge, filha de um general, estudou na mesma escola que a Princesa Diana, mas trilhou um caminho oposto ao dela, filiando-se ao Partido Comunista quando tinha 20 e poucos anos – o mais perto que chegou à aceitação de qualquer tipo de rótulo. Logo descobriu que ficava mais à vontade em meio a artistas e diretores de cinema e foi então que começou a desenvolver a capacidade de criar várias identidades.

A falta de palavras é central em seu papel como Eva. “O livro de Lionel Shriver (escrito na forma de uma carta) é muito mais político do que o filme”, diz ela. “Há mais comentários sociais, um olhar sobre os Estados Unidos durante a era Bush. Mas o filme – nós soubemos desde o começo, inclusive porque queríamos que fosse uma obra cinematográfica – seria diferente. Ele trataria da incapacidade de articulação, seria sobre alguém isolado, alienado e estúpido.”

O “nós” refere-se a Swinton e ao diretor Lynne Ramsay, que, juntos, criaram algo perturbadoramente belo em torno de um assunto devastador. A violência masculina é o tema central em Precisamos falar sobre o Kevin, mas a principal questão do filme é saber até que ponto a maldade de Kevin é culpa de sua mãe. O que é mais brilhante na atuação de Swinton – e dos três garotos que interpretam Kevin em diferentes momentos de sua vida – é a ausência de respostas simples. “Lynne e eu quisemos nos assegurar de que Eva fosse passível de tantas interpretações, pelo público, quanto fosse possível”, explica. “Seria muito fácil exagerar em sua caracterização, e mesmo distorcê-la um pouco, de modo que as mães na plateia dissessem: ‘Bem, não sou assim, então isso não é problema meu’.”

É evidente que, a partir do momento em que engravida, Eva é dominada por um mórbido pavor (resumido de forma hilária em uma cena que se passa em um vestiário, na qual Swinton se senta, encurvada, com a barriga encoberta, enquanto outras grávidas vão e vêm, exibindo as barrigas desnudas). Imediatamente depois do nascimento de Kevin – momento em que a maioria das mães se encontra em êxtase –, ela se senta em seu leito no hospital, completamente abatida, enquanto seu marido (John C. Reilly) segura o bebê. O filme não é editado cronologicamente. São diversos flashbacks em que é possível observar o silêncio e o ódio entre mãe e filho, bem como os pequenos atos de crueldade realizados por ele em busca de atenção e que pouco a pouco configuram o massacre final como um desfecho inevitável. As imagens impressionantes não poupam a suscetibilidade do espectador – em determinado momento, após um incidente no qual a filha de Eva perde um olho, vemos Kevin descascando uma lichia, sadicamente.

Ramsay escolheu a cor vermelha como um fio condutor visual tremendamente sedutor – a cor está em tudo, da parede à geleia de morango. Na sequência de abertura do filme, Swinton parece estar afundando em um mar de corpos, cobertos com o que inicialmente parece sangue, mas então se revela molho de tomate. “Tivemos uma hora, ou talvez um pouco menos, para gravar na Tomatina, em Buñol (uma celebração valenciana que termina com uma guerra de tomates)”, explica Swinton, “e queríamos fazê-lo em parte para mostrar que minha personagem adora viajar pelo mundo e que isso é algo que ela teve de sacrificar para ser mãe. Na primeira vez em que saímos para gravar, em três ou quatro segundos a câmera ficou completamente encharcada pelo molho de tomate e nós tivemos que trocá-la. A experiência como um todo durante a realização do longa foi muito intensa. Mas sinto que o que se depreende dessa sequência não é o cheiro de tomates misturado com cerveja, urina e suor, mas apenas o cheiro de testosterona, a mais pura e simples”.

Escrito por Rachel Halliburton
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