Cineminha hoje?

As 5 estreias da semana: 4 filmes e 1 escritor, André de Leones, o novo crítico da Time Out São Paulo

Divulgação/Paris Filmes
Cena de O Artista

O Artista | Cada um tem a Gêmea que Merece |
O Despertar | Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma 


Atualizada em 13/2/2012

Dentre as quatro estreias desta sexta-feira, 10, o destaque é um filme indicado a dez Oscar, O Artista. Em preto-e-branco e quase que inteiramente mudo, o filme recupera a alegria e o esplendor hollywoodianos, que nada têm de ultrapassados, e encerra uma viagem autenticamente pós-moderna – é cinema se alimentando de cinema.

Descendo vários degraus até o entretenimento puro, há três opções bem distintas. Cada um Tem a Gêmea que Merece é uma comédia que dá ao espectador a oportunidade de ver Adam Sandler em dose dupla, conforme o título já sugere.

O Despertar, um thriller passado no período entreguerras, joga sua protagonista e o espectador em um internato supostamente assombrado pelo fantasma de uma criança.

E, por fim, temos a reestreia de Star Wars: Episódio 1 – A Ameaça Fantasma. Os fãs (e alguns incautos) poderão conferir, agora em 3D, o filme no qual George Lucas começou a contar a origem do personagem mais famigerado da série: Darth Vader. Aproveite com pipoca salgada ou doce.


O Artista (The Artist)
 

É difícil para o público não especializado de hoje compreender o trauma da passagem do cinema mudo para o falado. Com o som, tivemos o advento de uma nova forma de expressão em detrimento de outra e grandes artistas da era do cinema mudo não conseguiram se adaptar à novidade. Em muitos casos, eles viram suas carreiras naufragar. Esse período de transição e seus efeitos são abordados por clássicos como Cantando na Chuva, de Stanley Donen e Gene Kelly, e Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, e, agora, por O Artista, filme de Michel Hazanavicius indicado a dez Oscar.

Mais do que aludir àquela época, O Artista trata de revivê-la por meio de uma ousadia deliciosa: o filme é mudo, em preto-e-branco e faz uso da tela quadrada (em vez da retangular), típica do cinema em seus primórdios. É por essa janela que acompanhamos a queda do astro George Valentin (Jean Dujardin) rumo ao ostracismo a partir do momento em que a novidade tecnológica se instaura e ele se vê sem lugar na indústria. Paralelamente à derrocada de Valentin, temos a ascenção de Peppy Miller (Bérénice Bejo). O envolvimento hesitante, mas profundo e de extrema beleza, entre Valentin e Miller é o que amarra as pontas da história e nos conduz a um desfecho que celebra o próprio cinema e suas inúmeras possibilidades.

Hazanavicius compõe uma narrativa que, embora muda, e a exemplo daqueles filmes, nada tem de silenciosa. O uso que faz da música – e da sua ausência – e da própria imagem para transmitir informações sonoras (os aplausos da plateia numa sessão de cinema “ouvidos” na expressão facial de Valentin) e emocionais (o silencioso encontro final entre Valentin e Miller) é algo soberbo. Assim, O Artista resgata toda a alegria de um cinema passado e acaba por se tornar um enorme e caloroso abraço em qualquer pessoa que, conhecendo ou não a história do cinema, ame essa forma de arte. 

Dir. Michel Hazanavicius, EUA/França/Bélgica, 2011. Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman. 100 min.


Cada um tem a Gêmea que Merece (Jack and Jill)
 

Dennis Dugan (de Eu os Declaro Marido e... Larry e Zohan) dirige este veículo desgovernado tendo, mais uma vez, Adam Sandler no banco dianteiro. Juntos, eles já cometeram sete filmes. A exemplo dos demais, este aqui também é, pelo menos em tese, uma comédia. Nela, o protagonista, um publicitário bem-sucedido, recebe a visita de sua irmã gêmea no feriado de Ação de Graças. Ela se recusará a ir embora, instaurando aquilo que, daqui a um tempo, o locutor da Sessão da Tarde caracterizará como “muitas confusões”.

Sandler em dose dupla, humor rasteiro e um final previsivelmente moralista e redentor resumem Cada um Tem a Gêmea que Merece. Para não sermos injustos com Sandler, lembremos de sua atuação em Embriagado de Amor, filme dos mais belos pelo qual Paul Thomas Anderson (Magnólia, Sangue Negro) foi agraciado com o prêmio de Melhor Direção no Festival de Cannes.

Óbvio que Cada um Tem a Gêmea que Merece pertence a, digamos, outro tipo de arte. Katie Holmes é a mulher de Sandler e Al Pacino interpreta a si mesmo, como, aliás, tem feito desde meados dos anos 1990.

Dir. Dennis Dugan, EUA, 2011. Adam Sandler, Al Pacino, Katie Holmes. 91 mins.


O Despertar (The Awakening)
 

Em 1921, quando a Inglaterra ainda convalesce da Guerra Mundial encerrada três anos antes, uma especialista em investigar – e desmascarar – supostos eventos sobrenaturais é chamada a um internato. Ali, estariam ocorrendo aparições do fantasma de uma criança. O arco narrativo habitual nesse tipo de thriller vai do ceticismo à dúvida, e desta ao desvelamento final, com direito a sustos maiores ou menores no trajeto, dependendo das suscetibilidades do espectador.

O Despertar conta com um elenco acima da média, em que Rebecca Hall (a Vicky de Vicky Cristina Barcelona), Dominic West (da série de TV The Wire) e Imelda Staunton (indicada ao Oscar por Vera Drake e coadjuvante de luxo em dois filmes da série Harry Potter) conferem alguma credibilidade dramática a seja lá o que for que estiver acontecendo na tela. De resto, em sua estreia em longas para cinema, Nick Murphy demonstra ser um operário competente. Seu próximo filme, o policial Blood, contará com Paul Bettany e Brian Cox no elenco.

Dir. Nick Murphy, Inglaterra, 2011. Rebecca Hall, Dominic West, Imelda Staunton. 107 min.


Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma (Star Wars: Episode I – The Phantom Menace)
 

Relançamento em 3D do fraco reboot da saga Star Wars, que estreou dezesseis anos após O Retorno do Jedi, último filme da trilogia original. Cronologicamente, A Ameaça Fantasma é o início de toda a história que depois resultará em Luke, Han Solo e, bem, nos ewoks. É nele que encontramos Anakin Skywalker, o futuro Darth Vader, ainda criança.

Agora, graças ao enorme talento mercadológico de George Lucas, o espectador poderá conferir em três dimensões a direção pouco imaginativa, o roteiro capenga e o ritmo claudicante de um produto que está muito longe de fazer jus ao assombro causado por seus predecessores, especialmente O Império Contra-Ataca. Louve-se, no entanto, em meio à avalanche de efeitos visuais que tentam encobrir as inúmeras deficiências de A Ameaça Fantasma, a atuação de Pernilla August como Shmi, a mãe de Anakin. August confere à personagem aquilo que falta ao filme: alma. Talvez não seja o bastante para que os imunes à ‘magia’ de Star Wars saiam de casa e enfrentem uma sessão lotada, mas já é alguma coisa.

Dir. George Lucas, EUA, 1999. Liam Neeson, Ewan McGregor, Natalie Portman. 136 min.

Escrito por André de Leones
 

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